2018 por BOCA Jornalismo.

Santa Maria Steampunk

24/8/2017

Uma conversa com o escritor santa-mariense Enéias Tavares

 

Enéias Tavares em seu ambiente de trabalho. (Foto: Kauane Müller)

 

Enéias Tavares é, assim como nós, apaixonado por Santa Maria. Professor do curso de Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), lançou seu primeiro livro em 2014. A lição de anatomia do temível Dr. Louison é o primeiro livro da série transmídia Brasiliana Steampunk, que já rendeu um audiolivro, o card game Cartas a Vapor, um suplemento escolar. Agora, o autor trabalha também em um projeto de quadrinhos e uma websérie. Além disso, o lançamento do volume 2 da série foi anunciado pela editora LeYa para 2018, depois do engajamento dos fãs num pedido feito pelo blog Academia Literária DF no Facebook.

 

A lição de anatomia do temível Dr. Louison é um romance do gênero steampunk, ambientada na Porto Alegre do início do século XX. O steampunk teve origem na ficção científica e abrange histórias ambientadas no passado, com um nível de evolução tecnológica distinto do que o que a história mostrou ocorrer, geralmente fazendo uso da tecnologia mecânica do vapor.

 

Em março de 2017, ao lado dos santa-marienses Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi, Enéias lançou ainda o livro A alcova da morte - Um caso da Agência de detetives Guanabara Real. Neste ano, o autor também participou de uma coletânea de contos de suspense e fantasia lançada em maio, intitulada Sussurros da Boca do Monte.

 

Boca Jornalismo: Você é um autor recente, seu primeiro livro é de 2014. Como foi o caminho até a publicação?

 

Enéias Tavares: Hoje, são raras as editoras que aceitam submissão de originais, então você

escreve o livro, manda para a editora e não tem resposta. Isso não se dá porque as editoras recebem muitos originais e não tem como ler e avaliar tudo isso. As editoras criam estratégias para chegar em determinados nomes, em determinados manuscritos que possam significar um bom investimento. Isso acontece por meio de três modalidades. Premiações, por exemplo, existem concursos tanto para livros publicados, quanto para manuscritos originais. Segunda modalidade: autores e autoras que já têm público, porque são artistas, atores, cantores, jornalistas, podcasters, youtubers, porque terão uma saída inicial de tiragem bacana. Uma outra possibilidade também são os concursos literários, que é onde eu me insiro.

 

A editora LeYa é um grupo de origem portuguesa que, na época, era composto especialmente pela Casa da Palavra, uma editora mais antiga do Rio de Janeiro. Como a editora LeYa produz literatura fantástica - é a editora que publica George Martin no Brasil - eles recebem muitos originais e não têm como avaliar e responder essas pessoas. Então a editora fez um concurso literário, que tinha fases que resumiram o processo de avaliação: primeiro, resumir a história em um tweet (140 caracteres); segundo, resumir toda história em um parágrafo (1200 caracteres); terceiro, enviar o manuscrito; e quarto, uma entrevista com os finalistas via Skype. Na primeira fase, eles tiveram mais de 1400 inscritos. Desses 1400, 72 passaram para a segunda fase. Desses 72, eles escolheram 17 ideias. Destes 17 manuscritos, quatro chegaram à final: eu e outros três autores, um do Rio e dois de SP. Essa última fase era entrevista por Skype, porque hoje o mercado vê também como o autor se comunica, como ele se apresenta. E em agosto de 2014, o Lição de Anatomia foi publicado.

 

É uma grande editora, o concurso teve muita visibilidade e isso me inseriu num mercado que é bem competitivo e difícil. Eu já tinha enviado o manuscrito para duas outras editoras: uma não respondeu e a outra respondeu elogiando a proposta, mas dizendo que tinha um problema sério, que era o fato de a história se passar em Porto Alegre. O editor dizia que a história precisava se passar no Rio ou em São Paulo. Eu me senti muito motivado pelos elogios, mas respondi que não tinha condições de transportar a história para outra cidade, porque eu não conhecia as cidades na época a ponto de escrever um romance que se passasse lá, mas também porque eu achava que fugir do eixo Rio-São Paulo seria bacana para os leitores.

 

B: Nós temos acompanhado alguns autores brasileiros, em diversos ramos da literatura, que têm feito sucesso recentemente trazendo essa coisa do local.

 

Enéias: Esse é um momento bem bacana da literatura brasileira, em que a gente se assume não só enquanto vozes brasileiras, mas também enquanto locais. Fico muito feliz de notar que as editoras estão percebendo isso, porque para os leitores que conhecem o lugar é fascinante, é uma outra experiência de representar e revisitar o lugar de um ponto de vista literário e imaginativo e, para as pessoas que não conhecem, também é bacana porque investe no exotismo, numa forma diferente de representar essas cidades. Uma referência muito grande para mim é a Anne Rice, das Crônicas Vampirescas, Entrevista com Vampiro. Ela faz isso com Nova Orleans, que não é exatamente uma cidade turística, não é a cidade mais comum para representações literárias. Anne Rice usa uma cidade sulista dos EUA e consegue recriar essa cidade em termos literários de uma forma tão interessante que as pessoas que não conhecem Nova Orleans acabam se interessando pela cidade. Foi isso que eu quis fazer com Porto Alegre no Lição de Anatomia. Claro que é uma Porto Alegre steampunk, um universo alternativo, mas tem muitas inscrições da minha Porto Alegre dos Amantes que lembram as inscrições da Anne Rice com aquela Nova Orleans verdejante, úmida, selvagem, perigosa.

 

B: Como é ser um autor brasileiro e vivendo no interior do país?

 

Enéias: Eu não tinha muitas esperanças de ganhar o concurso por estar fora do eixo Rio-São Paulo. Eu tinha muita confiança na ideia, pensava que teria um impacto muito grande na escola, que é o que eu tenho construído com o suplemento escolar: reinterpretar os heróis da literatura brasileira para um público juvenil. Essa ideia não é original, só que ninguém fez isso no Brasil ainda. Tem A Liga Extraordinária do Alan Moore, Anno Dracula do Kim Newman, o seriado Penny Dreadful. É pegar personagens de domínio público e reinventá-los, tanto para fortalecê-los quanto para reapresentá-los. Eu fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo temeroso de que esta questão geográfica me impossibilitasse ou de que, na entrevista, o editor me perguntasse se eu mudaria de cidade. Minha resposta seria não, porque eu não tenho nenhuma intenção de sair de Santa Maria. A pergunta não veio em termos de "você quer se mudar?", ela veio do seguinte modo: "Enéias, até que ponto você está disposto a divulgar seu trabalho em dois, três, quatro eventos por ano? E até que ponto você está disposto a estar disponível nas redes sociais?". Eu respondi que estava disposto a fazer as viagens necessárias e a estar presente na internet e falei sobre o medo de não ganhar o concurso porque moro longe do eixo Rio-São Paulo. Para minha felicidade, a resposta dele foi que, hoje, isso não é mais problema. Tenho amigos escritores que moram no eixo Rio-São Paulo e têm menos visibilidade do que eu em Santa Maria, porque a internet possibilita que nós estejamos à disposição dos leitores, à disposição para podcasts, entrevistas, participação em canais no YouTube. Então, a pergunta foi no seguinte sentido: "você acha que o escritor é aquele que escreve o livro e fica em casa ou que o escritor escreve o livro e sabe que ele também vai ter que vender, divulgar, estar disponível?”. O card game, o audiolivro, o suplemento escolar têm ilustrações de um ilustrador de São Paulo com uma colorista da Paraíba. Como eu trabalho com tanta gente, morando em Santa Maria? Internet. Os criadores do card game são de Santo André (SP) e o artista é do Rio de Janeiro. Então, volta e meia, nós tínhamos reuniões de duas, três horas, via Skype.

 

B: Quais foram as mudanças de 2014 para cá?

 

Enéias: Eu parti de um desconhecimento absoluto, de uma idealização muito grande. O crescimento do Brasiliana nesses três anos, a primeira tiragem esgotada e todos esses produtos são fruto de um trabalho incansável. Hoje nós temos três grandes frentes no sistema literário brasileiro: os booktubers, os podcasters e os blogueiros. Você escreve diretamente para eles, oferece enviar um livro e deixa claro que, se a pessoa gostar do livro, ela vai fazer uma resenha. O Lição de Anatomia já recebeu mais de 40 resenhas. É o que motiva e fomenta a venda, porque tem leitores que seguem um determinado blogueiro. Eu acho muito interessante porque é tudo muito inédito no Brasil: você produzir um jogo desses, trabalhar desse modo com literatura brasileira. É desafiador, mas muito gostoso saber que estou fazendo um trabalho pioneiro sob um certo aspecto. Ninguém sabe como fazer. Tudo isso que está na internet é um cartão de visita permanente. Quando alguém quer saber mais dos meus livros, eu falo para acessar o canal Nuvem Literária, da Juliana Cerqueira. Ela fez um vídeo sobre o Lição de Anatomia que é magnífico e é sempre a minha primeira indicação. Depois a Juliana ainda fez uma outra coisa: ela fez uma lista de dez de personagens femininas marcantes e a Beatriz de Almeida e Souza, que é a protagonista do Lição de Anatomia, está em segundo lugar. Uma heroína da Jane Austen em primeiro e a segunda é a Beatriz de Almeida e Souza, que é essa escritora feminista negra da Porto Alegre do século XIX. O que isso impacta na carreira é impressionante. Como em outras carreiras, tem que conhecer as pessoas, conversar com elas.

 

B: O Sussurros da Boca do Monte e o card game Cartas a Vapor foram lançados através de financiamentos colaborativos. Como é fazer isso?

 

 

Enéias: Se, no financiamento coletivo, a pessoa já conhece e gosta do seu trabalho, ela vai apoiar porque já teve provas de que é um trabalho de qualidade. Eu percebi isso com a campanha do Cartas a Vapor. Foi uma campanha muito ousada, feita pela Potato Cat, que é uma empresa de São Paulo e foi uma campanha de quase R$40 mil, pelas especificidades técnicas. O Cartas a Vapor já tinha o meu nome. Era mais uma ação transmídia do Brasiliana e as pessoas investiram. Mas mesmo com o nome, a marca já consolidada, é um trabalho coletivo incansável. Hoje existem muitas campanhas de financiamento coletivo, então, você tem que criar diferenciais nas redes sociais, uma promoção, gravar vídeo. Uma amiga de São Paulo, que trabalha com mídias digitais e vinha de uma campanha de financiamento coletivo, me deu duas horas de dicas, sugestões de texto, tipo, horário, impulsionamento de postagem, milhares de coisas, para auxiliar na campanha. No caso de campanhas em que você não tem essa marca consolidada, você não vai ter esse impulsionamento inicial de “já conheço, invisto”, mas o trabalho incansável vai, pouco a pouco, mostrar credibilidade. Eu não acredito em financiamento coletivo para livros porque o financiamento coletivo é pra lançar um produto que é impossível ser lançado no mercado. Então um card game com duzentas cartas, mil especificidades, detalhes, beleza. Como a gente não vai conseguir uma editora que banque R$40 mil para lançar isso, vamos fazer um financiamento, não tem outro jeito. Agora, um livro, tem muitas editoras. O Sussurros, para mim, não teve esse problema porque era um projeto muito local, que queria vender localmente, nas escolas. É também um presente para Santa Maria. Por que a nossa história não pode ter traços fascinantes? Por que os nossos espaços não podem ser atraentes? Em outros projetos, muitas vezes, a pessoa manda o livro para a editora, a editora não aceita e ela lança um financiamento. O público nota isso. Mas se projeto está finalizado, só falta o dinheiro para concretizar, o público apoia. O Cartas a Vapor, por exemplo, quando lançamos a campanha, tinha cartas, playtest. Outra coisa é ter uma ideia, mas não mostrar na campanha, porque o produto não está pronto. A pessoa que entra numa campanha de Catarse percebe isso no modo como a campanha é montada. O Sussurros também estava pronto e diagramado, com orçamento de gráfica, ilustrações prontos. Quando a organizadora Jéssica Dalcin lançou a campanha, havia três páginas de cada um dos contos, além das biografias de cada um dos autores.

 

B: Como é escrever um livro como o Guanabara, à três mãos?

 

Enéias: Acho que muita gente tenta fazer esses romances coletivos em que um escreve o primeiro capítulo, o outro continua a história e quase sempre esses projetos não vão em frente, porque é um caos. Só que, neste caso, eram três acadêmicos, com preocupação metodológica. No momento em que a gente disse sim - porque esse foi um livro sob encomenda para Artur Vecchi [da Editora Avec] - nós definimos metodologia, do ponto de vista acadêmico. E definimos um cronograma. Eu tenho um processo criativo que é bem diferente do Guanabara, é um processo de ter ideias gerais da história, mas resolver muita coisa durante a escrita. No Guanabara seria impossível, porque são 21 capítulos - sete pra cada um - e eles são intercalados, então, para que eu escrevesse o capítulo 7, precisava saber o que aconteceu no 5, escrito pelo André, e no 6, escrito pela Nikelen. Nosso primeiro desafio foi definir um enredo detalhado de cada capítulo. O segundo desafio foi aceitar críticas. De saída, a gente acertou que bateríamos o martelo sobre os capítulos um do outro. Teve um outro desafio do Guanabara: ele não é um romance em primeira pessoa. Seria muito mais fácil se eu escrevesse os sete capítulos do Remy, o André os do Firmino e a Niquelen os da Maria Tereza Floresta, mas a gente queria o desafio da terceira pessoa. A primeira versão do texto foi um inferno, porque a Nikelen, que é uma escritora fantástica, entregava os textos já finalizados, a gente fazia poucas alterações; o André, que é um leitor hardcore de ficção científica, entregava blocos de aulas sobre a tecnologia da época, o que pesava a narrativa; eu, que sou, por natureza, um decadentista, entregava infindas elucubrações existenciais. A Nikelen foi a primeira a dizer “André, corta esses parágrafos. Enéias, para com a duplicação de adjetivos.”. Foi menos escrever mais e muito mais cortar muita coisa.

 

B: Como é pensada a elaboração de produtos transmídia por ti e pelas pessoas que trabalham contigo, no caso do Brasiliana?

 

Enéias: Nós temos o transmídia tradicional, que está caindo em desuso e que se foca em adaptações. Eu acho menos bacana, menos interessante. O transmídia mais usual hoje é aquele que pensa não numa história contada em diferentes mídias, mas diferentes mídias contando uma história maior. A história que está no livro está só no livro. A história que está no quadrinho vai ser inédita, porque ela foi criada pensando na mídia quadrinho; o audiodrama vai ser inédito, porque é um texto produzido não para ser lido, mas para ser escutado; assim como o audiovisual vai ser uma história inédita. O exemplo mais comum dessa nova transmídia é a trilogia Matrix, das Wachowski, em que tinha coisas nos filmes que você podia até deixar pra lá, mas você só entendia se lesse os quadrinhos, mas você só perceberia se jogasse o jogo e só teria acesso ao universo inteiro se acessasse todas as mídias. Por outro lado, não havia uma obrigatoriedade disso, porque o que há é uma experiência que você escolhe. Esse é o modelo com o qual eu trabalho no Brasiliana. Eu estou trabalhando agora num audiovisual - uma websérie - e num projeto de quadrinhos. Quando essas propostas surgiram, a ideia era  a adaptação do Lição de Anatomia, mas eu disse não, porque as pessoas já conhecem a história. Além disso, o Lição de Anatomia é um romance tão bagunçado em termos de outras mídias que, na minha opinião, só funciona na literatura. A minha contraproposta foi fazer uma história inédita. A graphic novel vai ser uma história inédita pensada na linguagem dos quadrinhos e usando a potencialidade dos quadrinhos. No audiovisual, estou trabalhando com uma produtora de São Paulo, a Cine Kings, nossa ideia é depois vender para uma emissora ou para uma produtora maior. Não tem como colocar isso em Porto Alegre, se vai ser produzido em São Paulo. Se não pode ser em Porto Alegre, em São Paulo vai ser em Paranapiacaba, que brinca com o pessoal do steampunk, a SteamCon; é a cidade steampunk do Brasil. Ao mesmo tempo, cria personagens inéditos. Metade dos personagens da websérie são personagens do Brasiliana já presentes nas obras, que vão de Porto Alegre para Paranapiacaba; a outra metade são personagens paulistanos. Eu penso que, para o espectador, deve ser bacana, porque são diferentes pedaços de uma história maior. Do ponto de vista do produtor é muito divertido, porque é desestabilizador. O escritor não tem limitações, mas quando você migra para qualquer outra mídia, as limitações explodem. Você pensa: como o Bruno Accioly, do jogo, vai transformar isso em carta, como o Evandro Bertuol, que está fazendo os quadrinhos, vai colocar isso na página. No audiovisual, ainda mais. No quadrinho você desenha robôs, no audiovisual você não tem R$2 milhões para criar os autômatos robóticos. A limitação da websérie foi criar um roteiro que fosse muito legal, instigante, divertido, mas que não contasse com essas impossibilidades.

 

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