2018 por BOCA Jornalismo.

Ninguém quer falar do que não gosta

31/1/2018

Eu tô um pouco atrasado no assunto. Essa discussão estava em alta no ano passado, mas todo mundo deixou de falar. Em todo caso, vamos lá.

 

Têm tempos que as pessoas comentam que “poxa, toda resenha que eu vejo por aí é positiva, todo mundo adora tudo, como pode isso?”. Calma lá que não é bem assim.

 

Primeiro que existem resenhas negativas, sim. São em menor número, mas existem. E as razões para serem em menor número são várias. Primeiro que ninguém quer perder tempo falando do que não gosta. Pois não é só o tempo de escrever. É o tempo de ouvir, fazer uma análise mínima para que a opinião não se resuma a “não curti” e então, apenas então, escrever. No geral, os processos de publicação ainda envolvem uma revisão por terceiros, a programação da postagem em uma grade de publicações e por aí vai.

 

Segundo que falar mal de algo é se incomodar. Pensa assim: tu fala mal de algo relativamente popular, o veículo publica no Facebook e pronto, lá vão os fãs xingar quem escreveu, xingar quem publicou e agora aguenta as avaliações negativas e as carinhas brabas aí no teu Face. Qual o problema disso? Fora uma possibilidade de se irritar com infantilidade por parte dos fãs em si, tem um outro fator bem importante: é que aí vai chegar a chefia com uma represália pra ti, pois as pessoas se irritaram, passando uma má imagem da empresa e etcétera. Muito difícil que alguém vá ser demitido por isso - ainda que aconteça, como foi o caso daquela crítica ao filme do Danilo Gentili na Folha - mas ficar levando xingão de chefe porque as pessoas não gostaram que tu falou mal do artista preferido deles é foda, né. Não vale a incomodação.

 

Isso, é claro, quando não rola de os criticados irem eles mesmos reclamar. Como o Cícero fez, rasgando um jornal que tinha uma crítica negativa ao segundo disco dele, Sábado (que é ruim mesmo), em pleno show.

 

 

 

Ou, para um exemplo mais local, a resenha do Miojo Indie pro disco Nasceu, da santa-mariense Rinoceronte. Leiam os comentários. Ok, a resenha pegou meio pesado, mas daí pra se prestar a reclamar na caixa de comentários já é demais.

 

A solução mais fácil é simplesmente: se não gostou então não fala nada. O que, de qualquer forma, é uma faca de dois gumes. Pois às vezes tu gostou, mas não conseguiu encaixar dentro de tudo que tu queria falar e deixou de lado. A exemplo, eu gostei bastante do disco da Vespertinos lançado ano passado, o Dago, mas não coloquei na minha lista de discos do ano porque ele apenas não me foi tão marcante quanto os outros. Eu gostei, mas gostei mais dos outros. Assim como gostei de tantos outros que não coloquei em lugar nenhum.

 

O jornalismo cultural é, essencialmente, uma curadoria do que vale ou não a pena ser consumido. Sim, a linha entre fazer isso direito e ser um babaca mega pretensioso é tênue, com certeza. Mas é, ou deveria ser, apenas uma ferramenta para que o leitor sinta-se munido de informações para poder decidir melhor o que fazer com o seu limitado tempo livre. Isso no mundo ideal, é claro, pois a metodologia mais adotada atualmente é justamente do “não gostou, não fala” que deixa muita coisa ruim passar batida como aceitável.

 

Mas acontece que, no fim das contas, o cara que escreve aquilo é também um trabalhador, e um trabalhador de um mercado bastante precarizado, que tem que produzir conteúdo novo sem parar pra atender as demandas da internet. Ele não vai parar escutar e falar de uma parada que ele não gostou sabendo que só vai se incomodar, correndo o risco de ser demitido, no pior dos casos. Até porque tem coisa nova sendo lançada sempre. Alguma delas vai agradar o jornalista que prefere dar exposição para quem ele gosta do que pra quem ele não gosta. Afinal, como muita gente diz: não existe propaganda ruim.

 

Gustavo Martinez é jornalista, membro fundador do BOCA e faz de tudo relacionado à música, exceto música.

 

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