2018 por BOCA Jornalismo.

O Rolê

10/7/2017

Tempos atrás rolou no grupo da Sinewave no Facebook - um dos maiores grupos de discussão de música alternativa do Brasil (a qualidade da discussão em si é frequentemente questionável, mas isso é outro assunto) - um questionamento sobre por que as pessoas, no geral, relutam a ir em shows. Mais especificamente, por que é tão difícil chamar público para uma banda menos conhecida.

 

A discussão toda foi resumida no primeiro comentário, resolvida antes mesmo de começar: “As pessoas não querem mais ir em shows, elas querem ir em rolês.”

 

Criar público para uma banda é muito complicado. Criar público disposto a ir até um show dessa banda é ainda mais complicado. Não é só porque a banda é “da cidade” que o público vai se deslocar pra dar aquela força, pra conhecer teu som. É provável até que ninguém, além de alguns conhecidos mais próximos, apareça. Mas público, público mesmo, gente desconhecida pra chegar em ti e dizer “porra, eu curto muito o som de vocês”, já é uma história bem diferente.

 

Aí é que entra o componente “rolê” da história. Os rolês contornam o problema de as pessoas não quererem se deslocar para assistir especificamente a algum show e, como consequência, ainda ajudam a criar público para a banda que, eventualmente, venha a tocar no rolê.

 

Ok, essa não é a única maneira de se fomentar um público, mas é importante frisar como vem se tornando uma das maneiras.

 

Mas o que é um rolê, afinal? Explico com dois exemplos práticos que vivi aqui em Santa Maria. No dia 21 de maio, a turnê Sem Sair Na Rolling Stone passou por Santa Maria. O Jonathan, o Vitor, e o Fernando fizeram um baita show. É a galera da Geração Perdida de Minas Gerais, um coletivo que é uma referência gigante no cenário nacional independente, que estão fazendo 54 shows em 20 estados brasileiros de forma totalmente independente.

 

“Eita que foda isso, heim? Isso é um baita rolê, certo que a galera foi.”

 

Olha, se tivesse 20 pessoas no show, contando as quatro da organização, era muito. O show foi foda. Sou extremamente suspeito para opinar, mas foi foda. Dá pra ver que as 20 pessoas que foram estavam lá porque realmente GOSTAVAM dos caras. É sério, dá pra ver mesmo, tem até um vídeo:

 

 

Mas agora vem o segundo exemplo: Em outubro do ano passado, no dia do segundo turno das eleições municipais, Jonathan Tadeu - o mesmo cara cantando nesse vídeo - veio para Santa Maria pela primeira vez. Só que daquela vez o público foi bem maior. Segue uma foto pra entender melhor:

 

Foto: Juliano Dutra

 

 

Nesse dia, na Concha Acústica, a gente teve apresentação não só do Jonathan, mas da Vespertinos e da San Diego. Na prática, eram apenas shows - assim como neste ano - mas as pessoas foram. Isso porque se montou um rolê.

 

O rolê, nesse contexto, é qualquer evento com presença garantida de pessoas. Os eventos na Concha Acústica são o exemplo mais santa-mariense possível de rolês. Isso vem desde 2012, pelo menos, quando a galera do Diretório Acadêmico da Comunicação Social da UFSM montou uma apresentação da Apanhador Só na Concha, marcando a retomada do espaço como um ponto para rolês. A Concha tem a aura do rolê. Já tá no subconsciente da juventude (e não só da juventude) da cidade que, se tem alguma coisa rolando na Concha, vai ter gente por lá, e é por isso que vale a pena ir. Está formado o rolê.

 

É o princípio da física de que matéria atrai matéria aplicado à produção de shows. Gente atrai gente. Por isso às vezes rola um show que é só um show, como a apresentação recente dos Selvagens À Procura de Lei, em que a casa tava cheia, mas era visível que grande parte das pessoas não era muito familiarizada com a banda. Mas elas foram assim mesmo. Foram porque sabiam que ia ter gente, que valeria a pena, de alguma forma.

 

A conclusão lógica a que se chega é de que é preciso arranjar ferramentas para chamar o público para além das bandas. Fazer com que as pessoas pensem “vai ser massa e acho que vai ter uma galera lá, vamos então”. Vira e mexe algumas bandas que eu curto no Facebook compartilham os eventos de seus shows em que rolam coisas como aqueles flash tattoo, ou que vai rolar uns hambúrgueres super baratos, uns food trucks ou qualquer coisa que o valha.

 

Aqui na cidade existem bons exemplos de grupos que trabalham assim. A Guantánamo Groove sempre foi boa em armar rolês. A galera do Coletivo Nosso Palco também se mobiliza bastante. Esses dias mesmo rolou um show de covers na Concha e foi gente.

 

Mas, no geral, é foda. Isso só gera mais trabalho para pouco retorno. Organizar só um showzinho já pode ser bem trabalhoso, o que dirá organizar toda uma mini-feira alternativa tentando fomentar a participação do público.

 

Vai fazer show na Concha? Arrecadar grana é foda. Não tem como cobrar ingresso, é claro, e se passar chapéu deve rolar, em média, 2 pila de cada pessoa. Isso sem contar todo o trabalho - e gasto - em conseguir os equipamentos.

 

Vai fazer numa casa de shows? É foda também. Tu se estressa bem menos com equipamento, mas se não der bilheteria, das duas uma: ou tu leva um tufo pagando o aluguel da casa, ou a gerência não vai mais abrir o espaço tão facilmente pra ti.

 

Criar um rolê não é fácil. Não é porque tu conseguiu chamar, sei lá, a American Football pra tocar na cidade que a galera vai ir. Na melhor das hipóteses, tu organiza um evento com diversos atrativos que aumentam a possibilidade de chamar público. A garantia, salvo em algo como uma reunião dos Mutantes, não existe.

 

O fomento de rolês é um processo contínuo, que leva a toda a construção da cena (conceito, inclusive, que não me agrada muito atualmente), e que não tem um manual de como fazer. Aqui, rolê na Concha Acústica dá certo. A gente sabe disso, mas é inviável fazer isso todo santo mês, por exemplo. Pra saber o que dá certo e o que não dá, ainda vai rolar muita experimentação.

 

Gustavo Martinez é o clássico caso do jornalista que faz tudo que tem a ver com música, menos música. Ainda assim vai dar os seus pitacos aqui sobre tudo que tem a ver com o cenário nacional independente.

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