2018 por BOCA Jornalismo.

O apito do trem - A trajetória da Estação Férrea em Santa Maria

29/3/2018

Hoje, ir de Santa Maria a Porto Alegre pelas rodovias leva cerca de 4 horas. Mas no século XIX, antes da criação das linhas ferroviárias, chegar à capital demorava, em média, 17 dias. Nas últimas décadas do século XIX, as ferrovias instaladas permitiram que a viagem acontecesse em apenas 13 horas. Assim, a pequena cidade da região central do estado alavancou devido à instalação da Estação Ferroviária.

 

  

 

POR QUE SANTA MARIA

 

No Rio Grande do Sul do século XIX, haviam dois pontos de relevância ligados ao deslocamento de cargas: a Barra do Rio Grande e o Porto de Porto Alegre. Mas não existia um transporte que levasse as mercadorias em direção ao interior do continente. Assim, foi pensada a construção de um sistema ferroviário no sul do Brasil que tivesse como objetivos principais ligar o Rio Grande do Sul a São Paulo e atravessar o estado para chegar à cidade de Uruguaiana, fronteira com Uruguai e Argentina.

 

Era necessária a criação de um ponto intermediário para impedir que a viagem se tornasse muito longa e cansativa. Santa Maria era o local ideal para essa parada, afinal, não estava nem muito longe, nem muito perto da fronteira. Nessa época, “Santa Maria não tinha nada, era uma vila ligada à [cidade de] Cachoeira do Sul”, como afirma o historiador João Rodolfo Amaral. Tornou-se um ponto estratégico em que a Guarda Nacional dava apoio às tropas que lutavam no Uruguai e na Argentina nas Guerras Platinas. Com eles, chegaram imigrantes que viam em Santa Maria um local para vender seus produtos, abrir um armazém, uma ferraria ou, até mesmo, prestar serviços.

 

Oficialmente, a Estação Férrea de Santa Maria passou a operar a partir de 1885, quando a ferrovia chegou na cidade. Essa foi a primeira linha a ser expandida na direção do interior do Rio Grande do Sul. Santa Maria tornou-se um ponto central e possuía ramais para diversas direções.

 

A CIDADE CRESCEU

 

Depois da instalação da Estação Férrea, Santa Maria viu sua população ser alavancada. O aumento da quantidade de construções demonstra esse crescimento urbano: em 1893, havia 496 prédios e, em 1912, esse número chegou a 2.409. Além disso, de 1920 à 1950, a população cresceu 361%.

 

A ferrovia era o meio de transporte mais moderno da época e, por isso, foi muito utilizado por quem precisava viajar por terra. Só na estação de Santa Maria, em média, 2 mil pessoas transitavam por dia na Gare. Mesmo que a parada fosse temporária, em alguns momentos os trens atrasavam ou os passageiros precisavam esperar até o próximo dia para seguir viagem. Foi a partir da necessidade de atender a essa população que se desenvolveram as redes de hotelaria, bares, restaurantes e armazéns na Av. Rio Branco em direção ao centro.

 

Além dessas redes, houve na região norte da cidade a expansão da ocupação ferroviária, que deu origem aos atuais bairros Itararé, Chácara das Flores, Perpétuo Socorro, Salgado Filho e Carolina. Além das casas, ali se desenvolveram armazéns, comércio e as indústrias metalúrgica, coureiro-calçadista, de bebidas. Foi na rua Marechal Deodoro, que se produziu um famoso refrigerante servido nos restaurantes do trem. A Fábrica Cyrilla de Bebidas, criada em 1910, ficou famosa não apenas em Santa Maria, mas em todo o estado. “Cyrilla é coisa nossa!” dizia seu slogan.

 

A federalização das companhias férreas estaduais foi o primeiro passo para o declínio da Estação Férrea de Santa Maria. O governo federal deixou de investir nas oficinas e na modernização desses equipamentos e restringiu as ferrovias. Ao contrário do que aconteceu na América do Norte e na Europa, em que as ferrovias foram expandidas.

 

Em 1964, acontece a intervenção militar na Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Isso significou o corte de salários dos ferroviários e a ausência de investimentos nas ferrovias, além de impossibilitar a prestação de serviços feita pela Cooperativa de Empregados da Estação Férrea do Rio Grande do Sul para os trabalhadores. Dessa forma, o número de ferroviários começa a diminuir e o sistema ferroviário começa a perder força. Quando isso acontece, os investimentos são voltados para a modernização das rodovias.

 

A ação que marca o encerramento das atividades de transporte de passageiros nos trens é a privatização da malha ferroviária, que aconteceu nos anos 1990. Hoje, poucas linhas de passageiros estão ativas no Brasil, a maioria pertence a empresas privadas e funciona carregando cargas. Algumas viagens curtas acontecem apenas como atividade turística.

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Este texto é a segunda parte da "Reportagem BOCA Março: A Ferrovia em Santa Maria". Você pode conferir a primeira parte aqui e a terceira, aqui.

 

 

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