2018 por BOCA Jornalismo.

O Xis-Temer

Você entra no estabelecimento. Limpo. Paredes brancas tal qual o principal produto

santa-mariense (farmácias ruins). Senta na cadeira de plástico onde as pernas fazem

gostosas parábolas ao aguentar o seu peso de três dígitos. Pega o cardápio de plástico

vagabundo e mal diagramado. Você se sente tal qual um guepardo do National

Geographic saltando sobre a traseira de um cervo. Afinal, é um predador e nada pode te

separar da sua presa: você tem fome de xis.

 

A fome de xis é um mal que acomete a todos os santa-marienses. Sem populismos

baratos, geralmente está relacionado às coisas simples de um xis. Ninguém tem fome de

xis filé-com-chedder (a grafia errônea é mais bonita). Ou mesmo de xis doce, polêmico.

E muito, muito menos do indigesto Pancho-no- pão-de- xis (uma das muitas ideias ruins

da infértil gastronomia boca-do- montense). A fome de xis é a fome por um pão

quentinho, douradinho, que faz um delicioso croc ao encostar o garfo (Come na mão?

Sem problema! Tem pra todos). Uma maionese cremosa e que não sobrepõe o sabor ao

resto do prato. Um ovo bem passado, mas sem estar queimado. Vejam, nem a carne aqui

é prioridade. A fome de xis é absurdamente democrática.

 

Eu particularmente tiro o milho e o catchup. Nada contra as iguarias. Milho na espiga

com manteiga derretida é melhor que muitas modalidades de sexo. Catchup vai bem

com muitas coisas que eu, particularmente, tenho vergonha de escrever aqui. Apenas

acho que ambos se sobrepõem à harmonia do prato. Falando em harmonia, voltemos ao

causo: pedi o tal do xis, num lugar novo que tava querendo experimentar. Como

descrito no primeiro parágrafo, tava tudo nos conformes. A atendente (que por acaso

também é caixa, cozinheira e proprietária: correto) me serve já com olhar de piedade,

um mau sinal.

 

Ao morder, me deparo com uma cena deprimente: um pão amolecido, daqueles que foi

prensado por tempo insuficiente e serviu apenas para amassar o que tava ali dentro.

Uma alface que soltava água suficiente para resolver a crise do Cantareira em 2014.

Tomate verde a La Daniel Day-Lewis. Bife desmanchado de guisado sem liga. Ovo

queimado nas bordas. Bacon meio cru (o tal de sushi de porco, moda em São Paulo).

Um horror, um pesadelo, terrível em muitos sentidos. Percebam: o cenário inteiro estava

favorável para uma boa refeição de Santa Maria, mas o erro nas coisas básicas não pode

ser perdoado. Aí, meu amigo, não importa se você é vegetariano, carnista, macrobiótico,

judeu, trekkie ou fã do Carpinejar: xis ruim ninguém merece.

 

Aquele xis tinha um sabor. Era o Xis-Temer. Mesmo os que apoiaram a retirada de

Dilma Rousseff, por razões variadas, e sustentavam o governo de Michel Temer, por

razões igualmente variadas, hoje já não conseguem mais se vincular a este. É um

governo que não entrega seu pão crocante e sua maionese cremosa: o mínimo de

honestidade pública e bons resultados na economia. Não foram esses, afinal, os

baluartes de sustentação da saída de Dilma? Xis ruim não agrada ninguém. Michel

Temer tampouco.

 

Resta saber se esses ideários (os da moralidade e da estabilidade econômica) são

universais ou apenas justificativas para a manutenção de um determinado tipo de

política que, convenhamos, Dilma já pretendia adotar e Temer está adotando mais

rápido, com suas reformas. A tal “defesa das reformas” pode ser pra população só mais

um acompanhamento (para uns, mais murcho que para outros), mas para a classe

política tem soado como o grande definidor para a manutenção ou não ao lado de

Temer.

 

E o nosso pãozinho? E a nossa maionese? A cozinha jogou pro fim da espera. A

prioridade é a batata frita deles. Com muito sal, por favor.

 

 

Mateus de Albuquerque é jornalista e cursa mestrado em Ciências Sociais e membro-

fundador do BOCA Jornalismo. Gosta da política discutida nos bares (por que boteco é

muito chique) e vai tentar reproduzir isso nesse espaço. Acredita que é nessas

acrópoles modernas, despidas de terno e gravata, que a política e debatida sem suas

maquiagens habituais. A conta é por vocês.

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