2018 por BOCA Jornalismo.

Tudo Pela Reitoria

Nos dias 27 e 28 de junho acontece a consulta para a reitoria da Universidade Federal de Santa Maria. Sim, consulta, já que a definição oficial é do Conselho Universitário, que tem respeitado a decisão referendada pela votação. A eleição é paritária, o que quer dizer que cada uma das categorias da UFSM (professores, alunos e técnicos) têm o mesmo peso - ou seja, ⅓ - na votação. Isso impede que os estudantes, por exemplo, tenham uma maior importância eleitoral, mesmo que sejam mais numerosos. Três chapas disputam o pleito: “Para mudar ainda mais”, do reitor Paulo Burmann e do diretor do Centro de Tecnologia Luciano Schuch; “Juntos por um novo amanhã”, do ex-vice-reitor Dalvan Reinert e do diretor do Centro de Artes e Letras Pedro Brum e “Coragem para mudar pela base”, da diretora do Centro de Educação Helenise Antunes e da professora Laura Fonseca.

 

No dia 19, pela manhã, as três chapas estiveram em um caloroso debate realizado no campus sede da Universidade. Nele, pudemos perceber os desafios e as contradições do jogo político presente na mais antiga universidade do interior do Brasil, cada vez mais parecido com o confuso e volátil jogo político de Brasília.

 

 

Chapa 1: Pra mudar ainda mais

Reitor: Paulo Afonso Burmann

Vice-Reitor: Luciano Schuch

 

Paulo Burmann é tido como um raro caso de persistência eleitoral na UFSM. Concorreu e perdeu em 2005 e 2009. Em 2013, seu êxito - alicerçado basicamente por estudantes, técnicos e movimentos sociais - representou a primeira vitória de um candidato de oposição no pleito. Ao anexar o diretor do Centro de Tecnologia Luciano Schuch à chapa (o atual vice-reitor Paulo Bayard decidiu não concorrer), Burmann acresce um setor onde, eleitoralmente, se mostrava fraco: foi o último colocado no CT em 2013, com apenas  213 votos de 1323. Seu principal desafio na campanha é reconquistar um setor social muito perdido ao longo da gestão, por ações consideradas conservadoras.

 

Durante o debate, Burmann insistiu que sua reeleição representa uma continuidade da “gestão democrática que a universidade vem experimentando”. Ele enfatizou que, nos últimos quatro anos, a UFSM viveu um período de transparência e de respeito às diferenças e decisões coletivas. No debate com seus oponentes, Burmann preferiu se ater aos indicadores de qualidade, sem necessariamente apontar o que eles representam. De acordo com estes indicadores, a UFSM figura entre as melhores universidades do país, resultado que ele atribuiu ao fortalecimento do ensino, da pesquisa e da extensão, sem também apontar de que maneira se construiu este fortalecimento. Destacou que sua gestão foi capaz de “fazer mais com menos recursos”, apesar do desafio que isso isso representou.

 

Burmann se referiu a Schuch como um “jovem talento”, e pareceu aproveitar o espaço (o debate foi realizado em um auditório do Centro de Tecnologia) para apresentar o seu vice. Ambos evitaram falar de propostas, tratando de conceitos mais amplos, como “união”, “transparência” e, a já citada, “democracia”. Mesmo assim, não se mantiveram na postura de docilidade, respondendo com firmeza às provocações. Quando questionado pela Chapa 3 sobre a instalação do ponto biométrico na UFSM, Burmann foi contundente: afirmou que não era ele que deveria estar sendo perguntando sobre isso, em uma clara referência ao fato de que o ponto foi implementado na gestão do professor Felipe Müller, da qual Dalvan Reinert era o vice.

 

Foi, em dois momentos, questionado sobre a mudança do vestibular para o SISU e sobre ter mudado de ideia quanto à reeleição. Registramos uma dessas respostas:

 

 

 

Chapa 2: Juntos por um novo amanhã

Reitor: Dalvan Reinert

Vice-reitor: Pedro Brum

 

Dalvan Reinert foi vice na gestão anterior a de Burmann, quando Felipe Müller era o reitor da Universidade. Ambos representavam a continuidade de uma longa tradição de reitores que elegiam seus sucessores, iniciada com o próprio fundador da UFSM, o professor José Mariano da Rocha, mas mais atrelada à eleição do professor Paulo Sarkis, em 2001. Tidos por um perfil mais conservador, os docentes desta linha se viram bastante prejudicados com a implementação da paridade de voto em 2013: a vitória de Burmann foi acachapante entre estudantes e técnicos (respectivamente 4613 de 9130 votos válidos e 1361 de 2385 votos válidos) enquanto Müller foi vitorioso entre os docentes (838 de 1838 votos válidos). Se aliar ao atual diretor do Centro de Artes e Letras parece ser estratégico: se desvincular das ditas ciências hard e se aproximar de um perfil mais humanizado, pelo menos esteticamente.  

 

No debate, o ex-vice-reitor classificou os anos da gestão Burmann como um período de estagnação, em que a universidade deu “passos para trás”. Dessa forma, segundo Dalvan, ele e Pedro começaram no ano passado a organizar sua disputa pela reitoria como uma “oposição construtiva” à gestão Burmann. Enfatizou a qualificação profissional, a experiência em gestão e o trabalho, em detrimento da política, estratégia utilizada com sucesso por diversos candidatos nas últimas eleições municipais. Ainda nesse sentido, a chapa destacou que busca uma gestão menos burocrática e mais democrática, com respeito às diferenças.

 

Dalvan se atrapalhou em alguns momentos de sua fala. Ao ser questionado sobre a implementação do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) na Universidade, passou a impressão inicial de não saber do que se tratava, apesar de posteriormente responder a questão sem precisar de assessoria. Suas falas, assim como as de Burmann, apresentavam um perfil pouco posicionado e amplo, mas com um caráter mais propositivo: prometeu a instauração de um terceiro Restaurante Universitário no campus, a criação de um portal de gestão administrativa e a elaboração de um mecanismo de contato com os campi. Sua maior dificuldade parece ser a oratória, constantemente compensada pelas falas de seu vice.

 

A chapa é bastante cobrada pelo tema “ocupações”, já que a gestão de de Felipe Müller enfrentou uma grande ocupação de reitoria em 2011, com diversas tentativas por parte da gestão de desarticular a ocupação. A ocupação durou 12 dias, quatro vezes mais que a ocupação de reitoria de 2014, enfrentada por Burmann. “Ocupações” foi o tema da última pergunta feita aos candidatos no debate do dia 19. Registramos a resposta de Dalvan:

 

 

 

Chapa 3: Coragem para mudar pela base

Reitora: Helenise Antunes

Vice-reitora: Laura Fonseca

 

Não é novidade a existência de três chapas concorrendo ao pleito para ocupar a cadeira do 5º andar da reitoria. Também não é novidade a presença de mulheres na disputa: em 2005 Elaine Resener foi candidata, ficando em segundo lugar com 37,7% dos votos. Talvez a grande novidade que esta chapa traga para a eleição seja o fato de, pela primeira vez, uma chapa se posicionar claramente em um determinado espectro político, e com uma postura crítica ao governo federal (o posicionamento protocolar é o usual “dialogaremos independente de governos ou partidos”). Forjada nas ocupações da UFSM contrárias à PEC do congelamento dos gastos, a chapa é formada por uma diretora de centro bastante popular em sua área (o Centro de Educação) e uma professora ligada aos movimentos sociais. Movimentos estes que, insatisfeitos com os rumos da gestão Burmann, se tornaram a principal base de apoio da Chapa 3. O grande desafio para a dupla é o de capitanear votos fora desse campo, onde a candidatura é vista como pouco viável.

 

Em sua apresentação no debate, Helenise deu ênfase à construção coletiva de seu projeto de campanha que, segundo ela, “não foi forjado em gabinete, surge da base dos estudantes, técnicos-administrativos e professores”. Ela destacou medidas adotadas durante sua gestão de diretora do Centro de Educação, como a premiação dos portais da transparência pelo Fundação Nacional de Qualidade (FNQ). A chapa afirmou-se como contrária aos “movimentos de privatização, sutis e não sutis que estão espalhados no cotidiano da instituição” e favorável a uma democracia participativa, em detrimento da democracia representativa que, segundo as professoras, não contempla as categorias. Helenise foi, ao longo de sua apresentação, mais propositiva que seus oponentes. Como proposta, a professora salientou a garantia de participação dos estudantes no processo de planejamento orçamentário da verba do PNAES, implantação de política de cotas na pós-graduação e ampliação dos portais da transparência da UFSM.

 

Outra proposta que a chapa apresenta é a de paridade de gênero para todos os cargos da reitoria. A questão do gênero é reforçada constantemente pelas duas candidatas: em determinado momento, Helenise é interpelada por um apoiador de Burmann na plateia, pelo fato de estar respondendo a uma pergunta sorteada que não era necessariamente uma pergunta (era uma carta-manifesto do coletivo sindical “Sempre na Luta”, cuja entrega a todas as chapas foi solicitada por meio de um bilhete deixado na urna de perguntas). Helenise responde ao ouvinte com bastante veemência, caracterizando aquela atitude como machista. No geral, a chapa demonstra posturas bastante posicionadas quanto às temáticas sociais. A vice, Laura, chega a afirmar que a gestão se preocupará com direitos humanos em um sentido amplo, e não só com a Ditadura (em clara referência a instauração da Comissão da Verdade da UFSM, orgulho da gestão Burmann). Tamanha radicalidade porém, não é vista no que se refere ao HUSM. Ao serem questionadas sobre a implementação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), as candidatas tiveram o tom de trabalhar apesar disso, e não da reversão do processo:

 

 

 

 

Financiamento

 

Não é só nas estratégias políticas e nos debates acirrados que a eleição para a reitoria da UFSM se assemelha à política tradicional. A cada pleito, mais dinheiro é investido nas candidaturas, que buscam marcar o eleitorado com amplas políticas de comunicação. A Chapa 1, por exemplo, pretende arrecadar R$ 40.000 até o fim da campanha. Esse dinheiro será doado, segundo a assessoria da Chapa, por apoiadores e pelos próprios candidatos. Para termos de comparação, a campanha de Burmann projetou gastar R$25.000 na eleição de 2013.

 

Hoje trabalham aproximadamente 400 voluntários na campanha, que não conta com nenhum remunerado cumprindo funções. Além dos tradicionais cachecóis laranja (também distribuídos em 2013), a equipe de Burmann conta também com um espaço físico para a organização da campanha, na Faixa Nova (BR-287). A campanha é a única a não divulgar publicamente nenhum balanço de gastos da campanha, prometendo fazer ao fim do pleito.

 

A campanha da Chapa 2 arrecadou R$ R$ 28.184,01 até o dia 14 deste mês. Segundo um balanço completo divulgado no site da campanha, esse dinheiro é todo proveniente de doações. A campanha conta com 150 voluntários e paga remunerados para as funções de propaganda e marketing, custando R$7.600 no total. Assim como Burmann, a campanha de Dalvan também possui um comitê físico, que teve seus encargos calculados em R$2.100, além de ter instalado outdoors em vias próximas à entrada do Campus, custando R$3.900. Apesar de cara, a campanha é consideravelmente mais modesta que o pleito em que Dalvan concorreu como vice em 2013, quando a chapa de Felipe Müller objetivava arrecadar R$78.000.

 

A campanha mais discreta até o momento é a da Chapa 3, que objetiva a arrecadação de R$15.000, também através da doação de apoiadores. Atualmente, 120 voluntários atuam na campanha que não conta com remunerados diretamente, mas contratou uma agência de marketing para gerenciar a comunicação da Chapa, no valor de R$3.000. A assessoria da Chapa 3 informa que existe uma prestação de contas da campanha na sua página oficial do Facebook.

 

Falando em Facebook, as três chapas estão fazendo uso intensivo da ferramenta. Aparentemente, existe uma relação entre investimento financeiro e alcance da página, já que a Chapa 1 é a que  possui mais curtidas, com 2.640 no momento em que esta reportagem foi escrita. Em seguida, a Chapa 2, com 1.896. A Chapa 3 é a que possui o menor número de curtidas, com 1.363. Ao ser questionada sobre o menor alcance, a assessoria da Chapa respondeu: “As curtidas nas postagens de perfil pessoal têm alcançado muito mais pessoas ligadas à UFSM do que necessariamente curtidas na página oficial. Assim, quem curte e compartilha nossas postagens não necessariamente curtiu a página da chapa 3 no Facebook’.

 

*Devido a problemas técnicos imprevistos todos os vídeos foram captados com celular*

* ERRATA: Na matéria publicada pelo BOCA Jornalismo em 22 de junho de 2017, afirmamos que, durante o debate ocorrido no dia 19 do mesmo mês, o coletivo sindical "Sempre na Luta" entregou uma nota de apoio à chapa 3 - Coragem para mudar pela base. No entanto, houve um equívoco da reportagem: o coletivo entregou uma carta-manifesto na qual especificava suas demandas para todas as chapas. O coletivo "Sempre na Luta" entrou em contato com o BOCA Jornalismo e o texto foi alterado.

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