2018 por BOCA Jornalismo.

A superação do "apoie a cena"

14/8/2017

O Luis Calil, mais conhecido pela Cambriana e o Ara Macao, escreveu um texto no ano passado com o nome de “Xingue sua cena local”. O título é inflamado pra chamar atenção mesmo. Sensacionalista, se quiser entender assim. Em resumo, ele diz que o velho discurso de “apoie a sua cena local” é uma bobagem. As pessoas tem que apoiar porque gostam. O Rodrigo Lariú, da midsummer madness records, também falou de maneira bastante enfática sobre isso uns tempos atrás. Então eu corro o risco de estar chovendo no molhado e não dizer nada novo. Por outro lado, começo a acreditar que Santa Maria, na verdade, avançou neste debate e já não se fala mais tanto nisso.

 

Resumindo tudo: ninguém é obrigado a gostar - ou sequer ouvir - do teu trabalho só porque é da mesma cidade que tu, da mesma “cena”. Na verdade, isso vale pra qualquer coisa: não só a música, vale pro jornalismo alternativo também, ou seja, não leiam o BOCA Jornalismo “pra dar um apoio”.

 

Em todo o caso, me parece que esse discurso mudou aqui na cidade. A gente vê bem menos o papo de “apoie a cena” e muito mais a construção de uma mínima estrutura pra se manter a dita cena. Tem gente organizando mini-festivais, oficinas de profissionalização pra músicos para além do fazer música, entre outras coisas. O pessoal corre atrás, faz acontecer. A verdade é que não existe uma cena, existem várias. Quem já se prestou a acompanhar mais de perto já sacou isso tem muito tempo. No geral, elas se dividem pelos gêneros musicais: tem a galera ali que gira em torno da MPB, a galera do rap, a galera do metal (me parece que todo ano uma banda santa-mariense diferente lança um disco de metal e quase ninguém fala), a galera do hardcore, e por aí vai. Nada impede que role uma sobreposição entre elas, é claro, mas normalmente a coisa vai por aí. Isso acontece em todo o canto também, óbvio que não é uma exclusividade daqui.

 

O shoegaze era conhecido como a “cena que celebra a si mesma”, porque ninguém dava bola pra eles a não ser eles mesmos - isso porque o outro pessoal era tudo uns trouxas que nunca ouviram o Loveless, mas não vem ao caso. Esse fenômeno acontece com as diferentes cenas da cidade também. É cada um no seu canto, fazendo por si, só que, eventualmente, se juntam pra fazer algo diferente rolar. Essa união, por outro lado, é o que acredito ser o diferencial da cidade. Uma consequência de Santa Maria ser relativamente pequena. Não dá pra tu juntar toda uma galera em um lugar do tamanho de Porto Alegre ou, ainda, São Paulo. Aqui todo mundo se conhece, isso muda toda a dinâmica. Em outras cidades parece que isso só rola quando tem um festival maior rolando, como o Transborda que tava acontecendo agora há pouco em BH.

 

 Quem não gosta de shoegaze bom sujeito não é.

 

Posso estar bem errado nessas últimas duas afirmações, mas o importante, no fim das contas, é que tentam fazer com que as pessoas ouçam suas bandas por que elas gostam das suas bandas, porque elas são boas (veja bem, tentam é a palavra-chave, tem muita que não consegue ser boa de qualquer jeito, mas não to aqui pra criar polêmica) e não “pra dar uma força”. Não gosto de bastante coisa que é produzido por aqui, mas o avanço dessa postura é um ponto muito positivo pra produção santa-mariense. O resultado disso, a longo prazo, é a construção de um público fiel e que está, de fato, interessado na produção local, e não por ela ser uma produção local.

 

Gustavo Martinez é o clássico caso do jornalista que faz tudo que tem a ver com música, menos música. Ainda assim vai dar os seus pitacos aqui sobre tudo que tem a ver com o cenário nacional independente.

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