2018 por BOCA Jornalismo.

Um artista “de la gente”. Daniel Viglietti - 1939, 2017

1/11/2017

Por João Moura*

 Foto: Liana Coll//Revista O Viés

 

Faleceu ontem, aos 78 anos, o cantor e compositor uruguaio Daniel Viglietti, um dos maiores ícones da chamada "música de protesto" latino-americana.

 

Sua imagem mais famosa mostra ele cantando, com expressão fechada, sua "A desalambrar" numa apresentação na Nicarágua dos anos oitenta. Questiona os presentes com a letra e o olhar, na canção que defende a reforma agrária, à "desalambrar" as terras, retirá-las o arame e as cercas, e dar acesso à quem nela trabalha.

 

Sua expressão de bravura é de quem tinha vivido um ano no cárcere da ditadura em seu país por expor essas e outras ideias "subversivas" em suas canções. Uma expressão que transpira um misto de raiva e dor, mas também coragem e desafio, de quem só pode deixar a prisão e seu país em direção ao exílio daqueles anos após uma campanha internacional de artistas e intelectuais contra aquela medida evidente de repressão às liberdades artística e de expressão.

 

Muito tempo depois, há alguns anos, tive com ele um daqueles momentos que a gente carrega pra sempre na memória. Sabendo que ele se apresentaria em Pelotas, eu e outros amigos seguimos para lá ouví-lo cantando e, também, com a esperança de conseguirmos uma entrevista. Mesmo gripado e visivelmente debilitado, Viglietti gentilmente concedeu um pouco de seu tempo para aquela meia dúzia de jovens jornalistas e admiradores que formávamos.

 

Ainda que tenhamos ficado pouco tempo frente-a-frente com aquele senhorzinho de cabelos brancos ralos e aparência frágil, saímos ainda mais admirados por suas palavras de sabedoria, sua paixão pelas ideias e por seus ideais.

 

Aos setenta e tantos anos, projetava o futuro de sua música, sem deixar de revisitar sua carreira com rara serenidade.

 

Se esquivou da caracterização de que formava, junto com tantos outros, um grupo de "músicos de protesto", afirmando que aquela pecha não o limitava como artista. Disse que, em suas obras, questionava sim as coisas como elas são, mas que também defendia o amor e o humor como combate à tóxica realidade.

 

Foi humilde ao encarar as limitações históricas de seu trabalho. Seu álbum de maior fama, com uma série de composições engajadas, foi chamado "Canción para el Hombre Nuevo", numa apropriação da ideia de criação de "um novo homem" apresentada por Che Guevara na década de sessenta.

 

Tantos anos depois, para abarcar não só novos homens, mas a todos, Viglietti disse que o disco poderia ter um título mais apropriado, algo como "Canções para uma Nova Humanidade".

 

A mudança que parece acessória, quando proposta pelo próprio compositor aponta para um desapego raro com o passado. E também capacidade de permanente reflexão sobre o mundo e suas interpretações.

 

Assim como tantos outros artistas que prestam suas obras ao povo e suas lutas como Victor Jara, Gonzaguinha ou Violeta Parra, Viglietti será para sempre lembrado como um dos grandes, um gigante da música e da poesia feita em nome "de la gente". Vai-se do mundo, mas deixa uma obra eterna.

 

Daniel Viglietti, 24 de julho de 1939 - 30 de outubro de 2017.

 

[Para ler a entrevista citada, acesse a Revista o Viés, aqui]

*É jornalista sindical.  Foi Redator na Revista O Viés.

Gustavo Martinez é o clássico caso do jornalista que faz tudo que tem a ver com música, menos música. Ainda assim vai dar os seus pitacos aqui sobre tudo que tem a ver com o cenário nacional independente.

 

 

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