2018 por BOCA Jornalismo.

Faz diferença?

17/1/2018

 "Reprodução Proibida" de René Magritte. Foto: Divulgação.

 

Existe uma máxima atribuída à Rosa Luxemburgo que acho uma síntese muito bonita a respeito de sistemas mais igualitários e justos para a sociedade. Nessa máxima, a filósofa e economista marxista reforça que, no horizonte da sociedade socialista, o ideal de mundo é um espaço no qual todos seríamos “socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. A relação entre igualdade e diferença, bem como a possibilidade de emancipação e vida livre a partir da dosagem entre esses elementos, sempre pareceu para mim como uma profecia digna, suficientemente verdadeira para buscar se alinhar.

 

O alinhamento, por sua vez, prevê que a gente encontre uma série de experiências, caminhos, ideais e pessoas com as quais trocar identificações e semelhanças. Ainda que a diferença seja necessária a nossas subjetividades e, consequentemente, ao funcionamento sadio e mais democrático da sociedade, nós buscamos, durante boa parte de nossas vidas, meios de atenuar possíveis diferenças. Nos identificamos com ideias, entramos em grupos, começamos a nos parecer com amigos ou pessoas próximas, nos alinhamos com uma perspectiva de estudo e visão de mundo, seguimos a moda, nos engajamos em causas, criamos e nos identificamos com ídolos e símbolos. E mais um milhão de coisas, mas só consigo pensar até aí. O que fica dessas experiências de alinhamento é o sentimento de conforto diante da semelhança.

 

Porém, há algo que a semelhança produz que gera uma expectativa que não parece existir na completa diferença. O diferente, o antagônico, pode até produzir na gente mesmo um certo medo, receio. Em muitos casos, nem possuímos capacidades cognitivas para compreendê-lo o suficiente, sua incompletude nos basta. Mas do nosso grupo de semelhantes, algo permanece no ar, deles nós esperamos respostas, retorno e (o mais perigoso, penso eu) acordo total. Do momento em que todos nós, grupo de pessoas, concordamos com algo, nos identificamos, atingimos uma etapa na qual estamos satisfeitos por essa identificação, para o momento no qual algumas coisas - detalhes ou não - passam a não ser consenso, algo se rompe. A segurança que tínhamos na identificação se rompe, o desacordo pode virar um balde gigantesco de água transbordando. Alguns movimentos, coletivos e organizações pressupõem a existência das brechas, da máxima “concordamos em discordar” polidamente. Mas no mar aberto das redes sociais, onde existem espaços nos quais nós somos colocados (mesmo que não desejemos ou não saibamos), essa máxima não serve. É preciso espremer um suco de concordância, torcer a fruta ao ponto que não restem conflitos, apenas consensos. Há riscos complicados no consenso, e a gente sabe disso. 

 

Tem aí um problema com a pequena diferença, a sutileza do que não se encaixa. Antes de ser apenas um pequeno detalhe, algo que nos confunde por não se parecer e se assemelhar entre nós, a pequena diferença parece ocupar um papel bem mais determinante nos jogos do convencimento e nas quedas pela intolerância. Quando a gente se dispõe a discutir pela internet, ou na mesa do bar, ou nas reuniões ocasionais entre parentes mais ou menos próximos, é que a gente enxerga o nosso grau de intolerância. Pouco ele se manifesta com o sujeito completamente oposto a nós. Ver alguém defender ideais completamente antagônicas e diferentes das minhas pode me provocar alguma ojeriza, mas eu quase não embarco no caminho do convencimento. Chega um momento em que nós dois - eu e o outro - já nem nos tocamos mais, tamanha é a nossa diferença. A gente se anula um do outro, a gente se abstém. Mas nas pequenas diferenças entre os semelhantes, a coisa é diferente. Na sala de aula, com colegas que partilham de opiniões ou que chegaram à mesma etapa de maneiras muito parecidas, o espaço para discordância é mais dolorido. Em um coletivo, na luta por uma causa, as divergências (grandes ou pequenas) promovem cisões. E as rupturas não parecem ser contornáveis. A gente já não consegue conviver com algo/alguém que por muito tempo nos foi tão semelhante. Sua pequena diferença é um soco no castelo de areia da nossa semelhança. Nas rodas de debate das redes sociais, parece que todo mundo já concordou em algum ponto, aí chega aquele momento no qual a gente não se compreende por não concordar e o assunto “morre” ali, nas farpas trocadas.

 

Ando com preguiça de muitos debates em redes sociais. Ainda assim, eles me produzem um ou outro pensamento, como os que eu rabisco aqui. Mas, infelizmente, parece que nem eu e nem uma porção de gente tem tempo, paciência e capacidade de dialogar ou debater quaisquer pautas sem criar enormes abismos de diferenciação a partir de pequenas cisões de discordância. Se estamos deslumbrados com a capacidade de falarmos e sermos ouvidos, vez ou outra parece que ouvir e compreender sejam outras capacidades que a gente negligenciou bastante. Nossa estranheza com a diferença na semelhança pode e deve promover rupturas, mas rupturas e possíveis desacordos não deveriam representar a impossibilidade de acordos, pois a intolerância e a discriminação surgem do pequenos “narcisismos das pequenas diferenças”, como conceituou Freud em O Mal-Estar na Civilização. Talvez nosso maior preconceito resida na necessidade gritante de identificação que afoga quaisquer possibilidades de questionamento ou dúvida. Assim, na busca pelos iguais, atropelamos os diferentes. Os diferentes que em alguns casos nós nem ao menos tocamos, pois estamos muito distantes para ver. A nossa busca pelo interlocutor que conosco concorda é o que muitas vezes resulta na completa falta de diálogo e discussão, pois da mesma ordem  não surgem partes diferentes que se complementam, mas similaridades que se anulam, espaços sem troca, apenas reforço. Nessa seara, semelhantes estão próximos ao ponto de se anularem, enquanto diferentes sequer são escutados (sejam essas diferenças pequenas, grandes, próximas ou distantes).

 

Precisamos nos esforçar mais para que os termos “debate” e “diálogo” sejam aquilo que realmente são e representam,  não apenas pontos lançados como cartadas finais para qualquer assunto no qual a gente quer ter a razão e a palavra final. Dá para treinar no próximo ponto da pauta que possivelmente surgirá em breve, dentro e fora das redes sociais.

 

 

Nathália Costa (Panka) é jornalista, mestre em comunicação midiática e doutoranda na mesma temática. Participou de coletivos de mídia alternativa e auto-organizada, é educadora popular de redação e acredita em uma comunicação plural e emancipadora. Gosta de debater a sociedade e vai arriscar palpites neste espaço mensal.

 

 

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