2018 por BOCA Jornalismo.

A Cultura da Dieta

20/2/2018

A cultura da dieta é uma imposição social e midiática (que envolve a indústria alimentícia, da estética, da moda...) para que se esteja sempre reflexivo e vigilante sobre a comida, ou seja, sobre todas as escolhas alimentares, não exclusivamente para perda de peso – embora seja esse o aspecto mais conhecido e que mais afeta as mulheres (novidade, né?!).

 

Quando a cultura da dieta se relaciona com a perda de peso - ou qualquer pressão estética, como ganho/definição muscular, pele lisa, etc -, além de gerar uma obsessão sobre o que se vai comer para que o objetivo estético seja atingido, também há a obsessão com o corpo físico: são pesagens, medições e fotografias comparativas quase que diárias. De forma que a balança se torna um medidor de sucesso e de felicidade. Você já deve ter lido por aí: “tá feliz? Mas já se pesou hoje?”. E, com isso, a cultura da dieta transforma a restrição em sucesso, com a ilusão do auto-controle.

 

A questão da cultura da dieta já é uma questão de saúde pública porque, já que a saúde está sempre atrelada ao corpo magro, é como se as pessoas magras, em geral, tivessem um “passe-livre” para não serem saudáveis e que a doença é uma característica de pessoas gordas. E adivinhem só?! Qualquer corpo pode estar doente – e saudável também! Mesmo com sobrepeso e obesidade.

 

 A cultura da dieta é facilmente observável nas capas de revistas. (Imagem: Arquivo Pessoal)

 

Outra consequência da cultura da dieta é fazer com que a comida passe a ser odiada, cada refeição passa a ser uma tortura, o que leva a distúrbios alimentares como anorexia, bulimia e ortorexia (a obsessão por comer corretamente e seguir uma dieta específica à risca). Ah, não existe só uma aparência específica de corpo para se ter distúrbios, é possível ter um corpo “aparentemente saudável” e ainda sim ter anorexia, por exemplo.

 

Outro ponto é a questão de “que cada um seja feliz da forma que achar melhor”, mas não é exatamente por aí. A cultura da dieta cria a ideia de que é possível ter um total controle sobre o corpo, o que é biologicamente impossível – se é necessário passar fome, pesar alimentos constantemente, não participar de eventos, festas e comemorações, para se ter um determinado corpo físico, suspeito que não seja o corpo que, naturalmente, se deva ter.

 

No fim das contas, a cultura da dieta não tem nada a ver com saúde. Faz parte de uma indústria que vende um corpo magro, mascarado de saudável, e só entrega tristeza e obsessão.

 

Atenção!

 

Existem dietas específicas para pessoas com determinadas condições de saúde (intolerantes, alérgicas, entre outros) e que não tem nada a ver com a busca por um corpo magro.

 

Esse texto também não é sobre escolhas alimentares políticas ou sociais, como veganismo, vegetarianismo, crudivorismo, etc. - embora esse ponto também possa fazer parte do contexto da cultura da dieta e por poder se tornar um gatilho para ansiedade em diversas pessoas, dentro do contexto da pressão em fazer determinadas escolhas alimentares.

 

Luíza Tavares é jornalista, estudante de nutrição, voluntária do Slow Food, ama cozinhar – da forma mais natural possível - e acredita que a comida deve ser sinônimo de liberdade.

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