2018 por BOCA Jornalismo.

O privatista que há em cada um de nós.

 

Recentemente, dois comerciais me deixaram incomodado.

 

O primeiro é da Nestlé. Nele, uma moça, de bela voz, passeia pela cidade. Ao redor dela, o noticiário, pessoas brigando, um ambiente inóspito e desconfortável. A letra chega a mencionar “Direita e Esquerda”. Tudo se resolve quando a protagonista se desconecta de seus fones, come uma barra de chocolate e pede para o mundo parar. Claramente, o comercial surfa na bipolaridade política, no calor das discussões, no estresse cotidiano para ceder a tentação de parar, se desligar, permitir a si mesmo uma alienação deliberada. Com uma bela barra de chocolate ao leite, claro.

 

 

 

O segundo é da Knorr. Um agitado rap promove a quebra de preconceitos alimentados pela sociedade. Eles vão desde pequenas discriminações cotidianas (“Se vivo conectado, diz que sou alienado”) até grandes opressões estruturais (“pensa que escolhi ser gay por falta de educação?”).  Por fim, a música termina em uma bonita plantação de legumes. A letra se encerra com “Tenho código de barra, mas também tenho beleza, só porque sou fabricado eu não vim da natureza?”, respondendo a uma antiga “discriminação” que os caldos industriais sofrem por não remeterem a um sabor mais orgânico.

 

 

 

Costumo ser muito cínico com esse tipo de coisa. Claro, o envolvimento político não deve ser tratado como um valor moral, em que quem escolhe se alienar mereça os martelos da inquisição. Ao mesmo tempo, não sou ninguém para julgar o empoderamento que possa ser gerado a partir do comercial da Knorr, por tratar de assuntos que historicamente são boicotados em grande escala. Eu só não consigo esquecer certas coisas. Esquecer, por exemplo, que essa mesma Nestlé e bastante interessada na administração da água pública. Que já pediu a redução nutricional de sopas em escola pública para economizar. Que usa escravos para fabricar seu chocolate “relaxante”. Também não consigo deixar de pensar nos caldos Knorr, que mesmo “vindos da natureza”, através da exploração química da monocultura brasileira, podem provocar inúmeras doenças com seus componentes artificiais. Que a Knorr é só mais uma das marcas do mega conglomerado internacional Unilever (aquela mesma que fabrica sorvete e desodorante). Que a mesma Unilever é acusada de promover massacres humanitários e ambientais em Sumatra. Sozinha? Não. Com a Nestlé, é claro.

 

Não é a toa que esses comerciais venham em tempos de privatização da Eletrobrás ou de quase-venda da Amazônia. O primeiro pede para relaxarmos e deixarmos tudo isso pra lá, em busca do prazer pessoal. O segundo sustenta suas problemáticas a partir da sustentação de uma pretensa representatividade. Ambos mexem com aquela coisa que existe em nossos corpos que quer sempre parar um pouco de se chocar com tudo o que está posto, e pensar um pouco mais em nós. Ambos reclamam o privatista que há em cada um de nós, esse indivíduo que não se coletiviza, que não enxerga que é parte de um todo e que o ataque a uma das partes desse todo é também um ataque a si mesmo. As privatizações, como qualquer outra disputa política, precisam primeiro se justificar culturalmente para depois apresentar seus argumentos tecnocráticos. Nos anos 1990, o Governo Collor usou de um elefante lerdo e pesado para ridicularizar o papel do Estado no Brasil.

 

 

 

A propaganda, ao som do instrumental da cantiga “um elefante incomoda muita gente”, relacionava a ineficiência do Estado ao fato de ele ser grande. Portanto, com seu esvaziamento, haveria a maior possibilidade se investir em áreas prioritárias como saúde, segurança e educação. Os argumentos não eram justificados por números ou por análises técnicas: eram pura e simplesmente ideológicos, brincando com duas raivas comuns a população brasileira - a raiva pela falta de serviços básicos e pela precariedade do serviço público. O pobre elefante era usado para uma metáfora ruim e sem contexto, que tem o mesmo objetivo de relacionar o ato de comer um chocolate ao escape da situação política, ou equiparar preconceitos históricos com a impressão pública de um produto ruim. Ambos vendem uma ideia. Curiosamente, o elefante foi um dos animais prejudicados pelos desmatamentos em Sumatra causados pela Unilever e pela Nestlé.

 

O Estado brasileiro foi construído a partir do sangue, do suor e das lágrimas de muitas cabeças que desejavam a garantia de direitos pela via pública. Convém lembrar, passado o 7 de setembro, o quanto as campanhas anti-nacionais sempre estiveram do lado do rentismo internacional, daqueles que lucram com a inércia. A ideia de Estado forte e garantidor é uma ideia de sacrifício do “eu”, de entre coletiva, de bem público inegociável. Essa ideia não se sustenta quando vai de encontro ao individualismo, a preocupação consigo mesmo acima da preocupação com todos. Culturalmente, é isso o que esses comerciais vendem: esqueça, para podermos agir.

Convém sempre manter uma boa (e cínica)  memória. De elefante, que seja.

 

Mateus de Albuquerque é jornalista, cursa mestrado em Ciências Sociais e membro-fundador do BOCA Jornalismo. Gosta da política discutida nos bares (por que boteco é muito chique) e vai tentar reproduzir isso nesse espaço. Acredita que são nessas acrópoles modernas, despidas de terno e gravata, que a política é debatida sem suas maquiagens habituais. A conta é por vocês.

 

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