2018 por BOCA Jornalismo.

#Resistência

Em 2015, o Brasil presenciou diversas ocupações promovidas, principalmente, por estudantes secundaristas. Inspiradas no movimento dos estudantes chilenos em 2011, as ocupações iniciaram em São Paulo e se espalharam por diversas cidades do país. Em Santa Maria, as ocupações começaram em meados de 2016, em apoio ao movimento grevista dos professores estaduais, motivado pelo parcelamento dos salários do governo de José Ivo Sartori (PMDB). Os estudantes também eram contrários ao Projeto de Lei 44/2016, que autoriza o Poder Executivo a qualificar como organizações sociais “pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à gestão, proteção e preservação do meio ambiente, à ação social, ao esporte, à saúde e à cultura”. Esta lei, de acordo com os ocupantes, daria brecha para a privatização e terceirização de serviços públicos, como a educação. O projeto segue em tramitação na Assembleia Legislativa do RS.

 

As ocupações acompanhadas por Eliza Capai no documentário Resistência surgiram num mesmo período de ebulição política, mas cada uma com suas pautas distintas: todas ocorreram entre maio e agosto de 2016, durante o governo interino de Michel Temer (PMDB), logo após a instauração do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT). Duas das ocupações ilustradas no documentário, #OcupaMinC-RJ e #OcupaFunarte-SP, resistiam à extinção do Ministério da Cultura. Já o #OcupaAlesp denunciava a “máfia das merendas” do governo do estado de São Paulo, exigindo uma CPI para investigar o desvio de recursos. A cineasta ainda registrou atos da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro e a Parada LGBTT de São Paulo. Eliza conversou com o BOCA Jornalismo sobre movimentos sociais, ocupações, política e mídia.

 

Boca Jornalismo: Nos últimos dois anos nós podemos dizer que houve uma explosão do movimento dos estudantes secundaristas Qual, na tua visão, é o reflexo disso nas discussões que esses jovens estão fazendo ainda agora?

 

Eliza Capai: Nós começamos a observar o movimento secundarista em novembro de 2015 com as ocupações contra a reforma escolar, no estado de São Paulo. Elas começam a ganhar o Brasil, muito inspiradas nas ocupações do Chile. O sul protagonizou ocupações muito importantes no ano passado. Eu sinto que é um movimento de transformação muito grande nos próprios jovens que estão ocupando, porque eles ganham consciência política, de como se faz política, de que política pode ser sim algo positivo. E isso vem ao mesmo tempo em que há uma ideia no país de que falar de política é ruim, que criminaliza qualquer coisa que se relacione com política, mas que não se dá conta de que tudo é político. Acho que as ocupações vêm trazer essa consciência para essa juventude, sinto isso como um movimento crescente. E são essas pessoas que daqui a pouco estarão fazendo política. Nas experiências que tive, havia um desejo muito grande do diálogo, da empatia, de realmente entender o outro para além da tolerância, era coisa de um respeito muito mais profundo. Penso que isso vai transformar profundamente esses jovens e o que virá de transformação daí o tempo vai dizer.


B: No momento das ocupações que você acompanhou havia uma “guerra midiática”. Havia muita informação, se falava sobre impeachment, por exemplo. E as ocupações vieram como reação à isso. Você vê a possibilidade de uma reação como essa no cenário atual?

 

 

B: Há uma relação entre os movimentos revolucionários das ruas e os movimentos reacionários que vimos nas urnas?

 

 

B: Como você avalia a relação movimento social e mídia? É importante que exista uma relação com a grande mídia e de que maneira ela deveria acontecer na tua visão?

 

E: Sinto que, historicamente, a grande mídia trabalha um discurso de criminalização dos movimentos sociais. Isso não é à toa, acho que existe um objetivo nisso, que é evitar que os movimentos sociais cresçam, porque as grandes transformações sociais vêm de movimentos sociais fortes. Boa parte das leis trabalhistas no Brasil não vieram porque o patrão era legal e quis fazer isso ou porque um deputado quis, mas porque teve uma pressão de sindicato; as grandes transformações de terra vêm porque há um MST organizado. Em qualquer país que nós admiramos a legislação social e as divisões sociais, elas se relacionam com um movimento social muito organizado e isso claramente abala esse centro de poder. Então acho que quando você é de um movimento social e, por toda a sua história, você observa o seu movimento social, a sua luta sendo criminalizada, é muito complicado esse diálogo. Eu, particularmente, sou absolutamente a favor desse diálogo, acho que as ocupações deviam convidar, inclusive, os jornalistas e debater abertamente questões como “qual é o objetivo?”, “o que você pretende com isso?”, “o que você está realmente vendo aqui?”, “como você consegue entender o que a gente está falando para além da sua opinião sobre o que está sendo dito?”. Os dois lados tem que tentar diálogo, mas nem sempre eles estão dispostos a isso e dialogar com quem não quer conversar é complicado. Cabe às ocupações entender quem são esses profissionais dispostos ao diálogo e chamá-los e dizer “vem entender o que está acontecendo aqui e conta do seu jeito, mas conta o que está acontecendo”. E cabe à mídia - não só grandes mídias, mas também mídias alternativas, que muitas vezes trabalham narrativas que não se relacionam com a realidade do que está acontecendo ali dentro. Nós temos que fazer a autocrítica e chamar para o diálogo. Não é simples, porque tem traumas, é uma relação viciada e por muito tempo agressiva, mas temos que buscar formas de romper essa agressividade e conseguir conversar. Os movimentos sociais têm que pensar em formas de ocupar a mídia, nós temos que ser cada vez mais inteligentes nas formas de fazer as coisas. Se o movimento social quer se fortalecer, tem que pensar em estratégias de chamar as pessoas que teriam interesse naquele discurso e naquelas propostas para junto e não criar mais distâncias.

 

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