O que é o surto de toxoplasmose confirmado em Santa Maria

Na última terça-feira (24), uma semana após a confirmação do surto de toxoplasmose pela Prefeitura Municipal, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul apresentou uma atualização do relatório de investigação de surto que confirmou 51 casos da doença. Segundo o relatório produzido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, o critério de suspeita para investigação da doença é “toda pessoa residente de Santa Maria que a partir de 20/01/2018 apresentou febre, cefaleia, mialgia ou adenomegalia”, ou seja, febre, dores de cabeça, dores musculares ou nódulos linfáticos inchados. Para compreender o cenário, o Boca Jornalismo apurou informações sobre a toxoplasmose e o surto da doença no município.

 

Atualização em 09/05: A última atualização do relatório de investigação de surto divulgada nesta terça-feira (08/05)  confirma 218 casos de Toxoplasmose na cidade, entre eles 20 gestantes. Dos 792 casos notificados, 617 foram reconhecidos como suspeitos, 218 confirmados, 319 estão em investigação e 70 casos foram descartados. A fonte da contaminação ainda não foi descoberta.

 

 

Foto: Divulgação//Boca Jornalismo.

 

O que é um surto?

 

O último relatório de investigação de surto divulgado pelo Governo Estadual afirma que foram coletadas 90 amostras de sangue de casos considerados suspeitos em Santa Maria. Foram 51 casos de toxoplasmose confirmados e, destes, 8 são gestantes. Além disso, houve 9 casos em que o resultado do exame foi negativo e 30 amostras - das quais 6 são gestantes - aguardam resultado.

 

De acordo com este boletim, Santa Maria tem atualmente 193 casos com suspeita da doença. Conforme a médica infectologista do Município, Paula Martinez, a literatura médica aponta que é possível fazer uma estimativa de que, para cada caso que apresenta sintomas, existam outros três assintomáticos. No entanto, ela alerta que a única fonte que pode afirmar com certeza o número de casos considerados suspeitos ou confirmados é o relatório atualizado pelo Governo do Estado.

 

Um surto pode ser confirmado por um município, por exemplo, sempre que a presença de alguma doença for considerada maior que o esperado. Em Santa Maria, a médica explica que o surto foi confirmado apenas após o resultado de exame feito pelo Lacen , para o qual foram selecionadas 17 amostras de sangue, vindas das redes pública e privada. Destas, 14 apresentaram resultado positivo para toxoplasmose. A possibilidade de outras doenças foi levantada e os testes foram e continuam sendo realizados, mas esse foi o único resultado positivo comum encontrado.

 

Quem faz parte do grupo de risco?

 

A doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica Toxicológica Nathieli Bianchin explica que “o grande problema em casos de surto são as pessoas imunodeprimidas”. As gestantes, crianças menores de dois anos, pacientes que fazem tratamentos como quimioterapia, pessoas com resultado de HIV positivo ou outras viroses positivas não possuem um mecanismo de defesa forte o suficiente para produzir imunidade contra a doença.  

 

Mulheres que contraem a patologia durante a gestação precisam de cuidados diferenciados, pois há risco de transmissão para o feto, por via intra uterina. A Sociedade Brasileira de Infectologia explica que, se não tratada, a toxoplasmose neonatal pode levar ao nascimento prematuro e, em casos mais graves a complicações como microcefalia.

 

Além disso, Martinez explica que, na maioria dos casos, a toxoplasmose durante a gravidez é assintomática. No entanto, a doença pode ser detectada pelos exames realizados durante o acompanhamento pré-natal. Segundo Martinez, normalmente estes exames são solicitados às gestantes duas vezes: uma no primeiro e outra no terceiro trimestre da gravidez. Ainda não há confirmação de gestantes com quadros graves ou fatais na cidade, existe apenas uma investigação  sobre um caso de óbito fetal por suspeita de toxoplasmose em gestante que contraiu a doença. Neste momento, em Santa Maria, todas as gestantes que procuram as unidades de saúde estão sendo encaminhadas para a realização do exame, independente do tempo de gestação.

 

E quem não faz parte do grupo de risco?

 

Conforme Bianquini, pessoas saudáveis podem ou não apresentar sintomas da doença, de acordo com a imunidade desenvolvida pelo organismo de cada um. O Instituto Adolfo Lutz, reconhecido pelo Ministério da Saúde como Laboratório Nacional em Saúde Pública, divulgou em 2012 uma pesquisa que constata que um em cada três brasileiros já teve contato com o parasita Toxoplasma gondii, responsável pela toxoplasmose.

 

Segundo Martinez, todas as pessoas que adquirem o parasita desenvolvem anticorpos que o combatem, independentemente da aplicação de medicação. A médica explica que em Santa Maria se verificou um número maior que o esperado de pacientes que apresentaram síndrome febril. O tratamento é ministrado conforme o tempo durante o qual o paciente vem apresentando os sintomas, com o propósito de diminuir os desconfortos causados pela doença.

 

O estudante Eduardo do Carmo conta que procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na segunda-feira (23), quando foi atendido, e recebeu indicação de um tratamento para os desconfortos causados por uma possível toxoplasmose, mas não foi feita coleta de sangue para exames. De acordo com a infectologista, a orientação para os agentes de saúde é que o tratamento seja oferecido, além de ser feita a coleta de sangue dos pacientes sob suspeita.

 

No entanto, há ainda possibilidade de manifestação de sintomas oculares. Quando isso é identificado já na triagem feita nas unidades de saúde, o paciente é encaminhado para um médico oftalmologista. Apesar de muitas pessoas saudáveis não desenvolverem a doença, elas podem apresentar sintomas e, nesse caso, é preciso procurar uma Unidade Básica de Saúde.

 

Quais os sintomas?

 

O tempo entre o contágio e o início da manifestação de sintomas, chamado de período de incubação, dura de 10 a 23 dias no caso de contaminação  através da carne, e de 5 a 20 dias se a contaminação acontecer por fezes de gatos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia. Após a incubação, os sintomas podem se expressar em quadros variados como febre, dores de cabeça, dores musculares ou nódulos linfáticos inchados, o que dificulta o diagnóstico da doença. Para as pessoas que fazem parte do grupo de risco, “a sintomatologia é mais acentuada e, então, [o paciente] apresenta fortes dores de cabeça, começa a ter maiores alterações nos exames, vômito, diarréia e manchas na pele”, explica a doutoranda do PPG em Bioquímica Toxicológica Nathieli Bianchin.

 

Como a doença é transmitida?

 

A toxoplasmose não é contagiosa. “O principal meio de transmissão do parasita para humanos se dá através da ingestão de carne crua ou mal cozida, alimentos contaminados como verdura, legumes e frutas, e através da água”, afirma Bianchin. Ela explica que o parasita sobrevive tanto a temperaturas altas de cozimento quanto a temperaturas baixas como -20 ºC. A Sociedade Brasileira de Infectologia informa que a “ingestão de oocistos provenientes do solo, areia, latas de lixo contaminados com fezes de gatos infectados” também podem ser responsáveis pela transmissão do parasita.  

 

Até o momento, em Santa Maria, a hipótese levantada tem sido a da contaminação pela água. No entanto, ainda não houve um pronunciamento oficial da Prefeitura ou do Governo do Estado confirmando a suspeita. Além disso, até a manhã da terça-feira (25), o Laboratório de Parasitologia Veterinária da UFSM, que faz análises de águas, não identificou a existência de parasitas em suas análises. Se o resultado acusar a existência, a amostra é enviada para o Laboratório Central de Saúde Pública do RS, onde é feita a análise específica da Toxoplasmose.

 

Em 2015, um surto de Toxoplasmose foi registrado na cidade de São Marcos, na Serra do Rio Grande do Sul. Na ocasião, 154 casos foram confirmados e, segundo pesquisa do Ministério da Saúde feita após o controle do surto, a principal causa da contaminação foi o consumo de carne mal passada.

 

 

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2018 por BOCA Jornalismo.