2018 por BOCA Jornalismo.

Formação à Perigo: Como os cortes e reformas do governo federal estão afetando os projetos de formação docente de Santa Maria

A melhora na educação era, nas eleições de 2014, uma das grandes prioridades do eleitor brasileiro, segundo o site Congresso em Foco. Os índices da educação básica brasileira são preocupantes: em uma lista elaborada pela organização Pearson International que mede a qualidade da educação de um país, no primeiro semestre de 2017, o Brasil ocupou a 39ª posição em um ranking de 40 países. Michel Temer, ao assumir a Presidência da República após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, tinha como um de suas principais tarefas a melhora da educação pública. Ao questionar os excessivos gastos públicos do Brasil, o documento Uma Ponte Para O Futuro, plataforma política de Temer, afirma que gastos na educação são “positivos e virtuosos” e que “nesse caso, o aumento de despesas públicas foi correta”.

 

Entretanto, logo no começo do ano, a educação perdeu R$ 4,3 bilhões de reais em investimento público. E a questão não está só nos gastos: a reforma do Ensino Médio, lançada pelo Ministro da Educação Mendonça Filho (DEM) na forma de Medida Provisória em setembro do ano passado, foi amplamente criticada pelo setor docente. Santa Maria, conhecida pela sua ampla oferta de vagas universitárias, tem grande importância na formação de professores para a rede básica: existem vinte e seis cursos de licenciatura na cidade, todos bastante dependentes de programas do Governo Federal, já que existe uma baixa procura nas licenciaturas do Brasil. Este relatório do Governo Federal informa que 36% das vagas disponíveis de Licenciatura são ociosas. Como o panorama de cortes e mudanças têm afetado os projetos de formação de professores de Santa Maria?

 

PIBID

 

No dia 18 de outubro de 2017, o Ministério da Educação (MEC) anunciou a nova Política Nacional de Formação de Professores, que envolve a criação de uma Base Nacional Docente, que vinha sendo discutida há algum tempo e deve nortear a formação de professores no ensino superior; de um programa de residência pedagógica, a ampliação do ProUni e do ensino a distância.

 

Um dos objetivos do programa de residência pedagógica, de acordo com a secretária executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, é a modernização do já existente Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid).

 

O Pibid é uma iniciativa do Ministério da Educação que, desde 2010, fornece bolsas para estudantes de licenciaturas em cursos presenciais para que eles atuem em escolas públicas. Conforme a coordenadora de Gestão de Processos Educacionais do Pibid no Centro Universitário Franciscano (Unifra), professora Karla Souza Tatsch, a finalidade principal dessa interação é que os licenciandos conheçam e reflitam sobre a realidade das escolas públicas para provocar intervenções.

 

Para justificar a nova Política de Formação de Professores, a secretária executiva do MEC afirmou que há um problema de baixa qualidade na formação de professores que atuam na educação básica, constituída de currículos extensos, sem atividades práticas, além de estágios curriculares sem planejamento e sem vinculação clara com as escolas.

 

A residência pedagógica, apresentada pelo Ministério da Educação como proposta de modernização do Pibid, ainda não foi explicada de maneira explícita pelo MEC. O que se sabe, por enquanto, é que o estudante de licenciatura terá estágio supervisionado, no qual poderá ingressar a partir do terceiro ano do curso.

 

O ministro da Educação Mendonça Filho entende que “a residência pedagógica é um caminho que vai facilitar a amplitude do conhecimento prático profissional e a melhora da qualidade do ponto de vista de lecionar dentro da sala de aula”. No entanto, essa visão é controversa.

 

Karla afirma que políticas como a residência poderiam ser complementares ao Pibid, quando se fala em professores em formação inicial. O maior problema dessa nova proposta, segundo ela, é a formação continuada do professor que atua em sala de aula, que fica deficitária no novo modelo. “A gente sabe que, de maneira geral, o professor que está na educação básica, dependendo do lugar em que ele atua, não tem condições de sair, de fazer um curso, de participar de seminários, fazer uma pós-graduação”, afirma.

 

A professora diz ter ficado surpresa com a justificativa de que o programa não conseguiu aliar teoria e prática, pois na sua visão ocorreu justamente o contrário. O Pibid, para Karla, é uma forma de aprimorar tanto a formação inicial do educador, quando este ainda é um estudante de licenciatura, quanto a formação continuada do professor que recebe o bolsista.

 

Outro ponto positivo apontado pela professora é que a bolsa oferecida pelo programa funciona como uma política de permanência na graduação para os estudantes. Os estudantes e professores também participam de eventos, pesquisas, grupos de estudo na escola e na instituição de ensino superior.

 

A possível extinção do programa tem preocupado os bolsistas Pibidianos que, no mês de Novembro, após o Ministério da Educação anunciar a proposta de modernização do Pibid, se organizaram nas redes e articularam atividades e manifestações em Santa Maria, a partir do movimento nacional #FicaPibid, intensificado nos últimos anos após os cortes do MEC na área. A modificação teórica e prática do incentivo à docência de alunos do curso superior, principal mudança do Programa de Residência, sobretudo, diz respeito aos atuais alunos cadastrados.

 

A estudante Stéfani Bender, aluna da graduação de Filosofia em Licenciatura, é bolsista cadastrada no Pibid pela Universidade Federal de Santa Maria, há um ano e meio. Segundo ela, o movimento contra os cortes na pasta da educação antecede o momento atual.

 

“Em 2015, o Pibid já estava para ser cortado sem uma grande justificativa. Teve muita mobilização no Brasil inteiro e, após isto, voltaram atrás com a decisão. Agora, lançaram o Programa de Residência Pedagógica que a proposta é entrar em vigor nos próximos meses. Ainda são suposições, mas a gente imagina o que está por vir pelo caráter dos últimos cortes no programa”, ressaltou.

 

 Depoimento da estudante Stéfani Bender sobre as mudanças no PIBID. Filmagem e edição: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo

 

Assim como os demais bolsistas, Stéfani atua nas escolas da cidade que aderiram ao projeto, com o auxílio de supervisores e coordenadores que a orientam no planejamento das aulas. “A ideia é que a gente vá uma vez por semana na escola, em um período de aula. Normalmente, trabalhamos em dupla com outro bolsista”.

 

Além disso, Stéfani destaca a Residência como um programa que “vem junto com a Reforma do Ensino Médio”, na medida em que prejudica o incentivo à docência de determinados cursos em detrimento de outros. “A proposta do programa de residência tende a ser mais voltada para as áreas como a Matemática e o Português. Então, provavelmente, a Filosofia, Humanas e Educação Física não terão mais bolsas, independente do que venha ser esse programa.”

 

ALTERNATIVA

 

O Pré-Universitário Popular Alternativa surgiu no ano de 2000 por iniciativa de estudantes do Centro de Ciências Rurais da UFSM, que notavam uma forte dificuldade no ingresso de pessoas de baixa renda na Universidade. A partir de 2007, o projeto começou a ter a formatação atual: um Projeto de Extensão, administrado pela  Pró-Reitoria de Extensão da UFSM, com estudantes de diversos cursos da Universidade lecionando.

 

Em 2017, o preparatório contou com aproximadamente 100 educadores, que lecionaram para quatro turmas, totalizando 180 alunos (entre titulares e suplentes do processo seletivo que o cursinho faz), todos com baixa renda comprovada. No 2016, 89 alunos do Alternativa foram aprovados na UFSM. Apesar dos bons números, o projeto sofre com uma forte saída dos alunos, que não conseguem se manter ao longo do ano. O número de evasão em 2017 foi de 90 alunos, maior que o de 2016, de 60, já contabilizando aqui os alunos que evadiram por terem sido aprovados em vestibulares ao longo do ano.

 

Segundo o professor de português e um dos coordenadores do projeto, Anderson de Andrade, um dos maiores problemas do cursinho é estrutural. São poucos data shows para apresentação de slides, cadeiras desconfortáveis, energia elétrica inconstantes e tudo isso em um Prédio com estrutura precária, o Prédio de Apoio da UFSM, localizado próximo à esquina da rua Floriano Peixoto com a avenida Presidente Vargas.

 

Ainda segundo Anderson, o Alternativa tem o importante papel de levar uma preparação mais humana para os estudantes com menor renda, em contraponto com a “indústria da aprovação” que existiria em Santa Maria, uma cidade com fortes marcas de preparatórios e que investem pesado em marketing e em expansão (inclusive para outras cidades). A própria opção de usar o nome ”Pré-Universitário” ao invés de “Pré-vestibular” ou “Pré-ENEM” já denota esse ponto: o objetivo do Alternativa é preparar para toda a vida Universitária, e não só para o processo seletivo.

 

Anderson de Andrade, coordenador do Pré-Universitário Popular Alternativa, explica o que é o projeto. Filmagem e edição: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo

 

O BOCA conversou com Adriana Monfardini, técnica em Assuntos Educacionais da Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da UFSM. Adriana é a responsável por tratar diretamente com alguns dos projetos de extensão da UFSM, do qual o Alternativa é o maior: no orçamento recebido de aproximadamente R$ 333 mil da Pró-Reitoria em 2017, R$ 80 mil foram enviados ao preparatório. Ainda assim, o valor é insuficiente para as necessidades do Alternativa. Segundo Adriana, os cortes do governo federal são determinantes para agravar essa situação. “Claro que a gente solicita tudo o que é necessário para a continuidade do projeto, mas não temos nenhuma garantia de que essas solicitações serão atendidas”, afirma Adriana.

 

A questão da estrutura precária do Prédio de Apoio é uma das que mais preocupam os educadores do projeto. Em maio de 2016 havia sido tomada a decisão da desativação do Prédio no final daquele ano, o que não se cumpriu. Todos os cursos de graduação que anteriormente ocupavam o Prédio já se transferiram para o Campus em Camobi, mas projetos de Extensão como o Alternativa seguem operando lá. Segundo Adriana, todas as movimentações já foram feitas por parte da PRE, com documentos enviados ao gabinete do Reitor Paulo Burmann, sem que a Pró-Reitoria obtivesse respostas concretas quanto à saída do Prédio. A ideia é que os projetos de Extensão ocupem o Prédio da Antiga Reitoria, também localizado na rua Floriano Peixoto, que apresenta melhores condições de uso e também está sendo desocupado pelos cursos ali presentes.

Uma preocupação compartilhada entre Anderson e Adriana é a do afastamento das licenciaturas com o programa. Hoje, 27% dos professores do projeto cursam bacharelados ou são bacharéis. Anderson afirma que é muito difícil, por parte dos cursos, haver uma participação dentro do projeto, encará-lo como uma importante dimensão formativa para os docentes. O Alternativa promove formações continuadas para seus educadores.

 

Para Adriana, a distância entre as licenciaturas e o Alternativa acontece devido a uma certa “vocação bacharelesca” das licenciaturas, que tendem a afastar os cursos da sala de aula. Adriana afirma que uma das provas de que o projeto é efetivo está no fato de que muitos dos egressos do projeto se tornam educadores no Alternativa. “Nós gostaríamos que esse entendimento fosse compartilhado e nós tivéssemos mais apoio, como da PROGRAD e dos cursos de Licenciatura. Todo esse trabalho poderia ser potencializado”.

 

Essa é a primeira parte da Reportagem BOCA Dezembro: "Santa Maria e seus professores". Confira a segunda parte aqui.

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