2018 por BOCA Jornalismo.

Nos cinco anos da tragédia da Boate Kis, entrevistamos Luciane Treulieb, diretora de "Depois Daquele Dia"

 Cartaz de divulgação do documentário "Depois Daquele Dia". Imagem: Divulgação//TV OVO

 

 

Luciane Treulieb é jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Maria, mesmo lugar onde trabalha, como servidora pública.  Lá, ela é editora-chefe da Arco, revista de jornalismo científico e cultural da instituição. Em 2013, após retornar para Santa Maria tendo cursado as cadeiras do mestrado em periodismo documental na Universidad Nacional de Tres de Febrero, em Buenos Aires, Luciane se somou ao grupo de pessoas diretamente atingidas pela tragédia da Boate Kiss: seu irmão, João Aloísio Treulieb, foi uma das 242 vítimas.

 

A soma de sua experiência pessoal com o tino e a capacitação para a produção documental gerou o filme Depois Daquele Dia, dirigido por ela e realizado pela TV OVO. O documentário teve a sua pré-estreia no dia 26 de janeiro – um dia antes do aniversário de cinco anos da tragédia – em uma exibição pública na praça Saldanha Marinho.

 

Na mesma Universidade onde Luciane estudou e hoje trabalha, em um movimentado refeitório, o nosso repórter Mateus de Albuquerque conversour com ela sobre o documentário, a tragédia e os desafios de ser personagem da própria história.

 

Mateus de Albuquerque (BOCA Jornalismo): Aquela pergunta clichê de toda a entrevista: como foi que surgiu a ideia, como começou o projeto?

Luciane Treulieb: Eu voltei de Buenos Aires em agosto de 2012 e lá eu estava fazendo um mestrado e faltava o trabalho final, que era a produção de um documentário e a produção de uma memória crítica a partir do documentário. Quando eu voltei, eu tinha um projeto em desenvolvimento...

 

MA: Qual era o tema?

LT: Era sobre o polo argentino... Me chamava muita atenção a aristocracia argentina, o esporte de milionários... Quando eu voltei achei que ia terminar, segui trabalhando.  Aí veio a tragédia, que foi em janeiro. Um ano depois eu larguei o documentário e passei a não trabalhar mais na questão do mestrado, sempre pensando que queria ajudar na questão da tragédia, me voluntariar, não sabia o quê. Foi uma construção, em determinado momento pensei: “posso fazer um documentário sobre isso”. Isso foi em 2014. Fiquei um ano matutando sobre isso, como falar obre isso, eu não queria falar sobre o dia em si, não queria ficar matutando sobre os momentos específicos.

 

Mas como eu era daqui, me dei conta das transformações que a Kiss trouxe pra cidade. Exemplo: a gurizada universitária falando que tava difícil ir em festa, que não queriam mais ficar aglomerados.  A palavra alvará passou a fazer parte do vocabulário de Santa Maria, PPCI, palavras específicas que passaram a ser incorporadas no vocabulário santa-mariense, isso tava me chamando muita atenção, essa mudança que a Kiss ocasionou. Então eu resolvi me focar nos aprendizados que a tragédia trouxe. Ai conversei com o pessoal da TV OVO, que já realiza todos esse trabalho de resgate da memória da cidade, e começamos a produzir.

 

MA: Como realizadora do documentário, como diretora, em algum momento tu sentiu, nas etapas produtivas, uma espécie de moralização, algo como “o que você quer mexendo com a dor dos outros?”, um discurso presente em quase tudo o que se produziu sobre a Kiss?

LT: Eu não sei se é porque sabiam que eu era irmã de vítima, mas não teve nada parecido com isso. Quando saiu o trailer eu esperava algo desse tipo, porque quando houve a divulgação do livro da Daniela (Arbex, autora do livro “Todo O Dia A Mesma Noite – A História Não Contada Da Boate Kiss”, lançado esse ano) alguns comentários eram bem nesse sentido, de falar que ela estava ganhando dinheiro em cima da tragédia, então eu temi bastante. Mas, por incrível que pareça, não, não aconteceu nada nesse sentido até agora. 

 

MA: Um documentário é uma mistura muito forte de trabalho artístico com trabalho jornalístico. Como foi somar certa objetividade jornalística com uma subjetividade artística, ainda mais em um tema que te afeta diretamente?

LT: O documentário permite isso. A realização de documentários em primeira pessoa é algo que já existe há bastante tempo, tem ficado mais intenso nessa última década. Eu tive um cuidado jornalístico grande de apuração, de entrevista, e a questão de me introduzir como pessoa vem agregar. Eu não acho que sejam coisas dissonantes. No início eu não queria fazer em primeira pessoa, mas buscamos outras formas e, no fim, nos demos conta de que não podíamos ignorar essa minha proximidade com o tema na construção da narrativa. Apesar de ser contra a minha personalidade - não sou de ficar me expondo - eu achava necessário. Acho que todas as narrativas que foram feitas são válidas e é muito importante o olhar de fora, só que sobrou esse espaço pra contar desde dentro, acho que eu aproveitei esse sentido dessa história ser importante por isso, da memória, do testemunho.

 

MA: Você já entrou nisso em outras respostas, mas como você descreveria a Santa Maria depois da Kiss?

LT: Eu acho que ela está aprendendo ainda a lidar com o que aconteceu. Eu posso falar um pouco assim a partir da visão dos entrevistados, porque a minha visão é muito construída agora a partir do que eu ouvi nas entrevistas. Cada um elaborou o que aconteceu de uma forma diferente. Os parentes de vítima têm as suas visões e opções. Tem as famílias que preferiram ficar mais reclusas, tem as famílias que escolheram a luta por justiça. Tem as pessoas que não são familiares, mas também participam da luta. Eu acho que é muito difícil essa coisa de falar pela cidade, tem gente que não consegue e não sabe como abordar o assunto, que tem dificuldade de reagir quando se vê perante um familiar de vítima, perante um sobrevivente. Um sociólogo que fala no documentário, o Guilherme (Howes, professor e pesquisador na Unipampa) disse: “Santa Maria teve quase uma vítima pra cada mil habitantes”, então o impacto atingiu todo mundo de alguma forma, talvez no cotidiano, alguns menos, alguns mais.

 

É um processo que eu acho que vai demorar muitos anos, não se vai esquecer, ficaram registros. Uma coisa que o Volnei (Dassoler, psicólogo que participou do acolhimento aos familiares e sobreviventes da tragédia) fala no documentário é sobre as diferentes formas que os sobreviventes e familiares tiveram de seguir... Os sobreviventes precisam esquecer pra seguir adiante, no inverno eles têm crises respiratórias, ficaram marcas pelo corpo. Já os familiares, por outro lado, não querem esquecer, então acabam sendo duas formas de lidar. Foi conversando com as pessoas que eu percebi que tinham essas duas formas de enxergar o mesmo acontecimento, cada um do seu jeito, é diferente. Não sei se eu respondi tua pergunta.

 

MA: Respondeu sim, com certeza. Eu me lembro que logo após a tragédia se falava muito em se fazer um memorial até o fim do ano. Cinco anos depois, o prédio da boate ainda está de pé, o que é simbólico. Muitos fatos políticos marcaram a questão da Kiss ao longo desses cinco anos: o prefeito tornou-se secretário de segurança, os pais das vítimas foram processados pelo Ministério Público... Como a gente encaixa a Kiss nesse cenário político de Santa Maria?

LT: Eu não me sinto capaz de responder, sabe? Meu filme aborda a cidade pelo lado humano, não pelo lado político. Eu acho que a gente acaba entrando em outros enfoques, muito complexos, que eu prefiro não entrar.

 

MA: Claro, entendo perfeitamente. Entrando então nesse lado humano, como os diversos acontecimentos, os desenrolares afetaram as personagens do teu documentário ao longo desses cinco anos?

LT: O documentário foi gravado em 2016, a maioria das entrevistas, pouca coisa foi feita ano passado. O familiar que eu tive mais contato – fora a minha própria família, obviamente - foi o Sérgio (Silva, presidente da “Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria”, a AVTSM), que naquele momento já estava sendo processado. Então foi difícil demais. Eu não posso fazer uma avaliação, mas, pelo que eu conversei com ele na entrevista, é uma sensação de indignação por haver uma inversão de culpa, eles estarem sendo julgados por pedirem justiça, por pedirem respostas. Não posso falar dos cinco anos porque o documentário fala do Sérgio naquele momento em específico, foi o que eu captei dele.

 

 

 Trailer do documentário "Depois Daquele Dia"

 

 

MA: Vou te fazer mais uma pergunta clichê, qual foi o momento mais marcante da produção?

LT: Pois é, a Neli (Mombelli, Coordenadora Geral da TV OVO) me perguntou ontem se eu tinha uma parte preferida do documentário, mas eu não tenho, foi uma construção. Parece redundante, mas foi muito difícil de fazer, nos gravamos as entrevistas de maio a setembro de 2016, com exceção de uma, que fizemos ano passado. Todas as entrevistas tiveram a sua importância e o seu impacto. Talvez, o mais difícil pra mim tenha sido essa questão de ter que me colocar, a gente demorou tanto pra produzir por que eu tinha que respeitar os meus tempos e a Neli e o Marcos (Borba, Coordenador de Produção e Comunicação da TV OVO) foram muito carinhosos e respeitosos nesse sentido, porque a narração é minha, eu construí ela a partir de material jornalístico, mas é a minha visão, tem partes muito pessoais, foi difícil. Eu consegui fechar isso só em outubro do ano passado. Foi o mais difícil pra finalizar, eu já tinha todos os quadros, entrevistas, mas sem a narração não ia dar pra fechar. É um documentário em primeira pessoa, eu tinha que aparecer, eu não gosto de aparecer. Eu sabia da importância, mas ao mesmo tempo eu não gostava, então dizia: “Eu que inventei de fazer isso, então vou ter que encarar” (risos). Então eu ficava nessa disputa mental o tempo todo.

 

Foi bem ruim de fazer isso sabe? Porque essa exposição que eu estou tendo de me submeter, principalmente nesses últimos dias... Mas faz parte do processo, é pela causa da memória. A gente ficou muito feliz com o resultado, acho que o filme ficou bonito. Acho que vamos ter uma visão maior do impacto depois da pré-estreia, mas já enviei esse corte pra algumas pessoas próximas a mim, envolvidas com cinema, e os feedbacks foram bem bons. 

 

MA: Um dos maiores desafios de se fazer um documentário é que os personagens são reais, existem. No seu, existe o desafio ainda maior de ser um personagem do próprio documentário. Como foi isso?

LT: Eu acho que é um pouco o que eu falei na outra resposta, pra mim não foi fácil, talvez seja fácil para um Michel Moore da vida (risos). Mas claro, ele não fala sobre si mesmo, fala sobre questões externas. É um formato, um estilo de documentário que permite contar essa história através desse viés. Dentro do documentário em primeira pessoa existem vários estilos. Não foi um processo fácil, mas, ao mesmo tempo, foi uma escolha minha. Eu via como muito importante pra cidade, sabe? Porque tem muita identificação. Uma coisa é o outro, o externo contar uma história parecida com a tua, outra coisa é quem viveu aquilo contar essa história. Isso é importante pra Santa Maria.

 

MA: Então, tem também uma certa relevância demarcatória ser você a pessoa quem conta?

LT: Eu acho. Por exemplo, uma amiga minha que já assistiu ao filme, uma dessas pessoas que estão me mandando feedbacks, foi a uma daquelas cidades do Rio de Janeiro onde houveram deslizamentos de terra, daí ela me contou que chegou lá, um lugar com também muitas mortes e impacto, e as pessoas falavam o tempo todo sobre isso. Aí ela disse que lembrou do documentário porque a pessoas remetem Santa Maria à tragédia. Você fala que é de Santa Maria e as pessoas começam a contar como foi aquele dia. Tem uma relação pessoal. E tem um pouco disso, que eu fui me dando conta aos poucos, que, pra contar essa história dentro desse formato, provavelmente eu era uma das poucas pessoas conhecimento audiovisual pra isso. Uma pessoa com conhecimento audiovisual poderia contar essa história, mas sem ter vivido. Como eu aliava o conhecimento técnico e a vivência, isso me ajudou a tomar a decisão de fazer o documentário e fazer desse jeito.

 

MA: Pra fechar, o que vai ser feito com o filme depois da pré-estreia?

LT: A gente quer que muitas pessoas assistam. Não é um documentário pra ficar guardado na gaveta. A gente vai fechar e tentar disponibilizar para canais de TV e serviços on demand. Nosso objetivo é atingir várias pessoas. Tem muita gente de fora que quer assistir e não está na cidade, então a gente quer ver formas de chegar nessas pessoas. Mostras, premiações e festivais estão no nosso radar, mas não é o principal. O principal é chegar nas pessoas.

 

 Santa Maria lota a Praça Saldanha Marinho para assistir à pré-estreia. Foto: Luciane Treulieb///Divulgação

 

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