2018 por BOCA Jornalismo.

A falta de falta

19/12/2017

“O capitalismo é o senhor do tempo.

Mas tempo não é dinheiro.

Isso é uma brutalidade,

o tempo é o tecido das nossas vidas”[1].

 

 

Pensei este texto enquanto aguardava resolver burocracias em um banco. Queria cancelar cheque-especial. Relutei à ação mecânica de pegar meu celular e ficar passando o dedo pela timeline do Facebook. Quando vi que o atendimento demoraria mais uns minutos, cedi e peguei o celular. Mais uma vez meus dados móveis de internet não funcionaram, sem livros e sem alguém para conversar, me vi tendo que contemplar o espaço na minha frente e me virar com o que tenho na cabeça. As pessoas na minha frente e ao meu lado estavam impacientes - em seus celulares, consultando seus relógios.

 

De repente, me vi quase sem estímulos e me perguntei, então, como era a vida antes da profusão intensa desses estímulos? Será que é preciso conter o excesso, será que já vivemos sem estímulos excessivos? Conter a necessidade de preencher cada espaço vazio com alguma coisa se tornou um hábito oneroso.

 

Isso porque acreditei durante anos que fosse meu o perfil das pessoas que precisam se ocupar e produzir centenas de coisas ao mesmo tempo para se sentirem úteis à sociedade. Logicamente, meu corpo vacilou e a cabeça deu sinais de exaustão. Uma exaustão que não passou com um final de semana de sono e coberta. E nem depois, e depois também não. Por onde eu andasse, para onde eu virasse meu pescoço, lá estava o excesso: de comidas que eu comi por pura ansiedade, de links que abri e ainda não li, ou que apenas passei os olhos, de contas e seus juros, de trabalhos que julguei fazer, de livros empilhados para ler, séries não terminadas, de informações a respeito de outras vidas que não a minha. Toda a vez que lia textos pedindo que as pessoas desacelerassem, reavessem seus ritmos de vida, eu pensava “fácil para quem tá com a vida ganha”. E, de fato, sustento a opinião de que para a maior parte das pessoas não há muita opção que não a de se dobrar em vinte sujeitos diferentes para dar conta de tudo o que precisa ser feito. Se você não tá com a vida ganha ou se tem que fazer o dinheiro render, não pode terceirizar o cuidado com seus filhos, nem o trabalho que você tem de realizar para ganhar o dinheiro que vai se transformar em alimento, teto, roupa, água, luz, internet e alguns regalos.

 

Perdemos o direito de parar ou nunca o tivemos? Não apenas individualmente, com todos os artifícios que selecionamos para viver e tocar adiante, mas, e quando no geral somos impedidos de descansar? Reformas trabalhistas foram aprovadas enquanto usavam máscaras muito bem coladas com símbolos de modernização. Afinal, é preciso respeitar os novos tempos e a jornada de trabalho intermitente (aquela em que você ganha pela hora, não pelo mês), as férias parceladas, os minutos cada vez mais restritos para almoço/janta. Nacionalmente, globalmente, socialmente, estão nos impedindo ainda mais fortemente de acessar o direito de pausar. E olha, não disse paralisar. Mas pausar, e apenas. Pensar, olhar para a parede, contemplar o próprio espaço sem ter que preenchê-lo, ainda que isso acarrete em vazio ou tédio (detestados, porém necessários).

 

Não há como parar. Não é aceitável que alguém queira “trabalhar menos”: isso acarreta na forma como essa pessoa será vista ou percebida, suas escolhas são julgadas como de alguém que é preguiçoso ou vagabundo. Todavia, as pessoas que gostam do seu trabalho e que porventura conseguem sair de férias são recorrentemente consumidas pela culpa - várias delas checam seus e-mails, respondem a mensagens, escapam do descanso por medo de ficarem para trás nas informações, no desempenho, até mesmo na garantia da vaga ou posto que ocupam. Não é aceitável que alguém diga que está cansado e que vai descansar: o corpo vacila, você é fraco; a mente vacila, você é fraco - fica para trás, emperra o funcionamento sadio da engrenagem. Para o mercado de trabalho, você é velho (mas com a reforma da previdência, momentaneamente estancada no Congresso brasileiro, você não irá arrastar por mais anos a sua aposentadoria). Para o mercado de trabalho, você é jovem - produza, renda, trabalhe incansavelmente, não desligue um segundo, você não pode ficar para trás. Descanse quando estiver morto - sendo jovem, sendo velho.

 

Cada segundinho de tempo é preenchido com estímulos. Li esses dias que o Facebook é o novo cigarro (basta um segundo de tédio que a ação mais mecânica que fazemos é a de deslizar a senha da tela do celular e abrir qualquer rede social). O semestre acabou e é preciso recuperar três meses em uma semana, mas, todos seguem lá, movidos a café e lágrimas de cansaço. É também o momento de trabalho extra, compensar horas, fazer mais um troco, as “festas” estão chegando e os gastos aumentam para ceias, presentes, viagens (quais mesmo e com qual tempo?). Já experimentaram andar pelas ruas nessa época do ano, no meio da tarde, em meio ao comércio? Já repararam que o ano acabou e você não tem plenamente certeza se percebeu quando foi que ele passou? Como meses que passavam tão lentamente hoje acabam sem despedidas?

 

Sinto falta da falta. Sentir falta de espaço é caminhar pelas ruas movimentadas em câmera lenta. Ninguém adora o vazio, ele pode machucar, mas o mesmo (e o silêncio), a pausa, seja para descanso, seja para reflexão, são imprescindíveis para qualquer tipo de assimilação.

 

Não há uma linha de chegada para toda essa corrida.

 

 

Por fim, recomendo fortemente o vídeo da palestra proferida pela psicanalista Maria Rita Kehl, Aceleração e Depressão, disponível aqui pelo Youtube.

 

 

[1]Fala proferida pelo professor Antonio Candido, em discurso durante a inauguração da biblioteca da escola nacional Florestan Fernandes, citado pela psicanalista Maria Rita Kehl.

 

 

Nathália Costa (Panka) é jornalista, mestre em comunicação midiática e doutoranda na mesma temática. Participou de coletivos de mídia alternativa e auto-organizada, é educadora popular de redação e acredita em uma comunicação plural e emancipadora. Gosta de debater a sociedade e vai arriscar palpites neste espaço mensal.

 

 

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