2018 por BOCA Jornalismo.

(Sobre)vivência do skate em Santa Maria

26/10/2017

 Na década de 70, assim como hoje, rampas de madeira e obstáculos improvisados são o único auxilio que os skatistas recebem (Foto: Ricardo Marques - Arquivo pessoal) 

 

Na Praça do Mallet, região centro-oeste de Santa Maria, um adolescente de 14 anos se aproxima de um grupo de jovens com quem tem em comum apenas a posse de um skate. Era 2009. Hoje, aos 22 anos é mais fácil encontrar aquele garoto, Jean Senne, na loja de  peças e acessórios para skate em que ele trabalha - numa jornada de oito horas diárias de segunda a sábado - do que nas praças da cidade. Apesar de estar cercado de shapes, ele só pode se dar ao luxo de subir no skate quando o expediente termina.

 

Jean é o único skatista com patrocínio oficial em Santa Maria. Também é um dos poucos que continua morando aqui e participando de campeonatos fora da cidade. Desde 2013 a cidade não sedia um grande torneio municipal, nem recebe etapas de competições regionais ou estaduais.

 

Ele treina nas ruas, mas compete em pistas. O skate – elevado à categoria de esporte olímpico em 2016 - é composto de várias modalidades, com características e necessidades próprias. Quem pratica downhill gosta de descer ladeiras, o freestyle é praticado principalmente nas ruas ou skate parks e, por fim, para a modalidade “vertical”, são necessárias pistas em formato de U, paredes e “bowls” - buracos côncavos, semelhantes a piscinas vazias. Com exceção do asfalto nas ruas e rodovias, quem anda de skate por aqui não tem acesso a nenhuma dessas estruturas.

 

Por isso, em 13 de março de 2017, um grupo de skatistas criou o coletivo Associação do Skate de Santa Maria (ASSM). “A gente quer um lugar que seja símbolo. Tem alguns locais, mas eles não sofreram manutenção para que o público continue usando. Então fica difícil ter atletas se desenvolvendo, de ter qualidade de vida nessa região”, explica Alexandre Fernandes, 32 anos, estudante de educação física e presidente da ASSM.

 

Os lugares à que Alexandre se refere são principalmente dois: a pista do Centro Desportivo Municipal (o Farrezão) e a pista junto ao Ginásio Oreco, no bairro Tancredo Neves. Construída há anos, a pista do Oreco sediou circuitos municipais até o ano de 2013. O caso do Centro Desportivo Municipal é similar. A pista, que fica ao lado da estrutura coberta, existe desde 2002, mas nunca passou por reformas. O vídeo abaixo, gravado em 2011,  mostra que a pista já acumulava água, tinha rachaduras no cimento e equipamentos inadequados para uso.

(Reprodução: Youtube)

 

Apesar disso, para Jean, o lugar do skate em Santa Maria sempre foi o Farrezão. Ele explica que no anos recentes “era na parte de dentro, não era nem na pista, porque a pista também é absurda. Ela é mal construída, toda quebrada.” Para realizar as manobras e treinar, os praticantes construíram em conjunto uma série de obstáculos de madeira, que permaneciam na parte de dentro do CDM. As competições no local ficaram restritas então a disputas de best-trick – em inglês, melhor manobra, – promovidas por lojas e marcas locais.

 

Todavia, um telefonema recebido por Senne em abril deste ano marca o fim dessa era. Um colega seu, também skatista, avistara os obstáculos construídos no Farrezão sobre a caçamba de um caminhão. Após algumas semanas, a Associação conseguiu resgatar parte daqueles equipamentos, que ainda apresentavam condições de uso. Mesmo assim,o secretário da ASSM, Franco Schneider, sustenta que em conversas com o Poder Público se firmara o combinado de que os esportistas seriam notificados com 90 dias de antecedência sobre eventual condenação da área, o que não aconteceu. A secretária de Cultura, Esporte e Lazer, Marta Zanella, alega que os skatistas que utilizavam o local foram comunicados e defende que o espaço não deveria ter sido utilizado para aquele fim por se tratar de área em obras.

Jean Senne (na frente) e outros skatistas na parte coberta do CDM, antes de o local ser fechado (Foto: Arquivo pessoal)

 

O Centro Desportivo Municipal começou a ser construído há uma década, mas a obra sofreu com interrupções. Segundo Marta Zanella, o Farrezão será isolado para o início da quarta e penúltima etapa da construção. No final de setembro, o Diário de Santa Maria divulgou matéria em que anuncia a provável retomada dos trabalhos no local. De acordo com a publicação, serão gastos “R$ 3,225 milhões para aplicação em uma série de melhorias” que deverão garantir a aprovação do Plano de Prevenção Contra Incêndios (PPCI) e a consequente retomada das obras. Enquanto isso não acontece, os esportistas atuais ficam reduzidos a condições em algo similares às de 1970, quando tudo começou.

 

HISTÓRIA

       

O primeiro skate que se viu na Santa Maria da Boca do Monte veio na mala dos filhos de militares. A memória de quem viveu aquela época não lembra o nome desses pioneiros, mas lembra do sotaque: eram cariocas. As pranchas, contudo, vinham de fora do país porque, no começo da década de 70, até mesmo nas principais cidades do Brasil, “skate” ainda era uma palavra quase desconhecida.

       

Por aqui, até os “especialistas” no esporte se confundiam. O troféu que Ricardo Marquez, o “Baxo”, levou pra casa no começo da década de 80 traz gravada a inscrição “Campeonato de Skaity”.

 Baxo guarda uma série de trófeus e medalhas  das décadas de 70 e 80 (Foto: Beatriz Couto

 

Antes de ganhar campeonatos, contudo, Baxo precisava de um shape. “Shapes”, como são chamadas as tábuas de madeira usadas para descer ruas, escadas ou voar nas pistas côncavas, eram objetos raros e nem um pouco baratos. Feitas de madeira resistente, as pranchas eram largas e os eixos e rodas pesavam bem mais que os modelos atuais. Quem tinha um skate, na época, tinha muitos amigos: meia dúzia de garotos costumava dividir o mesmo shape. Baxo já praticava há pelo menos cinco anos quando ganhou pela primeira vez um shape pra chamar de seu, em 1984.

 

Mais de 40 anos depois de ter pisado num skate pela primeira vez, ele nos recebe em seu ateliê. A música que toca ao fundo, assim como sua profissão - artista gráfico - são influências desse esporte que, para ele, é cultura e estilo de vida também. Agora, junto ao próprio skate, guarda uma prancha menor, que presenteou ao filho de 6 anos. A criança ainda não se interessou muito pelo esporte mas “não tem que forçar”, diz Baxo, “isso tem que vir naturalmente”.

       

Da juventude no skate, além do shape, dos troféus e medalhas, ele guarda algumas amizades. Dentre os amigos que desceram com ele a Avenida Dois de Novembro em 1979 - conforme mostra o vídeo abaixo - muitos hoje são médicos, advogados, engenheiros e técnicos. Os cabelos descoloridos com parafina a algumas décadas atrás - “nós queríamos parecer surfistas”, conta Baxo - vão ficando mais claros com o passar da idade.

 Vídeo de 1979, é um dos  registros mais antigos da prática de skate na cidade (Reprodução Youtube)

 

Das amizades antigas do Baxo, uma das mais duradouras é com Octacilio Silveira Filho, 53 anos. Octacilio garante que também aparece no vídeo de 1979 (acima), mas o maior feito dele naquela época foi ter ajudado a construir a Rampa do Castor.

       

Quando era apenas uma criança de 11 anos, viajou para Florianópolis, mas foi impedido pela tia de frequentar a praia sozinho. Impossibilitado de surfar no mar, encontrou uma alternativa. “Lá, com o dinheiro que eu tinha pra passar minhas férias, fui numa loja e comprei um skate bandeirante”, relembra.

       

De volta para Santa Maria, skate em mãos, se deparou com a falta de um lugar adequado para andar. O skate guardado em casa virou motivo de conversas e essas o levaram a descobrir um ou dois outros garotos que, como ele, já tinham ganhado o brinquedo incomum. Juntos, eles imaginaram e construíram uma pista de skate baseados apenas nas fotografias de uma revista especializada - uma das poucas que chegou ao interior do estado. “Como a gente não tinha referência externa, muitas coisas que a gente fazia, achávamos que estávamos inventando”, conta Octacilio.

       

A pista feita de tábuas de compensado surrupiadas pela cidade ficou conhecida como “Rampa do Castor”, em referência ao garoto que cedeu o quintal para sua construção. Castor era vizinho de Octacilio e, segundo este último, concordou em colaborar desde que se cumprisse a seguinte condição: “Eu empresto o terreno, vocês me emprestam o skate pra eu andar”.

       

Foi assim que a turma de amigos reunida em torno do Baxo descobriu a turma de amigos do Octacilio. Eles se encontravam para praticar toda a semana na Rampa do Castor e, logo, “isso criou uma certa competitividade. Espontaneamente as pessoas começaram a formar uma competição entre si. E aí nós descobrimos que existia outro grupo, próximo ao Clube Atlético”, relembra Octacilio. Esse grupo se autodenominava Pé na Tábua, enquanto os meninos da Rampa do Castor criaram a própria equipe - com direito até a camiseta - chamada Roda Livre.

       

Da auto-organização dessas equipes surgiu a necessidade de criar torneios oficiais, onde a competitividade andava solta sobre as rodinhas. É difícil determinar quando aconteceram os primeiros campeonatos - a maioria dos troféus e medalhas da época não trazem a data e os jornais não cobriam os primeiros eventos - mas a memória de quem participou aponta o final da década de 70 e o início de 80 como o marco inicial dos campeonatos de skate em Santa Maria.

       

MAIS DO QUE UM ESPORTE

 

Os irmãos Guilherme e Henrique Freitas Ribeiro, de 15 e 16 anos, fazem parte da nova geração de skatistas que, assim como os das antigas, não tem acesso a uma pista pública e gratuita para  andar. Apesar disso, o skate é uma constante na vida dos meninos.

 

Mesmo quando os pés estão firmes no chão, as mãos de Guilherme insistem em brincar com uma miniatura de skate, quase um chaveiro, a dar manobras imaginárias no balcão da loja onde realizamos a entrevista. Enquanto isso,  o irmão mais velho, Henrique, relembra como começou no esporte, incentivado pelo padrasto quando tinha apenas sete anos de idade. Ambos estudam e Henrique ainda concilia as aulas na Escola Estadual João Belém com o emprego em meio período num supermercado, através do programa Jovem Aprendiz. “O skate me fez querer trabalhar pra poder sustentar isso, que é uma coisa cara.”

 

Se sustentar através do skate já é realidade na vida de outro santamariense, Gustavo Severo Boscardin, 27 anos. Quando começou a praticar, há quase duas décadas, as manobras que fazia com os amigos e os lugares que frequentavam eram guardados apenas na memória. Em 2005, ele começou a usar uma câmera amadora para gravar vídeos, armazenados inicialmente em DVD. Com a popularização da internet no Brasil, as coisas mudaram. “Todo o final de semana a gente ia pra rua, fazia sessões. Gravava, fazia manobras e botava no Youtube.”, explica ele.

 Gustavo Severo Boscardin, 27 anos, veste roupas da marca que criou inspirado no esporte (Foto: arquivo pessoal)

 

Os vídeos de Gustavo eram reunidos numa vídeo-magazine – revista em vídeo, numa tradução livre – denominada Skate Eterno VM. Logo, “Skate Eterno” deixou de ser só uma logomarca no canto do vídeo e passou a ser levada no corpo: o pai de Gustavo era dono de uma estamparia, onde camisetas e regatas recebiam o emblema. Mas foi só em 2013, quando as responsabilidades da vida adulta começaram a bater à porta, que ele sentiu a necessidade de profissionalizar o que antes era hobby. “‘Ou faço essa marca me dar dinheiro, pra esse sonho existir e permanecer, ou ela vai ser mais uma que não teve sucesso e parou”, pensou.

 

Dessa vontade veio a decisão de cursar Publicidade e Propaganda. Hoje, Gustavo Severo é publicitário, pai e dono de uma grife de roupas e acessórios que leva o mesmo nome do projeto de vídeo. Administrar a loja exige certo tempo mas nem por isso ele deixou de subir no skate, garante.

 No vídeo, de 2007, Gustavo Severo mostra as primeiras camisetas que confeccionou na estamparia do pai (Reprodução: Youtube)

 

O FUTURO

 

“Se os skate fosse feito só de skatistas, não existiria mais. Ele só existe ainda porque tem pessoas que pensam além das manobras”, defende Gustavo Severo, em referência à mobilização da ASSM. Antes dessa Associação já existiram outras na cidade, que perduraram por diferentes períodos de tempo. Dessa vez, porém, o objetivo é oficializar a entidade de modo a poder pleitear melhorias para o esporte enquanto representação de atletas e amadores na cidade. Uma associação registrada no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) pode estabelecer convênios e receber repasses do poder público municipal, por exemplo.

 

É o que fez a Associação dos Skatistas de Passo Fundo (ASPF), no norte do estado. Regularizada desde 2011, essa associação já obteve uma pista de skate e uma mini skateplaza, ambas com recursos advindos de emendas parlamentares. Em conjunto com o Poder Público Municipal e o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) os skatistas de Passo Fundo também viabilizaram a construção de uma terceira pista, incluída na revitalização do Parque Linear Sétimo Céu, área pública de lazer e turismo na cidade. Segundo Michel Schwalbert Oliveira, secretário da Associação Passofundense, a meta agora é estabelecer projetos, com apoio do executivo, tais como escolinhas de skate, oficinas nos bairros e campeonatos municipais.

 

Em Santa Maria, segundo o arquiteto do Instituto do Planejamento (IPLAN), Fábio Prado Lima, a construção de uma estrutura para o esporte chegou a ser incluída no projeto de revitalização do Parque Itaimbé, a exemplo do que aconteceu em Passo Fundo. Fábio, além de arquiteto, é skatista amador: ele e a filha, uma jovem de 15 anos, praticam o longboard. “O que a gente gosta é descer lomba, sentir o vento no rosto”, brinca. Apesar de não ser oficialmente especializado na projeção desse tipo de estrutura, Fábio planejou a planta de uma pista a ser incluída no pacote de melhorias do Parque. Para a revitalização dessa que é a maior área verde no centro de Santa Maria estão previstos 245,8 mil reais, oriundos de emenda parlamentar do senador Paulo Paim (PT), além da contrapartida do município, no valor de 14,1 mil.

 

No entanto, as rampas, corrimões e bowls projetados por Fábio não devem sair do papel. De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal, na última semana de outubro será realizada reunião para discutir a possibilidade de reformar a pista externa do Farrezão, ao invés de construir uma nova no Itaimbé. Ainda segundo a assessoria, a mudança de planos leva em conta o montante a ser investido - estima-se que o valor orçado para a revitalização do Itaimbé não será suficiente nem mesmo para adequações emergenciais, como a iluminação e a instalação de câmeras. Outro ponto elencado pela prefeitura é o prejuízo ao sossego público, já que a pista projetada para o Itaimbé seria adaptada sobre uma das quadras, próximo à área residencial.

 

A emenda para a revitalização do Itaimbé tem valor semelhante a outra, encaminhada ainda em 2014, para a finalidade específica de “Construção de uma Pista de Skate no Município de Santa Maria”, conforme detalha o Portal da Transparência. Contudo, a contrapartida municipal de 12 mil reais,  que se somaria aos 243 mil do governo federal não foi depositada e o convênio consta hoje como anulado. Através do Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse do Governo Federal (Siconv) é possível verificar a justificativa para a extinção do repasse:

 Justificativa para a extinção do contrato é de acesso público (Reprodução Siconv)

 

Consultada, a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal de Santa Maria afirmou que não pode justificar o ocorrido pois o fato diz respeito à administração anterior. A ASSM estima em 100 mil reais o valor necessário para a construção de uma estrutura de 500m² para a prática do esporte na cidade.

 

Hoje, a direção da Associação do Skate de Santa Maria tenta avançar em outras frentes. Alexandre Fernandes, presidente da ASSM, encaminhou à Câmara Municipal de Vereadores uma emenda que propõe a construção e ampliação das pistas de skate no município, através da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O objetivo de Alexandre é conseguir incluir no orçamento municipal para 2018 recursos destinados a realização das proposições da emenda.

 

Ele também sonha com uma estrutura que permita a prática de skate e esportes afins na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Alexandre chegou a enviar ao pró-reitor de Infraestrutura da instituição, Eduardo Rizatti, uma planta do projeto que abrangeria pelo menos 300m² sob a Ponte Seca, no campus de Camobi. A ideia não é inédita. A Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) inaugurou em 2013 obra semelhante - uma pista de 350m², tipo street. Lá, a estrutura também fica dentro do campus, é aberta ao público e está listada no site da instituição, junto a outros espaços de lazer.

 UFSM não admite que existam tratativas para a construção de uma pista no campus de Camobi (Reprodução :Youtube)

 

Contudo, o arquiteto Benoine Josue Poll, responsável pela Coordenadoria de Obras e Planejamento Ambiental e Urbano da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da UFSM negou que haja qualquer tipo de projeto para a realização de um skate park na universidade Os trabalhos realizados durante as últimas semanas em torno da Ponte Seca  – que acarretaram inclusive o isolamento da área – se devem a manutenção da estrutura, esclarece Benoine.

Há pistas que nem saíram da planta enquanto outras estão deterioradas pelo tempo, inadequadas para uso. Mas há uma, pelo menos, cujo cimento está intacto. Fica no bairro Nova Santa Marta, região oeste de Santa Maria e foi finalizada ainda no primeiro semestre deste ano. A pista faz parte de um Centro de Artes e Esporte Unificado (CEU), construído com recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento. O local  também abriga um cineteatro com 60 lugares, quadra poliesportiva fechada, biblioteca, computadores, salas multiuso e dependências para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Com exceção do CRAS Oeste, a população ainda não tem acesso às demais áreas do CEU, inclusive à estrutura destinada aos skatistas.

 

 

Já foram investidos pelo menos 2,2 milhões no complexo do CEU, que tem 3 mil metros quadrados. Nota divulgada pela Prefeitura Municipal, dava conta que ainda em maio a obra seria inaugurada. Por se tratar de recurso federal, o prazo máximo para entrega do complexo era junho deste ano. Porém, agora, a secretária Marta Zanella afirma que a inauguração ocorrerá até novembro. Enquanto isso, guardas-municipais se revezam dia e noite no complexo e evitam a aproximação e entrada de moradores, principalmente os que portam skates.

 Moradores ainda não podem usufruir da pista na Nova Santa Marta (Foto: Beatriz Couto)

 

A pista do CEU, embora longe dos padrões olímpicos, tem infraestrutura auxiliar: banheiros, bebedouros e iluminação. Nenhum dos outros locais destinados a prática do esporte na cidade apresenta esses itens, exceto a pista de skate localizada em um clube particular às margens da BR-287, Faixa Nova de Camobi. Utilizar a pista privada só é possível se o skatista for sócio do clube ou receber uma carta convite de algum associado. O convite permite usufruir de todas as dependências durante um dia inteiro, porém não sai por menos de 100 reais.

 

Lâmpadas consomem uma parcela ínfima dos recursos investidos nesse tipo de obra, mas são determinantes para a continuação do esporte. Sem segurança, iluminação e local adequado, mulheres ou crianças andando de skate são cena cada vez mais rara. “Que pai vai deixar sua filha ir andar de noite, no escuro, lá no Farrezão?”, exemplifica Alexandre Fernandes.

 

Samy Michelotti, que faz patinação urbana, vai além e reflete sobre o caráter de “cidade universitária e transitória”, muita vezes atribuído a Santa Maria. “O que mais falta aqui é criar espaços de convivência e de pertencimento pras pessoas, pra que elas queiram ficar aqui. Eu acho que uma das principais coisas é cuidar desse público, dessa faixa etária. Poder dar condições pro cara poder viver aqui, poder vivenciar a cidade”, acredita ela.

 

Tanto a secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, Marta Zanella, quanto o presidente da ASSM, Alexandre Fernandes, concordam que a criação da associação permitirá o desenvolvimento do skate, com a captação de recursos através leis de incentivo ao esporte e à cultura, por exemplo. Todavia, a organização de atletas, amadores e simpatizantes não se resume a busca por recursos. Henrique - o Jovem Aprendiz, de apenas 16 anos - tem nítido o que espera do futuro: “a gente gosta de fazer isso, e a gente quer ser visto como qualquer outra pessoa, como uma pessoa que anda de bicicleta ou como um corredor que faz esporte”. E Jean Senne, sexto colocado na categoria Amador II da Liga Gaúcha de Skate - competindo em pistas, treinando no asfalto - complementa: “a gente quer ser visto como um cidadão do bem”.

 

 

 

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