2018 por BOCA Jornalismo.

MAIO LGBT: vamos abrir as portas do armário

No dia 17 de maio, Santa Maria completa 160 anos e divide a data com o Dia Internacional Contra a LGBTfobia. Neste mês, vamos abordar as relações que pessoas LGBTs estabelecem com a cidade por meio de quatro recontos. Este é o primeiro texto da série.  

 

Foto: Divulgação//Boca Jornalismo

 

Santa Maria nasceu do movimento de trens, de pessoas, de famílias, de histórias. Cresceu junto dos seus armazéns, suas estações, seu comércio, seus hotéis e sua educação. Hoje, é a casa de quase 280 mil habitantes, a quinta maior cidade do estado. Santa Maria é conhecida na região pelas escolas de ensino médio e, Brasil afora, por sua universidade federal. Junto dela, outras instituições de ensino superior acolhem em sala de aula mais de 32 mil alunos. Alguns estudam à noite, outros durante os turnos do dia. Fora da sala de aula, a vida desses alunos não para: estágios, trabalho, programas de bolsa e voluntariados preenchem a rotina.

 

Essa vida que se move na cidade é fruto de uma movimentação maior ainda. Santa Maria recebe estudantes de todos os cantos do Rio Grande do Sul e também de outros estados do Brasil. A cada ano, uma nova leva de calouros vem de mudança pra Boca do Monte. Chegam como desconhecidos e edificam novos percursos enquanto aprendem um tanto mais.

 

Durante o nosso crescimento, algumas estruturas nos são entregues prontas: menino tem cabelo curto e menina cabelo comprido, saúde é sinônimo de magreza, cabelo bonito é cabelo liso, menino gosta de menina e menina gosta de menino. Aqui é como se fosse mundo afora, onde - se não tudo - muita coisa pode acontecer. E nesse momento é possível reavaliar as estruturas e construí-las por si mesmo. Ora, talvez menina possa gostar de menina e menino de menino. Por quê não? 

 

Alexia Mainardi, de 19 anos,  nasceu e cresceu em um pequeno município da Serra Gaúcha. Colonizado predominantemente por imigrantes italianos, Guaporé tem, hoje, aproximadamente 25 mil habitantes. De fortes tradições ítalo-brasileiras e marcada pela religiosidade fervorosa, a cidade é sentida como um ambiente tóxico por quem foge à regra. Foi lá que soube, ainda na adolescência, que era lésbica.

 

Primeiro, contou para a mãe, que, depois de um caminho farto de tropeços, entendeu - hoje, a mãe ainda teme a exposição, mas compreende que a filha jamais voltará para o armário. Depois, contou para os amigos. Um ou dois se afastaram, mas muitos permaneceram junto dela. Tempos depois, entre uma conversa e outra, a melhor amiga confessou a importância que Alexia teve no processo de reconhecer uma estrutura heteronormativa na qual sempre estiveram imersas.

 

No entanto, o alívio por ter o suporte afetivo da família e dos amigos foi tomado pela aflição de viver em uma cidade onde todos os espaços eram sufocantes para LGBTs. Gradativamente, a liberdade de expressar a sua sexualidade em toda sua complexidade se tornava um obstáculo para levar a vida em Guaporé, e a necessidade de encontrar uma rota de fuga começou a ser sentida na pele. Viver lá não era mais viável para ela, bem como já tinha deixado de ser para alguns amigos.

 

Alexia saiu de sua cidade natal e veio para Santa Maria onde encontrou um lugar para recomeçar​. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Assim, buscou alternativas que a levassem para longe dali: “eu queria sair de lá, não importava se fosse pra UFRGS, pra FURG ou pra UFSM”. O crucial para Alexia era ingressar em instituição de ensino que lhe oferecesse assistência e, principalmente, que tivesse espaços seguros para existir como mulher lésbica.

 

Em 2016, ingressou na Universidade Federal de Santa Maria como estudante do curso de Ciências Sociais e, desde então, passou a ser uma parte do todo que é a Cidade Universitária. Cercada unicamente por morros, Alexia respirou com tranquilidade e soube que poderia, de certa forma, recomeçar: “posso ser quem eu quiser porque ninguém me conhece, então vou poder ser eu mesma”, pensou logo que chegou à cidade.  Aqui, ela estava à vontade, e não foi necessário nenhuma festa de recepção para que se sentisse especialmente acolhida. Essa atmosfera radicalmente distinta do município onde nasceu influenciou na concepção que tinha de si mesma: “já estava bem resolvida comigo, mas não posso dizer que não me resolvi melhor depois de Santa Maria.”

 

Nesse emaranhado de estudantes de diversos cantos do Brasil - e de alguns cantos do mundo - experienciar a diversidade de pessoas e de histórias é uma possibilidade, assim como viver a sua sexualidade. Em Santa Maria da Boca do Monte, Alexia pode andar de mãos dadas com a namorada sem grandes constrangimentos. É por isso que a  sensação de acolhimento extrapola os limites da Universidade Federal de Santa Maria e compreende também os espaços, os coletivos, os eventos, a movimentação e as possibilidades da cidade.

 

Alexia é estudante de ciências sociais e admite que se sente mais segura quando está em um grupo de amigos. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Entretanto, as possibilidades dessa cidade vista como diversa e acolhedora também podem ser perversas. Para Alexia que é moradora da Casa do Estudante Universitário (CEU), localizada campus da UFSM no bairro Camobi, o local pode ser ameaçador de muitas maneiras: “as pessoas constituem um grupo e se sentem seguras para fazer o que quiserem, para serem preconceituosas”. Esse obstáculo necessita ser superado para que a Boca do Monte seja um lugar de passagem e de permanência seguro e hospitaleiro, capaz de receber e ressignificar outras histórias.

 

Assim como Alexia, Lucas Augusto, de 19 anos, veio para estudar em Santa Maria no início de 2016. Ele nasceu em São Bernardo do Campo, município do estado de São Paulo, que tem cerca de 800 mil habitantes. De lá para cá, foram 17 horas de viagem. Chegou direto para a Casa do Estudante, em Camobi. Junto dele, só a necessidade de recomeçar, de construir uma nova história, já que havia deixado uma vida de lado em São Bernardo do Campo. Aqui, segundo Lucas, sentiu uma liberdade que nunca havia experimentado antes, uma liberdade para se expressar.

 

Perto do grafite preto e branco, localizado na ponte seca da UFSM, Lucas Augusto diz: "no começo eu vinha para cá para pensar na vida, esse grafite me faz lembrar de casa." Antes de chegar em Santa Maria para estudar Produção Editorial e, posteriormente Jornalismo, Lucas tinha uma rotina como a de muitos adolescentes: acordar de manhã para ir a escola, trabalhar de tarde e se encontrar com os amigos. No entanto, sua maior dificuldade era manter em segredo a sua sexualidade. No grupo de amigos, tentar se encaixar em uma determinada aparência era a tarefa mais complicada. Nos encontros familiares, a situação não mudava: ficar em silêncio era mais seguro do que expressar sua opinião quando as conversas envolviam comentários homofóbicos e machistas. Na época, a solução encontrada foi ser "uma pessoa que as outras pessoas queriam que eu fosse", reflete.

 

 Lucas Augusto na frente do grafite que o lembra de São Paulo, a sua cidade natal. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo

 

Ao mesmo tempo sua mãe percebeu que a sexualidade do filho não condizia com os padrões que ela conhecia. Foram momentos de tensão. Ele sofreu agressões verbais do pai, que, apesar de distante da família, também tomou conhecimento do assunto. Lucas conta que se perguntava diariamente: "eu me perguntava: se eu for quem eu sou, eles realmente vão gostar de mim? Que tipo de ser humano eu sou?".

 

Assumir a sexualidade, de acordo com Lucas, não acontece do dia para a noite, é um processo de autoconhecimento, demorado e que se desenvolve com o tempo. Nesse mesmo período de descobertas, o menino franzino e de óculos, encontrou o apoio junto ao irmão gêmeo e à irmã mais nova que vivenciavam a mesma jornada de se encontrar. O irmão também é gay e a irmã é lésbica. Com o irmão compartilhava também o desejo de mudar. Mudar de cidade, conhecer outras pessoas, outras realidades. 

 

Lucas Augusto encontrou em Santa Maria pessoas que o ajudaram no processo de assumir sua sexualidade. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

E assim fez. Em 2016, quando veio para Santa Maria, além da liberdade que nunca havia sentido antes, enfrentou uma batalha consigo mesmo: "Quando eu cheguei aqui, eu tentei ser hétero. Eu tentei por um tempo, mas compreendi que não precisava fazer isso, não precisava esconder quem eu realmente sou". Além disso, algo que o ajudou bastante durante essa fase de adaptação foi o fato de namorar um menino.

 

Santa Maria se tornou mais do que uma cidade. Nos momentos difíceis houve pessoas: amigos e conhecidos, gente que Lucas nunca tinha visto anteriormente, sempre dispostas a ajudá-lo. É por isso que ele se sentiu acolhido, mesmo que, às vezes, testemunhe  situações de insegurança. As festas no Centro de Eventos (CE) da UFSM são conhecidas por ter um público constituído majoritariamente por homens héteros. Lucas afirma que gosta de frequentar as festas do CE, mas que, por conta disso, prefere ir acompanhado, já que em grupo  ele se sente mais à vontade. No entanto, conta que ele e outros amigos gays vão a estes eventos sempre acompanhados de um amigo hétero, "porque ainda não me sinto bem indo apenas com meus amigos que também são gays. Parece que, se tem um homem hétero, você precisa dele em alguns momentos para poder ser respeitado e isso dá uma sensação horrível", lamenta.

 

Existe um machismo muito presente em Santa Maria, mas Lucas acredita que isso não representa a cidade como um todo, já que ela é um polo universitário e, nesse sentido, ao longo de sua formação histórica, Santa Maria desenvolveu aspectos solidários em relação a seus moradores.

 

O estudante de Jornalismo compara a Santa Maria com o campus da UFSM: uma junção de pessoas que vêm de outros estados, de cidades vizinhas da região e que  acabam se encontrando nesse turbilhão cultural. O choque de culturas, na visão dele, é positivo, pois toda essa mistura contribui para construir o respeito ao próximo. Quem nasceu aqui aprende a conviver com as pessoas que chegam de fora, muitas vezes, desamparados, um fator  importante para quem assume a sua sexualidade. Em Santa Maria, "você só é mais um no meio dessa multidão, vai ter gente te olhando torto, mas tem gente olhando torto pra todo mundo". Isso encoraja, "me fez assumir o que sou".

 

Assim como Alexia e Lucas, outras pessoas que não se identificam com a heterossexualidade, tem de se relacionar em espaços e instituições dentro outros contextos da vida. No trabalho, no cursinho, no ônibus, nas festas, no sistema de saúde, no shopping, na rua. Nesses espaços, como a cidade se relaciona com pessoas LGBTs?  

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