2018 por BOCA Jornalismo.

Rock feito por mulheres: uma entrevista com as organizadoras do GRITA

O GRITA é um festival feito por mulheres e para mulheres. Não existe na história recente de Santa Maria o registro de algo parecido, ao menos não que as organizados Carolina, Laura e Luiza tenham ficado sabendo. Conversamos com a gurias, em pleno parque Itaimbé, em meio as pessoas que frequentam o tradicional Bar do Pompeo, sobre o festival, os entraves no caminho da organização e a importância que um evento desses carrega.

 

Vale lembrar que essa ideia não é de hoje, as organizadoras já tinham o projeto de uma festa com bandas compostas só de mulheres desde 2016. “É um grande ponto de intersecção de coisas que a gente gosta. Nós somos mulheres, gostamos de consumir coisas feitas por mulheres e gostamos de música”. Inspiradas por eventos anteriores, especificamente a apresentação do mineiro Jonathan Tadeu e as bandas santa-marienses Vespertinos e San Diego, na Concha Acústica no ano passado (que tanto a Laura quanto a Carolina também organizaram), elas perceberam a viabilidade de se fazer um festival em um local público. Depois, após a possibilidade de uma parceria em potencial que não deu certo, veio a decisão de fazer tudo da forma mais independente possível.

 

 No Pompeo, Carolina Barin, Luiza Roos e Laura Garcia, organizadoras do GRITA Foto: Mateus de Albuquerque//BOCA Jornalismo

 

“Tudo deu muito errado, insanamente errado, mas a gente tinha muita vontade de fazer. Tipo, vamos fazer o bagulho por que a gente quer assistir coisas desse jeito. Temos interesses em ir a eventos assim. De consumir coisas feitas por mulheres.”

 

Após os contatos iniciais com as primeiras bandas que elas tinham em mente, foi lançada então a página no Facebook do festival e o retorno foi imediato e surpreendente. Não foram só “respostas de gente da cidade, respostas de gente de fora, de São Paulo!”, em menos de um dia a página já havia alcançado as 500 curtidas, hoje, às vésperas do festival, ela já ultrapassou a marca dos 1.300.

 

As meninas já tinham contatos de bandas, através de algumas experiências anteriores. A Luiza participou como voluntária do Girls Rock Camp em Porto Alegre (um acampamento onde meninas de 7 a 17 anos são convidadas a aprender a tocar um instrumento, compor músicas e formar uma banda, encerrando o evento em um mini-festival com as apresentações dos grupos que se formam lá dentro), as outras gurias já haviam feito alguns shows na cidade e entrado em contato com produtoras. Assim, fazer os contatos veio facilmente. A repercussão das bandas não foi diferente do apoio do público e surpreendeu as meninas.

 

“A primeira coisa que a gente tinha certeza era quem iria tocar” diz Luiza, e ainda assim “colocamos mais umas duas bandas depois” que não estavam previstas na escolha inicial. Muito disso se deu porque havia pessoas perguntando se haveria um edital para inscrição de bandas. A resposta foi não, pois simplesmente não se imaginava que teria um retorno tão grande e que teria mais gente disposta a tocar. Inclusive muitas das bandas estão cobrando um cachê um pouco abaixo do que normalmente cobram pois querem ver o festival acontecer. Uma vez que o orçamento disponível se mostrou capaz de financiar mais bandas, as duas extras foram adicionadas ao line-up.

 

Isso só aconteceu por causa do financiamento coletivo promovido pelo festival através do site Vakinha que levantou mais de 3 mil reais para o projeto. Outra demonstração bastante nítida do apoio recebido pelo público.

 

Mas porque o rock?

 

Primeiro porque é o gênero musical preferido das organizadoras. Em segundo lugar é o que elas sentem mais falta, ao considerar as opções em Santa Maria. Em especial considerando bandas formadas exclusivamente por mulheres, “tem bandas que tocam samba, tocam MPB, tem outros nichos, no nosso a gente realmente não tinha”. Além disso, mesmo em relação a outros eventos as escolhas de gêneros musicais vão por outros caminhos, ou que englobam muito além do rock, frequentemente pendendo para o pop, por exemplo.

 

O feminismo também se faz presente no rock feito por mulheres. “O punk e o hardcore feito por mulheres é voltado para o embate ao patriarcado.”. Um grande exemplo é a banda 3D, que se faz presente no festival e é uma grande referência para “todas as mulheres que gostam de rock no Rio Grande do Sul”.

 

No entanto, a ideia vai além de meramente um espaço com bandas de rock femininas. Antes do festival em si foram realizadas diversas oficinas e rodas de conversa com a finalidade de incentivar as mulheres a produzirem, a se aproximarem da música e a conhecerem outras produções artística de mulheres. A exemplo, foi organizada uma oficina de introdução musical para mulheres, como forma de encorajá-las e capacitá-las para iniciar na produção musical.

 

 Cartaz do Festival GRITA. Foto:Divulgação//BOCA Jornalismo

 

O que se percebeu disso é que capacitação não falta. Na verdade, havia muitas mulheres participantes das oficinas que já dominavam os instrumentos e que simplesmente não se sentiam confortáveis para formar uma banda para tocar em público. Isso porque a pressão em cima de mulheres artistas é muito maior. Enquanto um homem medíocre é aplaudido, uma mulher boa vai ser questionada, terá sua aparência criticada, isso quando não for imediatamente dispensada como uma artista ruim antes mesmo de ter uma chance de se apresentar, o “olhar público é muito mais crítico”. A oficina era descrita como um lugar para mulheres que nunca tocaram, e apesar disso, boa parte das meninas que compareceram já tinham domínio dos instrumentos. Dessa oficina surgiu um grupo no Facebook para mulheres músicas de Santa Maria se reunirem e formarem bandas e outras parcerias e, mais importante, fomentar lugares onde as mulheres se sintam seguras para tocar.

 

“É um espaço de valorização feminina, quanto mais coisas a gente puder colocar em pauta, melhor.”

 

E assim nasceu também a ideia de expor outros trabalhos feitos por mulheres. Durante o edital para a inscrição de oficinas, muitas mulheres perguntaram se teria um espaço para expor trabalhos, como poesias, ilustrações, entre outros. Por isso, durante o festival haverá não somente exposições ao redor do palco, mas também intervenções artísticas entre os shows, para colocar em evidência o maior número possível de mulheres artistas.

 

“A gente entrou em contato com mulheres maravilhosas de inúmeras áreas.”

 

A união do feminismo e música foi um caminho praticamente natural. Uma convergência do que as organizadoras já tinham enraizado em sua identidade e uma maneira de juntar tudo em um único momento. A música, o feminismo, e a organização de espaços para mulheres.

 

Existem iniciativas parecidas Brasil afora, e que foram inspirações para o GRITA, como a PWR Records, um selo musical independente que trabalha apenas com bandas cuja formação inclui mulheres, o projeto We Are Not With The Band, que tem como objetivo a disseminação de trabalhos musicais feitos por mulheres, e o próprio Girls Rock Camp.

 

“É muito importante pra gente se reconhecer nessa coisas e daí pra frente passar a fazer o próprio rolê.”

 

Tudo dando certo, o GRITA terá uma segunda edição em 2018. Quem sabe no que vem o festival conte com mais bandas femininas locais, formadas por um incentivo, direto ou indireto, do próprio GRITA.

 

“O principal do GRITA pra mim é que não é impossível as mulheres fazerem tudo que elas quiserem.”.


 

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