2018 por BOCA Jornalismo.

Um novo convite ao vôo

O início desse mês foi marcado pela aprovação da PLC 38/2017, a Reforma Trabalhista, por parte do Senado Federal. O projeto era um dos carros-chefes do governo Temer, que enxerga na sua execução a possibilidade de ampliar os postos de trabalho e melhorar os indicadores econômicos. O texto contém diversas alterações à Consolidação das Leis Trabalhistas, a CLT, mas tem como principal foco a máxima de “negociado pelo legislado”: ou seja, agora privilegiamos a negociação entre patrões e empregado em detrimento da lei universalizada. A decisão é confusa e mexe com a forma como entendemos o próprio Estado democrático, liberal (sim) e de direito. Pode um país abrir mão de regular relações e legar isso às pessoas? Para além: qual o risco social de se desconsiderar que essas relações, quando não reguladas, são desiguais?


A CLT foi aprovada no 1º de Maio de 1943, pelas mãos do presidente-ditador-pai dos pobres Getúlio Vargas. A consolidação veio a partir da criação da Justiça do Trabalho em 1939, também sob o mando de Getúlio. Seus oito capítulos foram, desde então, amplamente questionados pelos setores organizados do empresariado brasileiro. Afinal, trariam proteção excessiva aos trabalhadores, impedindo o crescimento e a contratação de funcionários. O mesmo pensamento nunca se encontrou entre quem trabalha: de direita, de esquerda, de centro ou de diagonal ao avesso: todo o trabalhador que já precisou da CLT sabe que ela é a fronteira que separa a barbárie completa da mínima ordem. E é por essa razão que o Estádio São Januário, do Vasco da Gama, estava lotado de gente a aplaudir Getúlio por seu gesto lá em 1943.


Sim, a CLT foi decretada em São Januário. O mesmo estádio que, também nesse mês, foi palco de um violento confronto entre a torcida do Vasco e a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Os torcedores entraram com bombas e pedaços de pau e cercaram o time do Flamengo, ainda no campo, que ganhava o Clássico dos Milhões por 1x0. Um torcedor vascaíno acabou morrendo, fora do estádio. O presidente Eurico Miranda, controversamente próximo das torcidas organizadas do clube, afirma que a confusão foi gerada por discórdia política. É deprimente ver o Vasco, primeiro dos grandes a aceitar um atleta negro em seu plantel; que teve o estádio construído nos ombros dos próprios torcedores, transformar-se nessa caricatura. É espantoso ver o caos tornar-se ordem, ver o que antes nos protegia, o que antes era sólido, se perder como pó.


A briga da torcida do Vasco e a aprovação da reforma trabalhista tem mais coisas em comum que a deturpação do que o Estádio São Januário representa. É o caos, a falta de esperança, o derrotismo. A ideia de que somos impotentes e que nada podemos fazer ante aos desmandos que nos cercam. Mas é nessas horas, meus amigos, que mais vale tomar um trago de clichê que um caneco de desesperança. Está na hora de recobrarmos o otimismo. Está na hora de percebermos que o mundo (e o Brasil) já mudou a partir da iniciativa humana, e pode mudar de novo. É nessas horas que precisamos de mensagens de motivação, não aquelas presentes na irritante onda dos coachings, e sim as escritas pelos homens e mulheres responsáveis por nos animarmos a estar, enfim, aqui.


Acho que todo mundo que alguma vez em sua vida empunhou uma bandeira ou gritou meia dúzia de palavras de ordem em um protesto combinado no horário do almoço da faculdade de humanas já leu o texto Convite ao Vôo, do inquestionável faz-tudo uruguaio Eduardo Galeano. Se não leu, recomendo. Galeano tinha uma habilidade que falta na maioria dos escritores identificados com a canhota: escreve o clichê óbvio e repetitivo parecendo novidade. Traz a ideia que já estava ali, adormecida na nossa cabeça, só precisava de alguém pra traduzir. Esse é Galeano, um tradutor do sentimento daqueles que lutam e daqueles que estão pensando em lutar. Ao refazer os compromissos para a virada do milênio, o uruguaio, residente tão abaixo no mapa-mundi, nos lembra de olhar pra cima, de olhar com os olhos do sonho.


Precisamos nos convidar de novo ao vôo. Precisamos nos permitir sonhar. A postura cínica, crítica e pessimista é importante ao analisar a realidade, é importante para que não sejamos os sapos da fábula de Esopo, que carregam escorpiões nas costas sem se questionar se aqueles escorpiões não vão no fim fazer o que sempre fazem: picar. Mas esse olhar crítico não pode, em hipótese alguma, nos tornar cansados da ideia de que é possível transformar o mundo. De que é possível combater aqueles que rasgam a CLT. De que é possível fazer um futebol mais humano, menos infestado das mesmas pragas encontradas no Congresso Nacional. Essa esperança estava presente nos olhos daqueles pobres que construíram São Januário, e também daqueles que viam Getúlio discursar no mesmo estádio anos depois. Novos compromissos com aquilo que acreditamos precisam ser firmados novamente.
 

Ou eu posso só estar sonhando alto. Nesse caso, me alcança essa caneca aí do teu lado.
 

 

Mateus de Albuquerque é jornalista, cursa mestrado em Ciências Sociais e membro-fundador do BOCA Jornalismo. Gosta da política discutida nos bares (por que boteco é muito chique) e vai tentar reproduzir isso nesse espaço. Acredita que nessas acrópoles modernas, despidas de terno e gravata, que a política é debatida sem suas maquiagens habituais. A conta é por vocês.

 

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