2018 por BOCA Jornalismo.

Não quero mais falar sobre gênero

25/6/2017

Sou uma feminista (relativamente) jovem. Não faz muito tempo que comecei a me dar por conta que os espaços que eu vivia eram repletos de homens. Que as opiniões que eu escutava com atenção e validava, eram as masculinas (vindas de homens, no caso). Assim como as opiniões, as profissões, as escolhas, as opções, as ponderações, os argumentos e tudo mais – o mundo que eu vivia (e vivo) é povoado pela expressão masculina valorada como se fosse a verdade absoluta.

 

De um tempo pra cá, presenciei, participei e vivenciei a luta das mulheres em diferentes aspectos. Por fronts diversos: em todos esses, fomos pintando nossa expressão. Passamos a opinar e a falar. Mais que isso -  passamos a exigir que tivéssemos espaço para opinar e falar, pois, presumimos que ocupar um espaço de fala é sinal de ser ao menos escutado, já que sempre foi assim com os amigos homens que conhecemos.

 

Ultimamente tenho achado que não é suficiente, não.

 

Eu gosto de acompanhar o cenário político atual, a situação que nós vivemos, as crises e as mudanças (ou contrapesos): é reforma da previdência e trabalhista, greve geral, calote de bancos nacionais e internacionais, reforma política, economia a milhão, migrações contemporâneas (uma temática que hoje eu estudo na universidade e que me é bastante cara). Enfim, é uma ca-ce-ta-da de coisas rolando, eu vejo e acompanho o que eu posso e aguento. Desse modo, o discurso da esquerda política (ou da orientação mais progressista, supostamente igualitária), com o qual me alinho mais, faz uma crítica a esse modelo estabelecido – ao capitalismo, às tiranias da vida moderna. Eu leio, concordo, aceno, me sinto representada. Mas, basta eu dar o dedo que a mão se vai junto. Todo esse bolo rolando e os vídeos, debates, publicações, discursos, reuniões, coletivos, assembleias, enfim, quaisquer espaços nos quais a gente se encontre (ou se perceba, mesmo que virtualmente) e o que acontece?

 

As mesmas opiniões masculinas de sempre são as que prevalecem. E olha que nós temos mulheres liderando espaços diversos, falando, se colocando na política (nas ações do dia a dia ou mesmo na institucionalidade). Nós mulheres estamos lá, de alguma forma. Mas quem está comentando sobre os ataques aos direitos trabalhistas, sobre macroeconomia, sobre a rodada do campeonato brasileiro? Homens.

 

E sabe por quê? Porque as mulheres estão na mesa sobre “os direitos trabalhistas e gênero”, “reforma política e as mulheres”. Mesas fundamentais, com pontos essenciais (seria ainda melhor se também estivessem lotadas de homens, e não apenas de mulheres, mas, enfim, isso é outra conversa).

 

Nós não somos as culpadas. Nós queremos equidade e equilíbrio. Falar e ser ouvida. Mas o que acontece, hoje, nos espaços progressistas que partilho, acaba sendo uma cena repetida: criação de mesas de mulheres para falar sobre temáticas de gênero para...mulheres. Quando nós temos algum espaço para comunicar em algum encontro esse espaço é normalmente sobre gênero. E sempre são convidadas mulheres fo-da (repito, foda!) para contribuírem com a pauta. Mas, e os espaços todos para além das questões de gênero? As mesmas mulheres foda não são somente foda na temática de gênero, mas em outros mil assuntos que ninguém perguntou se elas gostariam de abordar. Acabamos por ter espaços de debate político “duros”, acompanhados de mesas sobre gênero esvaziadas de pessoas que não se sintam contempladas pelo respectivo gênero abordado nas falas e comunicados. É tipo, “querem falar? Toma então uma mesa sobre gênero”.

 

É como se a gente só servisse para completar o “bingo das opressões” –“já tá representada com a mesa de opressões organizada para o nosso seminário, né?”. Que dizer então de setores indígenas, de negras e negros, LGBTT? Espaço somente para suas questões identitárias. Ocupar a política não é só inserir duas mulheres falando sobre mulher na política em um vídeo de dez minutos (cujos outros temas todos são debatidos apenas por homens), chamar o amigo negro para falar sobre extermínio da juventude negra, o camarada indígena para falar do massacre aos povos originários. Eu recorro ao mesmo erro da crítica que construo: acabo delegando aos amigos negros a temática da negritude (para citar apenas um dos muitos exemplos), esperando que seja sempre esse o recorte que eles desejarão fazer em qualquer momento que a gente possa dividir ou trocar conhecimento.

 

O ponto é: nós (as minorias sociais) não temos a “opção” de não falar sobre machismo, racismo, homofobia, lesbofobia, extermínio e genocídio étnicos e outras tantas feridas abertas. É mais que preferência: é questão de sobrevivência, de substituição de quadros "velhos" por novos, de estancamento do machucado exposto que são as opressões. Claro que quando eu comecei este texto falando que não gostaria mais de falar sobre gênero eu dei uma exagerada. Eu não tenho essa opção (e olha que eu ainda gozo de uma porção de privilégios). Acho que estamos pensando todos em caixinhas, e é onde reside nosso principal problema. Precisamos fazer ouvir sobre nossas pautas, mas nossas pautas não nos restringem. É muito emancipador ser um rosto negro – mesmo que o espaço não seja sobre a temática da negritude. É muito emancipador ser uma mulher discutindo a reforma política, mesmo que não estejamos em uma discussão sobre gênero. O contrário de expressar através de nós as nossas pautas, em todos os lugares que vamos, é a construção de “feudos” de debate, espaços que nós pecamos em não ampliar e que o outro peca em não se interessar. Pregamos pra convertido. Ou, somos escolhidos como as carinhas da pauta tal, mas é só até aí. Se a gente abrir a boca para qualquer outra coisa que não sobre a temática que nos foi delegada, a desautorização é imediata.

 

E é, por isso, que esta coluna que assumo com o pessoal do Boca não será somente sobre gênero, ainda que eu fale muito sobre isso e considere todo o espaço sobre gênero fundamental. Hoje eu quero o artigo sobre gênero e sociedade lido por muitos. Mas eu também quero que outros artigos sobre sociedade, escritos por mulheres, sejam tão lidos quanto. Sem que a gente tenha que pedir, sem que nos deem um espaço apenas por dar. Eu quero falar sobre gênero para que eu não tenha que falar apenas sobre gênero.

Nathália Costa (Panka) é jornalista, mestre em comunicação midiática e doutoranda na mesma temática. Participou de coletivos de mídia alternativa e auto-organizada, é educadora popular de redação e acredita em uma comunicação plural e emancipadora. Gosta de debater a sociedade e vai arriscar palpites neste espaço mensal.

 

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