2018 por BOCA Jornalismo.

Histórias além dos livros

Entre as ficções, biografias, romances, aventuras e tantos outros gêneros literários, vimos centenas de histórias na Feira do Livro de Santa Maria, mas nem todas estão escritas em folhas de papel e expostas para a venda. Algumas estão no palco sendo encenadas e cantadas, outras circulando pela praça, ou talvez estejam atrás do balcão de livros, comercializando títulos. O BOCA foi até a Praça Saldanha Marinho em busca de histórias e pessoas que, de alguma forma, fazem parte desse evento que já é tradicional. Este é o caso do livreiro Miguel Gómez, argentino e torcedor do Racing Club de Avellaneda, com muitas histórias vividas para além da literatura. Apenas mais um rapaz latino-americano.

 

Seu Miguel (ou “Dom Miguel”, como um amigo o chama em meio à banca repleta de livros) veio da Argentina para o Brasil no ano de 1977. Nasceu na cidade de Laprida, situada à 500km da capital Buenos Aires, uma pequena cidade onde tudo aparentava ser pacato. Ainda quando jovem, há 41 anos, o estrangeiro precisou tomar um rumo, sem que houvesse muitas opções: fugir de uma ditadura militar. “Vocês devem saber que, naquela época, havia na América Latina várias ditaduras ferozes. Entre elas, uma ditadura na Argentina, que foi uma das que mais se destacou em desaparecer pessoas, prender gente sem julgar, torturas e enviar pessoas para o exílio”.

 

Seu Miguel ainda vivia em solo argentino e estudava cinema, quando, em 24 de maio de 1976, as Forças Armadas tomaram o poder e destituíram a então Presidente Isabelita Perón, gerando uma “caça às bruxas” ao que o regime da época denominava como uma "onda subversiva”. Este fato gerou, de acordo com a definição de ONGs e instituições em defesa dos Direitos Humanos, a ditadura militar mais sanguinária da América do Sul. “Eu saí naquela época buscando ares mais saudáveis”, conta.

 

 

Um fã da literatura, o argentino já está presente há mais de uma década na Feiro do Livro da cidade. Foto: Guilherme Trucollo//Boca Jornalismo.

 

Mas, apesar do passado que insiste em bater à porta, existiu uma trajetória que o comerciante construiu aqui no Brasil. Fez morada em Porto Alegre e seguiu trabalhando por trás das câmeras - não mais as de cinema como estudava em seu país - mas as de televisão, ocupando-se como cinegrafista. Se aventurou por emissoras de Porto Alegre e de outros estados brasileiros, até que resolveu mudar seus ares profissionais; decidiu que a literatura tomaria conta da maior parte do seu tempo.

 

A literatura castelhana e outros devaneios

 

“Eu comecei aqui a vender livros, não faz muito tempo, por volta de 95. Antes trabalhava em jornalismo…” Em 1995 inaugurou na capital gaúcha a Calle Corrientes Libros. O nome é uma homenagem a uma das mais famosas avenidas de Buenos Aires, que é conhecida por conter muitas livrarias em sua extensão - tantas, que chegou até Porto Alegre.

 

Mesmo sendo a Calle foi uma das primeiras livrarias focadas na literatura latino-americana na região, Dom Miguel não se viu satisfeito. Querendo mostrar seu trabalho para mais pessoas, passou a circular por feiras do livro no estado, sem registros da data em que o argentino começou a andar com seus livros pelo Rio Grande do Sul. “Não lembro exatamente qual foi minha primeira feira do livro, mas faz mais de década. Obviamente, hoje vou em Santa Maria, Porto Alegre e Caxias do Sul, além de feiras durante a semana do gaúcho, no Parque Farroupilha”.

 

Sobre os títulos que encontramos na banca de seu Miguel, estão desde “causos” gaúchos, histórias regionalistas dos sul rio-grandenses e suas revoluções e de latinos que, juntos, lutaram em prol da libertação de boa parte da América do Sul. Poemas e fatos históricos também são presença garantida na banca de dom Miguel, que garante que seus livros - não importa se sejam em espanhol ou português, novos ou já usados - são todos bons e com boas histórias. “Eu vivo disso, para mim é um negócio, mas trato de vender bons livros, coisas que sejam positivas. Me recuso a vender livros de propaganda fascista ou outros livros que, por mais que bem feitos, são uma porcaria de conteúdo”.

 

Entre títulos em português e castelhano, os livros da banca de Dom Miguel contam histórias sobre a política e cultura, do Rio Grande do Sul e de países da América Latina. Foto: Guilherme Trucollo//Boca Jornalismo.

 

 

Em sua quadragésima quinta edição, a Feira do Livro de Santa Maria acontece anualmente no mês de Maio na cidade, atraindo crianças, universitários, fãs fiéis do evento e aquelas pessoas que passam pela praça todos os dias, que, durante duas semanas do ano, encontram uma Feira no seu caminho para o trabalho ou para a aula. “Para mim, falando como comerciante, pelo volume de venda, a Feira do Livro daqui é a maior do estado depois de porto Alegre. Aqui tem um público leitor, pela Universidade, pela tradição de luta operária, pela origem ferroviária!”.

 

Você pode visitar a banca do Seu Miguel e todas as outras atrações da Feira do Livro até o dia 13 de maio na Praça Saldanha Marinho. As bancas abrem das 12h30 às 20h30, com exceção dos sábados, quando as atividades começam às 10h30. As apresentações para o público infantil acontecem no palco principal a partir das 14h e, a partir das 19h, ocorre o livro livre. Outros horários de apresentações e lançamentos você pode conferir no site da Feira: feiradolivrosm.com.br.

 

Please reload