2018 por BOCA Jornalismo.

Eu sei com quem eu estou falando?

14/2/2018

Para um texto sobre a relação entre o pedantismo acadêmico e a pretensa santidade da ‘Realidade’, não poderia haver um tema mais contraditório do que o cinema escandinavo, mas, pasmem, é bem aí que eu vou começar. Já neste ano, houve dois momentos de um filme e de uma série de tevê escandinavos que servem de gancho perfeito para aquilo sobre que venho pensando há uns dois anos: como um acadêmico em construção, será que eu sei com que estou falando? O que é dizer: será que alguém me está entendendo quando eu falo sobre o meu trabalho?

 

Há algumas semanas, assisti à mais recente temporada de Rita, uma série original da Netflix dinamarquesa sobre a homônima professora, cujos métodos de ensino são distantes do estereótipo Scandi chic (a moda de coisas ‘chiques’ da Escandinávia). Num dos episódios, Rita chama os pais de dois alunos de uns 10 anos. Um deles, filho de um pai solteiro e desempregado, que já mudou de escola várias vezes, vinha agredindo a um colega, filho de dois professores da mesma escola, um casal socialmente consciente e preocupado com os problemas do mundo a ponto de não permitir que o filho coma espaguete industrializado. Chegada a reunião, o pai do bully pede desculpas pelo comportamento do filho e diz que irá conversar com ele para que nada daquilo voltasse a se repetir. Não contentes, os pais da vítima começam eles mesmos a se desculpar: primeiro, falando que a sociedade desigual em que vivemos o havia levado a se comportar agressivamente e, por fim, dizem que quem lhes devia desculpas, na verdade, eram eles e o filho, pois, dada a sua situação socioeconômica, eram eles que agrediam o pai desempregado e solteiro e o filho bully e ‘lerdinho’ diariamente. A cena termina com o ‘pai desempregado’ dando um soco no ‘pai desconstruidão’. Quem não ama ser chamado de oprimido, né, gente?

 

O segundo episódio foi com o filme The Square (em português, O Quadrado), do diretor sueco Ruben Östlund que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes do ano passado e que está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018. O filme gira em torno de uma galeria de arte contemporânea em Estocolmo e, mais especificamente, em torno dos dilemas éticos que o personagem principal, o curador do museu, tem que enfrentar quando se depara com as consequências de algumas atitudes suas, as quais, em última análise, contradizem muito do discurso público que ele mantém, de um artista socialmente engajado e inconformado com os padrões: [spoiler!] basicamente, ele acusa todos os moradores de um prédio no subúrbio da capital sueca de lhe terem roubado o celular e a carteira numa tentativa desesperada de recuperar seus pertences e, mais tarde, se surpreende quando um dos moradores reage contra a infundada acusação.

 

O que esses dois episódios têm em comum é o conflito entre as ditas camadas intelectuais e populares da sociedade: de um lado, os artistas, professores, acadêmicos que se apercebem das mazelas do mundo ao mesmo tempo em que não precisam viver com as consequências diretas delas e, do outro, as pessoas com pouco dinheiro e sem muita educação formal, que vivem diariamente com a desigualdade e as opressões do mundo mas que não necessariamente ‘dão nomes aos bois’, por assim dizer. Em outras palavras, estamos falando da eterna tensão entre as ‘classes alta e baixa’, a elite versus ‘o povão’.

Eu sou um acadêmico. Faço doutorado e pesquiso o cotidiano das cidades-gêmeas do Chuí e Chuy, entre o Brasil e o Uruguai. Apesar de ser somente a quarta pessoa, de ambos os lados da minha família combinados, a estudar numa universidade, fica bem claro que a minha posição não é exatamente a mais ‘popular’. Pelo contrário, eu sei que usufruo de muitos privilégios. No entanto, eu decidi fazer a minha pesquisa ‘fora do gabinete’, fui a campo, a conversar com as pessoas e a lhes perguntar sobre as suas vidas. Desse cruzamento, já era visto que lá vinha problema: o intelectual distante que usa a vida e as experiências alheias para fazer seu trabalho, só que esse trabalho não é um que necessariamente dialogue com essas mesmas pessoas.

 

 

Cena da série Rita. (Imagem: Divulgação / Netflix Dinamarca)

 

Quando eu estava no Chuí, mesmo que eu soubesse dos perigos de eu desenvolver uma certa síndrome de profeta, que iluminaria a consciência das pessoas que vivem na fronteira sobre a vida na fronteira, um fracasso, já de início, me deu um importante choque de realidade. Eu quis fazer reuniões públicas, onde os moradores da região me contariam das suas vidas na fronteira. Eu tinha questionários, perguntas, cartazes, longas explicações que envolviam expressões como ‘ontologia nacionalizante’ e ‘sujeito normativo de fronteira’. Até na rádio de lá eu fui para convidar as pessoas para participarem das reuniões. Só que eu não calculei que as pessoas trabalham longos turnos, até tarde da noite muitas vezes e que, no final das contas, elas simplesmente não têm energia ou sequer intenção de participar de algo cujo sentido e impacto lhes é, no máximo, uma excentricidade de alguém que elas nunca viram na vida.

 

A partir daquele momento, eu tinha duas opções: ou eu assumia a posição do acadêmico vitimado pela ignorância da ‘população leiga’ ou eu aceitava que o campo não muda de acordo com os meus desejos. Afinal, eu não queria estudar a vida na fronteira? Então toma vida na fronteira, ué.

 

Até hoje, eu não sei bem se há muito que eu possa falar sobre a vida daquelas pessoas, mesmo munido de centenas de questionários e horas de entrevista. Meu receio não tem sido, no entanto, em não ser capaz de elaborar conclusões a partir do que me foi dito. Tão ingênuo quanto acreditar que as pessoas não estejam minimamente cientes das peculiaridades da sua própria vida ou que não sejam capazes de refletir sobre ela é a ideia de que os intelectuais da Torre de Marfim da Academia Ltda. não estejam autorizados a dizer nada porque eles desconhecem a tal ‘Realidade’, assim singular e monolítica.

 

O meu trabalho, assim como o trabalho da maioria avassaladora desses acadêmicos-intelectuais, é importante e pode ser muito útil para entendermos como funciona, no meu caso, a ambivalência das linhas divisórias. Por outro lado, existe um limite daquilo que eu posso dizer sobre a vida de quem mora na fronteira visto que, por mais que eu tenha lido e estudado sobre o assunto, ainda assim, eu passei muito pouco tempo lá e, portanto, fazer qualquer generalização teórico-mirabolante seria, no mínimo, apressado e, no máximo, arrogante da minha parte. Porém, segundo as pistas que já dei até aqui, o fato de que alguém vive uma determinada realidade não significa que essa pessoa já tenha se dado ‘o luxo’ de tentar entender suas razões e seu contexto.

 

Explico. Na fronteira, por exemplo, quando eu perguntava a alguém como era a vida lá, as pessoas me respondiam que era ‘normal’ e eu ficava completamente perdido porque não concebia como poderia ser normal uma vida que, de fato, se passa entre dois países ao mesmo tempo. Mas, como eu apontei nas minhas anotações na época, é claro que quem vive algo no seu cotidiano vai me dizer que algo ‘é normal’ ou que se tornou normal: ninguém vive a sua vida cotidiana refletindo sobre o que faz dela sua vida cotidiana. Seria paradoxal viver uma vida a refletir sobre ela. E aí que está a potência de qualquer trabalho: comunicar.

 

Comunicar significa, em primeira instância, pôr em comum. Quando eu comunico, eu crio uma conexão, uma ponte entre planos que, até então, não dialogavam. Tecnicamente, é a isso que se devota a pesquisa: trazer à tona fragmentos da realidade que nos passam despercebidos. Pode ser que, daí, venha a solução para algum problema, um novo produto, uma nova lei, o início de uma mudança na forma como a sociedade trata de um assunto ou pode ser que o resultado seja praticamente intangível e só gere mais dúvidas.

 

Muito bem, tecnicamente. Na realidade, o que acontece é que as universidades — os centros de pesquisa por excelência — se tornaram uma grande máquina onde, se por um lado, há cada vez menos recursos e mais cobranças, por outro, não parece haver uma ‘cultura comunicativa’: em geral, nós não nos preocupamos com as maneiras de apresentar nossos trabalhos e com a manutenção de canais pelos quais nossos trabalhos possam ser consumidos e debatidos, de uma forma construtiva, pelo maior número de pessoas possível. A preocupação com a tal ‘divulgação científica’ se finda com uma obrigação asfixiante em se publicarem artigos em cima de artigos que falam sobre assuntos que tanto interessam a quanto serão lidos por meia dúzia de pessoas, com eventos em que essas mesmas pessoas falam as mesmas coisas umas para as outras ou apresentam artigos que já estão prontos — o que, já de início, encerra qualquer possibilidade de debate — e com os subsequentes índices de produção que podem fazer ou acabar com uma carreira.

 

É claro que os meus exemplos são meio apocalípticos, mas não entendam vocês que, com isso, esteja dizendo que nada presta na Academia. Pelo contrário, eu estou dizendo que há muita coisa boa sendo feita na Academia, coisas que nem passam pela nossa cabeça. Semana passada, por exemplo, conversei com uma engenheira de alimentos que está tentando desenvolver meios de se medir as sensações do chá, o que pode auxiliar no desenvolvimento de bebidas com menos aditivos químicos sem perda no gosto a que os consumidores já estão acostumados. Uma amiga, teórica crítica, está pesquisando a eficácia de campanhas e movimentos políticos nas redes sociais e a sua influência nas eleições no Reino Unido. A lista é virtualmente infinita e nos faz imaginar como há trabalhos interessantes sendo desenvolvidos, mas que chegam aos ouvidos de pouquíssima gente.

 

A razão, penso eu, é que nós temos um problema de comunicação. A Academia com a qual eu convivo há uma década parece oscilar entre dois extremos: ou trata ‘o resto do mundo’ como um bando de idiotas que jamais poderiam de fato entender a profundidade de uma foto aleatória diária seguida de uma citação de Deleuze no Instagram ou os toma por ‘povão de estimação’, uma grande massa iminentemente revolucionária, amplamente citada como a fonte de inspiração poética para muitos panfletos e manifestos. Ninguém é burro demais para entender o que outra pessoa pesquisa da mesma forma que ninguém é tão unidimensional a ponto de ser sagrado. Assim, fica a pergunta: como é que nós podemos melhorar essa comunicação?

 

E a resposta que eu desenvolvi com anos de experiência na Academia é: N-Ã-O S-E-I. Realmente, não sei. A única meia-certeza que eu tenho é que nós deveríamos superar essa dicotomia Academia versus ‘Realidade’, aquele clichezão de que, ‘na prática, a teoria é outra’. Não é porque alguém estuda tal coisa que ela saiba tudo, que ela não possa aprender nada novo. Tampouco é porque alguém vive algo que ela tenha elaborado alguma ‘teorização’ sobre a sua vida. Em outras palavras, nenhum dos dois extremos está única e exclusivamente autorizado a falar sobre o quer que seja. Da posição de alguém que, até então, se imagina trabalhando numa universidade pelo resto da vida, a minha grande pergunta, portanto, é: será que eu sei para quem eu estou falando? Será que eu sei como falar com pessoas que não estejam submersas no meu próprio trabalho? Será que eu estou compartilhando minhas dúvidas e minhas conclusões com gente além dos poucos que já conhecem aquilo que eu faço? Enfim, é melhor eu descobrir umas respostas para essas perguntas porque eu não quero que ninguém me dê um soco na cara.

Gianlluca Simi (interino) é jornalista, professor e pesquisador. Faz doutorado em Teoria Crítica e Estudos Culturais e estuda o cotidiano de regiões de fronteira. Nos últimos anos, vem se questionando sobre o papel da Academia numa era em que virou cool ser anti-intelectual.

 

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