2018 por BOCA Jornalismo.

A invenção da saúde e da alimentação saudável

19/4/2018

Até um sorvete considerado não saudável pode fazer bem, em determinadas situações. O alimento é bem mais que a sua composição nutricional. Foto: Bruna Marchioro


A relação da saúde e da alimentação nunca vai ser estável e absoluta: é notável a inconstância das pesquisas midiatizadas que vangloriam alguns alimentos e demonizam outros, mas não é exatamente por isso que a alimentação saudável nunca vai ter uma conclusão, mas porque o próprio conceito de saúde é variável – e as pessoas também.

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades". Ainda que seja extremamente importante contextualizar a saúde com o ambiente e com questões sociais, é preciso lembrar que a tristeza ou sentimentos ruins considerados como não saudáveis, também fazem parte de sentimentos corriqueiros e que fazem parte do funcionamento natural – e normal – do ser humano (claro, quando não desenvolvidos de forma crônica e constante).

 

A alimentação, na construção da saúde, não é simplesmente um cardápio fixo de substituições calóricas que serão sempre equivalentes mesmo para o mesmo indivíduo. Por exemplo, a Bela Gil, cozinheira e apresentadora de um programa de culinária com o foco em alimentação natural e saudável, fez uma declaração contando que, em um dia frio de inverno, estava com um princípio de resfriado, chegou em casa e preparou um caldo de legumes. No outro dia, já se sentia melhor. E que, nesse caso, se tivesse chegado em casa, à noite, e comido uma salada de frutas gelada, provavelmente não teria acordado melhor. Ou seja, é preciso considerar as características e composição da comida, a individualidade do consumidor, o horário da alimentação e não só uma lista de alimentos proibidos ou autorizados. De forma que, mesmo que os alimentos “autorizados” são saudáveis, também dependem de um contexto.

 

Tanto os legumes quanto as frutas são benéficos à saúde – entendendo que não há muita discordância de que os alimentos in natura são saudáveis. Entretanto, nem tudo o que é saudável, é saudável para todo mundo e o tempo todo – e não só por causa de alergias que um alimento saudável pode causar malefícios à saúde, mas um alimento se torna muito mais agradável, por exemplo, quando se come com fome e com vontade – e, com isso, a digestibilidade dele vai ser melhor e, portanto, mais saudável.

 

Há, também, a invenção da saúde por meio da orientação sobre a necessidade de alimentação a cada três horas. Não há evidências claras de que seja o melhor para o funcionamento metabólico do organismo – mas se para ti funciona, tá tudo certo! É justamente isto: a auto-observação para atingir o bem-estar, como o conceito da OMS diz.

Saber o que comer tem tudo a ver com autoconhecimento – e o exercício do autoconhecimento pode ser ainda mais eficiente com acompanhamento profissional de nutricionistas, psicólogos, médicos, etc. Assim, fica a sugestão: o que te traz bem-estar físico e mental? E será que vai ser a mesma coisa amanhã?

 

P.S.: Não é normal se sentir sempre cansado, nem ficar sem evacuar diariamente. Assim como também não é saudável ter dores de cabeças constantes, desconforto abdominal, inchaço frequente e sensação de peso após comer – seja por causa da rotina de trabalho, de estudo, ou alimentar. São sinais sutis e que em exames médicos geralmente não apontam enfermidades. E, por isso mesmo, a saúde não é só ausência de doenças.

 

 

Luíza Tavares é jornalista, estudante de nutrição, voluntária do Slow Food, ama cozinhar – da forma mais natural possível - e acredita que a comida deve ser sinônimo de liberdade.

 

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