2018 por BOCA Jornalismo.

Do Plenarinho ao Planalto

O QUE OS LÍDERES DE PARTIDO DA CÂMARA DE VEREADORES DE SANTA MARIA PENSAM DAS POLÍTICAS NACIONAIS?

 

No jogo político, muitas vezes é possível encontrar divergências entre aquilo que acontece nos âmbitos federais, estaduais e municipais. Em Santa Maria, por exemplo, PT e PMDB foram adversários durante os oito anos (de 2008 a 2016) do governo de Cézar Schirmer (PMDB) - e, anteriormente, nos oito anos (2000 a 2008) de Valdeci Oliveira (PT). Em meio a disputas e discordâncias locais, na esfera nacional os partidos mantiveram aliança por 13 anos. Inclusive, nos dois mandatos da presidente Dilma Rousseff (PT), a principal liderança do PMDB nacional, Michel Temer, ocupou o cargo de vice-presidente. Isso até Dilma sofrer um impeachment e o próprio Temer assumir a Presidência da República, quando se dá a grande virada na maré desse jogo.

 

Com a ascensão de Temer ao posto mais alto da política brasileira (segundo os petistas, via golpe de Estado), a antiga base aliada se desmantela, sobrando, ao lado do PT - agora oposição - apenas o PDT e o PCdoB, com PSOL e REDE figurando como “oposição independente”. A antiga oposição, formada por PSDB, DEM e PPS, compõe agora, junto ao PMDB, o governo federal, ocupando importantes cargos e ministérios.

 

Hoje, 11 partidos têm representação na Câmara de Vereadores de Santa Maria. Os poderes Executivo e Legislativo são controlados pelo PSDB (respectivamente, pelos irmãos Jorge e Admar Pozzobom). Será que as lideranças municipais destes partidos concordam com a atuação de suas legendas nacionalmente? Fomos entrevistar os 11 líderes das bancadas santa-marienses para saber.

 

 

DILMA ROUSSEFF COMETEU CRIME DE RESPONSABILIDADE?

 

A maioria dos parlamentares santa-marienses está de acordo com o posicionamento geral dos seus partidos, na Câmara e no Senado. Destacamos aqui os quatro vereadores que tiveram de ser enquadrados como “neutros”. O vereador Jorge “Jorjão” Soares (REDE) afirma defender o impedimento da chapa Dilma-Temer via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou seja, por um crime diferente que o de responsabilidade. Na Câmara de Deputados o seu partido se dividiu quanto a abertura do processo de impeachment (2x2), enquanto o único Senador da legenda foi contrário ao afastamento.

 

Os vereadores Leopoldo “Alemão do Gás” Ochulaki (PSB) e Alexandre Vargas (PRB) preferiram não opinar sobre a questão, por avaliarem que existem “órgãos mais competentes para tratar disso”. Os partidos de ambos foram majoritariamente favoráveis ao impeachment. Já a vereadora Luci “Tia da Moto” Duarte (PDT) diz preferir se abster de questão. A maioria dos deputados e senadores da sua legenda foram contrários ao impedimento da presidenta.

 

VOCÊ É FAVORÁVEL À NOVA LEI DAS TERCEIRIZAÇÕES?

 

No dia 22 de março, foi aprovado na Câmara de Deputados um projeto de lei que traz mudanças na relação entre contratantes e trabalhadores terceirizados. Dentre as principais mudanças, está a permissão de que o trabalhador terceirizado realize a atividade-fim da empresa (no que a empresa é especializada), um aumento no tempo de contrato temporário (antes de três meses e agora de seis) e a regulamentação das quarteirizações (empresas terceirizadoras contratarem terceirizados). O projeto foi bastante polêmico e gerou amplos protestos das centrais sindicais, além de ser considerado pelo governo Temer como essencial para a geração de empregos.

 

Novamente, a maioria dos vereadores votou com o seu partido, apesar de um grande número de ressalvas, que tratam da terceirização do serviço público - que não foi aprovada no projeto da Câmara - e a forma como o projeto passou, segundo o vereador Juliano “Juba” Soares (PSDB), na “calada da noite”. Aqui surpreende o vereador Daniel Diniz, líder da bancada do PT, considerar a terceirização “importante para certas coisas”: os deputados de seu partido votaram integralmente contra o projeto.

 

Marion Mortari (PSD), que considera o projeto “um ganhar em cima dos outros” também opinou contra os deputados de seu partido, que votaram a favor. A neutralidade de Deili Granvile pode ser vista no seu partido, o PTB. Apesar de a maioria dos Deputados ser favorável às terceirizações, o placar foi apertado: 10 x 6.

 

VOCÊ É FAVORÁVEL À REFORMA DA PREVIDÊNCIA?

Considerado essencial para a recuperação da economia pelo governo Temer, que aponta a possibilidade de um colapso previdenciário caso o projeto não seja aprovado. Também polêmico, o projeto custa a passar na Câmara dos Deputados, enfrentando resistência até mesmo da base aliada. Um placar constantemente atualizado pelo jornal “O Estado de São Paulo” mostra que, se fosse votada hoje, a proposta não passaria. Dois dados curiosos são revelados pela ferramenta: o de que apenas quinze Deputados Federais não têm ressalva alguma em relação ao projeto e o de que a maioria dos parlamentares que está mudando de lado, opta pelo lado contrário à reforma.

 

No mesmo sentido, a Câmara de Vereadores de Santa Maria aprovou, com unanimidade, uma moção contrária à reforma, em abril deste ano. Entretanto, alguns vereadores se demonstraram favoráveis à medida quando questionados. Um deles é a vereadora Deili Granvile (PTB), que afirmou que “as mudanças têm que acontecer, devidamente estudadas por especialistas”. Descontando os indecisos, seu partido é favorável à reforma pelo placar de 7x5. Mais uma vez o posicionamento de Daniel Diniz (PT) surpreendeu: seu partido é um dos principais adversários da proposta, mobilizando comitês de enfrentamento pelo Brasil inteiro. Daniel é contrário à reforma que está circulando na câmara, mas destacou ser “favorável a uma reforma da previdência, principalmente uma que inclua a classe política”.  Até mesmo o líder municipal do partido do Presidente da República, João Kaus (PMDB), tem ressalvas ao projeto: “Não se sabe se vão fazer uma reforma justa, se vão tocar em todas as classes”.

 

VOCÊ É A FAVORÁVEL À OPERAÇÃO LAVA-JATO?

O conjunto de investigações movidas pela Polícia Federal que visa investigar relações ilícitas entre os órgãos públicos e entes privados mexeu bastante com o jogo político nos últimos anos. Com investigações que atingem parlamentares, ex-presidentes e até mesmo ministros do alto escalão do governo, fica difícil não haver relações de nenhum partido político com a operação. Alguns dos principais investigadores, como o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, ganharam status de celebridade. E é possível dizer que toda a investigação teve grande influência no processo de impeachment da ex-presidenta Dilma.

 

Todos os vereadores entrevistados são favoráveis à Operação. Os que apresentam ressalvas - Luci “Tia da Moto” Duarte (PDT) e Daniel Diniz (PT) - apontam que as investigações devem seguir imparciais, sem favorecimentos. o PDT não possui nenhum político investigado na Lava-Jato, ao contrário do PT, que possui vinte e dois (incluindo os ex-presidentes Lula e Dilma). Vanderlei Araújo (PP), do partido com mais políticos investigados (ao todo, trinta e um), afirma que a operação existe “graças à Deus”. Juliano “Juba” Soares (PSDB), cujo partido tem seis investigados - dentre eles o senador e presidente do partido Aécio Neves - nega que haja seletividade na operação: “Muitos afirmam que ela é seletiva, mas isso aí não existe não”.

 

VOCÊ ENXERGA UM PROBLEMA DE REPRESENTIVIDADE FEMININA NO GOVERNO?

A última pergunta que fizemos aos nossos vereadores não diz tanto quanto a projetos de governo, mas sobre como eles lidam com um problema estrutural da política brasileira: a falta de mulheres exercendo ou concorrendo a funções políticas. A nossa Câmara de Vereadores só conta hoje com cinco mulheres, contra 16 homens: Luci “Tia da Moto” Duarte (PDT), Deili Granvile (PTB), Pastora Lorena Santos (PSDB), Celita da Silva (PT) e Maria Aparecida “Cida” Brizola (PP). Nas eleições de 2016, todos os partidos foram obrigados a terem um mínimo de 30% de mulheres candidatas e, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos partidos com representação na Câmara de Vereadores de Santa Maria o que teve mais candidatas nacionalmente foi o PT, mesmo com apenas 34,33%. Em resumo: os partidos colocam mulheres apenas para cumprir a cota mínima.

 

O governo de Michel Temer (PMDB) tem enfrentado diversas polêmicas no que se refere à representatividade feminina. A primeira delas veio logo na posse, quando nenhum dos vinte e dois ministros indicados pertencia ao gênero feminino. Depois, o controverso uso da imagem da primeira-dama como construção de uma “mulher ideal” pelos órgãos de comunicação. Por fim, o problemático discurso do presidente no “Dia da Mulher”, quando afirmou que as mulheres fazem bem para a economia por apontarem “os desajustes de preços em supermercados e identificar flutuações econômicas no orçamento doméstico”. Em meio a todas essas questões, as duas líderes de bancada do sexo feminino - Luci (PDT) e Deili (PTB) - juntamente a outros seis vereadores, afirmam haver um problema quanto a representatividade feminina no governo Temer.

 

Os outros três vereadores alegaram uma mesma razão para a falta de mulheres na composição governamental: meritocracia. João Kaus (PMDB) afirmou que a falta de ministras foi “coincidência”, mas que a escolha deve ser por proximidade e mérito. Vanderlei Araújo (PP), diz que há sim uma “falta de sensibilidade” do presidente para com a questão feminina, porém não vê menosprezo às mulheres na escolha dos cargos para o alto escalão. Já Alexandre Vargas (PRB) afirmou que: “quando competentes, mulheres devem sim ocupar cargos no governo”, tornando impossível identificar se o vereador vê um problema ou não de representatividade.

 

Infográficos por Sabrina Cáceres

 

 

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