2018 por BOCA Jornalismo.

É gordice que chama?

22/1/2018

É guloseima, é sobremesa, é comida gostosa. Mas não é "gordice". Foto: Luíza Tavares//BOCA Jornalismo

 

Não é. Pode chamar de guloseima, doce, sobremesa, comida gostosa, qualquer coisa menos gordice. Sabe por quê? Porque todo mundo come. Não é só gordo que gosta de sorvete.

 

A questão é que as pessoas gordas são constantemente relacionadas com a comida. Sendo que são pessoas perfeitamente capazes de realizar atividades e viver como qualquer outra – óbvio, considerando as limitações individuais de cada um. De qualquer forma, pra essa discussão, não importa como a pessoa chegou no peso que ela tem, mas o porquê desse peso ter tanta importância para os outros.

 

Não é sobre saúde quando se critica o gordo. É sobre preoconceito e gordofobia. Porque, qualquer um, independente da sua aparência física ou condição de saúde merece respeito. Caso contrário, pessoas com alguma patologia crônica não poderiam ser incluídas nesse discurso, afinal, só quem tem saúde precisa ser respeitado? Além de que, se fosse sobre saúde, se criticaria, com a mesma intensidade, o excesso de bebidas, de cigarros, de estresse, noites viradas em festas, etc.

 

E, se for difícil de compreender os motivos, eu acredito que, no momento em que outra pessoa se ofende, a gente deve repensar nossas atitudes. Gordice é ofensivo. Legendas como “vai, gordinha”, também são. - Ah, tantos bichinhos nos emojis, tem que usar uma baleia mesmo?!

Essa desconstrução não acontece da noite pro dia. Por isso, imploro que o termo “gordice” pare de ser usado, mesmo que a ideia o do porquê possa não ser clara pra quem o usa. É difícil compreender o outro, ainda mais quando não é o nosso espaço de fala. Mas é dito o que se fazer, mesmo que não se tenha essa compreensão nítida. 

 

Quando alguém falar que engordou, não negue, diga: “e qual o problema se tiver engordado?!”. O valor de uma pessoa é muito além do peso dela.

 

Por isso, e agora principalmente para as mulheres (que são as que mais sofrem de gordofobia e pressão estética), nós estamos autorizadas a comer qualquer coisa sempre. Mesmo se comemos muito ontem, mesmo se não praticamos atividade física, mesmo se não nos sentirmos “merecedoras”, nós temos permissão pra comer. Qualquer coisa, sempre.

 

Pra fechar, é uma frase já batida, mas válida: coma e faça atividades físicas porque você ama o seu corpo, não porque o odeia.

 

 

P.S:

Gordofobia:  é patologização, é preconceito, é definir a pessoa só pelo peso, é falta de acessibilidade. A palavra “gorda” já está carregada de aspectos negativos e virou até um xingamento.

Pressão Estética: é a cobrança para se encaixar em um padrão, atinge principalmente as mulheres. Mas, mesmo além do sofrimento que as mulheres magras têm, elas ainda possuem privilégios, diferentes das pessoas gordas.
 


Luíza Tavares é jornalista, estudante de nutrição, voluntária do Slow Food, ama cozinhar – da forma mais natural possível - e acredita que a comida deve ser sinônimo de liberdade.

 

 

 

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