2018 por BOCA Jornalismo.

Manifesto pelo “fazer como dá”

24/7/2017

Quero escrever algumas coisas simples sobre estudar e trabalhar.

 

Não sei exatamente como podem ser categorias binárias (muitas pessoas estudam e esse é seu trabalho, muitas pessoas trabalham e, assim, estudam sobre sua profissão, enfim), mas, vou me deter às categorias de forma binária mesmo: trabalhar e estudar.

Recentemente dois dados gerais me chamaram a atenção: a quantidade de jovens nem-nem no Brasil (mais de 20% dos jovens nem estudam e nem trabalham, de acordo com amostragem do IBGE) e as recentes informações sobre bolsas e custos de pesquisa científica e acadêmica no país. Esse último dado, em reportagem que li a respeito, a constatação sobre a “ciência no Brasil ser sustentada pelos pais” piscava alarmantemente enquanto eu me informava da situação. Considerando os últimos cortes que o ensino superior recebeu no país, a diminuta oferta de bolsas (principalmente nas Ciências Sociais e Humanas) e a extinção de programas (a exemplo do Ciência sem Fronteiras), viver de pesquisa realmente não aparenta ser uma realidade aplicável a maior parte dos estudantes, pós-graduandos e especialistas brasileiros. Para os brasileiros que tentam uma graduação - que, no caso, só oferece bolsas de desconto em faculdades privadas, mas não um “salário” ou auxílio financeiro que possibilite que o estudante se dedique apenas à faculdade que cursa - há duas possibilidades: sustentar ou ser sustentado.

 

Esses dados e essas considerações me fizeram refletir sobre algumas idealizações, bem como sobre o sofrimento psicológico intenso (e cada vez mais perceptível) entre estudantes da pós e da graduação. O trabalho adoece. O estudo também. Não só porque não são elementos binários opostos, mas também porque estão mergulhados em sentidos de pressão e meritocracia. Além de disseminarem entre trabalhadores e estudantes noções de mérito e pressão por resultados, ainda estabelecem ideais humanamente inalcançáveis para a maior parte dos seres humanos.

 

Tirando os nem-nem e os bolsistas, há ainda uma categoria de pessoas que conciliam estudo e trabalho e é sobre essa que eu quero me deter. Chuto que a pressão e a meritocracia estão pendendo forte para esse público, e de uma maneira bastante cruel, uma vez que, por mais organizado e dedicado que o sujeito seja, um dos lados da balança pesa em determinados momentos da vida. Vai ter dias que você vai matar a aula por causa do trabalho ou trabalhar cansado porque estudou até tarde. E aí? Como ficam seu mérito e seus resultados?

 

Por não valorar a tese de que alguns lugares só deveriam receber estudantes sustentados por terceiros (sejam os pais ou quaisquer outros), eu confio que trabalhar e estudar possam ser ações compatíveis se forem desnudadas de cobranças insanas.

 

E por falar em estudar.

 

Tenho alunos em um cursinho popular que estudam e trabalham. O cursinho é no turno da noite e, levando isso em consideração, constato que nem sempre dá tempo (ou vontade) de abraçar o conteúdo de todas as matérias que precisam ser assimiladas até o dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o caminho de ingresso às universidades brasileiras. À noite, o sono também vem. Aqueles 50 minutos de aula são, muitas vezes, o que será visto na semana toda sobre aquele determinado conteúdo. E paciência.

 

Passando o cursinho e entrando na faculdade, muito estudante trabalha para se manter ou faz um estágio. No estágio, no caso, não querem saber se o estudante ainda não se formou ou se não tem mais de 20h semanais para disponibilizar para o serviço.  Na faculdade de jornalismo (não posso falar com conhecimento de causa pelas outras), por causa da lei do estágio, o estudante pode, inclusive, estar fazendo um estágio não-remunerado (e “agradecendo”, pois, “está investindo na experiência”). A faculdade diurna, por sua vez, não é uma realidade para quem trabalha de dia, pois, a grade de disciplinas é alta. São muitas “obrigatórias” para se formar. Todas pedem prova e ou trabalhos. O jeito é fazer faculdade à noite, atrasar o semestre. No caso dos estudantes que somente se dedicam à faculdade (diurna ou noturna), o cenário nem-nem está mais próximo: os pais bancam até se formar porque está ruim para arrumar um emprego, mas a pressão por resultados ainda existe ali, batendo à porta. Afinal, você “só” estuda, não é? Se o ensino é muito arrastado, atrasado, desfalcado, não interessa. O jeito é fazer provas, trabalhos e exames e sentir-se constantemente culpado por não colaborar financeiramente durante o período em que umas cinco disciplinas por semestre disputam sua atenção.

 

Querem que as pessoas sejam gênios, espremam resultados, idealizem cenários, mas o que temos para trabalhar com a realidade, diante de tudo isso? O quanto que a universidade trabalha com a realidade das pessoas? E quanto que o idealismo faz mal para aquilo que queremos ser como profissionais e para aquilo que somos enquanto profissionais? A comparação é eterna (e, boa parte do tempo, o melhor medidor é sempre o dinheiro). A pressão é pelo destaque, mas, se a gente avalia bem, não há um destaque. Começam a moer as pessoas desde o Ensino Médio, excluindo gente que trabalha da possibilidade de cursar uma faculdade e “disputar” em pé de igualdade com alguém que desfruta de alguns privilégios para passar pelo mesmo momento. Para estudantes da pós-graduação, exigências de publicação aliadas à produtividade intensa. Não há como exigir, sinceramente, profundas reflexões quando o cenário pede que em um ano circulem “resultados” de pesquisa pouco maturados. As exigências são baseadas em ideais. E o idealismo sempre foi um inimigo de quem trabalha com a realidade.

 

Por isso que eu vim até aqui para dizer que, muitas vezes, é fazer o que dá. E não por preguiça, mas porque é impossível fazer tudo com a mesma dedicação e com o mesmo empenho. Não há cérebro ou força física humanamente possíveis para isso. E isso não é um problema. Entender as próprias limitações não significa não se esforçar por nada, se acomodar: significa fugir do ideal. Significa não permitir que discursos que desmoralizem o estudo para uma prova, o trampo na semana, a pontuação no concurso, o artigo na academia, o bico de final de semana o façam se sentir errado por não atingir uma meta que ninguém perguntou se você queria e que você assimila porque estamos todos rodando a mesma roda meritocrática e exaustiva, ilusória e apegada ao idealismo irreal. E privilegiada.

 

Para mim, são três ideias gerais: 1) o seu trabalho não te define - você não é - apenas - o que você emprega, produz ou trabalha, por bem ou por mal, você gostando e investindo no seu trabalho ou você fazendo isso apenas por obrigação; 2) a meritocracia é uma mentira e as pessoas carregam consigo a ideia do que é “dar certo” na vida, uma ideia que precisa ser superada - os exemplos individuais (famosas exceções) são a parte, não o todo, e a meritocracia serve para criar sujeitos ainda mais desesperados, que colocam em si próprios, sem nenhum recorte totalizante, a responsabilidade pelo suposto sucesso (ou suposto fracasso) profissional; 3) o trabalho não dignifica o homem (essa ideia calvinista que também só serve aos sujeitos desesperados). É, na real, o homem que pode dignificar o trabalho - e com isso quero dizer que, justamente por você não ser definido pelo seu trabalho, é que todo trabalho que você simplesmente fizer é justo. Em um mundo que respira desemprego e crise, que urge por soluções para as doenças que respiramos a partir da exploração, é importante compreender o malabarismo cotidiano.

 

O manifesto pelo fazer como dá não é um manifesto pelo trabalho desleixado. Tampouco é sobre levar tudo na gaita, sem se firmar convictamente a nada e dispensar completamente o esforço (que não é garantia de nada, mas é um elemento necessário para muitos aprendizados). O manifesto do fazer como dá é para todos aqueles que ainda acreditam que há um modelo sobre “dar certo” na nossa sociedade atual. Fazer como dar é ir contra a regrinha do “dar certo” (para quem não lembra, bom dar uma lida na notícia sobre a escola gaúcha que promoveu uma confraternização entre alunos do Ensino Médio cujo mote era “e se nada der certo”. Os estudantes foram à escola trajando roupas que representavam profissões que “deram errado”, como faxineiras, garis, atendentes, revendedores e trabalhadores de redes de fast-food).

 

Indo contra o ideário massacrante do dar certo na vida, o “fazer como dá” significa que o que deu certo foi a sua vida, suas escolhas, as diferentes possibilidades que você criou de se movimentar - trabalhando, estudando e vivendo com as possibilidades reais do que existe. O dar certo quer dizer que você se encaixou perfeitamente a um sistema, o mesmo que pode estar contribuindo para alimentar problemas e desigualdades que experimentamos em nossa vida social. Fazer como dá é encarar a realidade: nem sempre vou trabalhar com aquilo no qual me formei na faculdade, nem sempre vou conseguir produzir intensamente nos artigos e trabalhos acadêmicos da vida, nem sempre vou desempenhar, sem nenhum contratempo, o papel de trabalhador e o papel de estudante.

 

Na minha opinião, a solução para a exploração que vivemos no trabalho, na desigualdade econômica e na mercantilização da ciência (e da pesquisa) que enfrentamos em sociedade não é uma solução individual e perpassa ações coletivas. No campo da subjetividade e da individualidade, porém, é revolucionário não permitir ser esmagado pela pressão e pelas metas, fazendo como dá e como é possível.

 

Nathália Costa (Panka) é jornalista, mestre em comunicação midiática e doutoranda na mesma temática. Participou de coletivos de mídia alternativa e auto-organizada, é educadora popular de redação e acredita em uma comunicação plural e emancipadora. Gosta de debater a sociedade e vai arriscar palpites neste espaço mensal.

 

 

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