2018 por BOCA Jornalismo.

Adriane de Fátima da Silva Teixeira acorda, num domingo, às 9 da manhã. Um gelado vento precoce de inverno aparece, surpreendendo a todos naquele 13 de maio em que ainda deveria haver um outono ameno. O mesmo 13 de maio que, cento e trinta anos atrás, teria supostamente abolido a escravidão daqueles de pele preta, como Adriane. O mesmo 13 de maio em que Maria, mãe de Jesus Cristo, teria supostamente aparecido para três crianças, cento e onze anos antes, na cidade portuguesa de Fátima, o segundo nome de Adriane. Para Adriane, aquele 13 de maio frio era especial, não pela abolição suposta ou pela aparição da Santa, mas porque era o segundo domingo do mês, Dia das Mães. E, na comunidade, isso significava dia de feijoada.

 

Adriane prepara a feijoada no fogão à lenha improvisado. Na noite do dia 13 de maio, os moradores celebram o dia das mães. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Ela prepara o café e já se apronta para sair, comprar os ingredientes. Paio, linguiça, couve, laranja, farinha, feijão. Uma refeição completa para a celebração da vizinhança. Era dela a importante tarefa de preparar a feijoada, e Adriane iria começá-la logo menos, às quinze horas. “A Tia Adriane gosta de fazer as coisas bem cedo”, é o que diz Andressa, uma das moradoras da comuna. E, de fato, Adriane gosta das coisas bem feitas. Em seus quarenta anos muito bem vividos, já fez muitas coisas. Uma das mais difíceis foi criar seus três filhos sozinha. “Eu sou mãe e pai”, conta. Dois meninos, um de dezoito e outro de dezesseis, e uma menina de nove. A menina tem Síndrome de West, uma doença neurológica que atinge uma a cada seis mil crianças e é mais comum em meninos.

 

Adriane descreve a si mesma como uma “dona de casa”. Costumava trabalhar, mas teve de parar devido aos constantes surtos de depressão que a acometiam. Foi internada quatro vezes. “A depressão é uma coisa muito ruim, horas tu tá boa, horas tu tá por aí”, explica.  Adriane é sim dona de casa, e é também outras coisas: amiga leal, cozinheira de mão cheia e pessoa dedicada à sua comunidade. Comunidade que a acolheu depois de nove anos esperando sua vez no programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, enquanto pagava um aluguel de quatrocentos e cinquenta reais no Alto da Boa Vista, valor que seu salário não comportava.

 

Os moradores se divertem enquanto esperam a comida ficar pronta. Uns dançam e outros jogam cartas na noite fria de domingo (20). Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

A noite chega, ainda mais fria, mas aquela alegre vizinhança pouco se importa. Funk, pagode, sertanejo, toda a sorte de ritmos se confundem entre a alegria dos amigos, que celebravam em torno da feijoada de Adriane, na sede da Associação dos Moradores. Crianças brincam em meio ao latido dos inúmeros cachorros que residem na comunidade. Em um canto do espaço, um grupo de amigos se distrai no carteado. No outro, alguns casais dançam a infinidade de ritmos presentes. Em volta do fogão improvisado, alguns conversam, enquanto Adriane trabalha avidamente no banquete. No meio da noite, a música, o carteado e a conversa são interrompidos pelo coro, entoado por todos os moradores:  

 

 

“A nossa luta, é todo o dia!

Dignidade, Respeito e Moradia!”

 

Aquela não era uma vizinhança comum. Aquela era uma ocupação. Aquela era a Vila Resistência.

 

 Entrada da Vila Resistência que dá acesso à casa de pau a pique. Foto; Leandra Cruber//Boca Jornalismo.

 

A Ocupação Vila Resistência surgiu em 14 de outubro de 2016, dentro do Parque Pinheiro Machado, Zona Oeste da cidade. Rai Silva foi uma das primeiras a estabelecer morada na Resistência em 2016. Veio de outra ocupação, a Parque Pinheiro, assim como a maioria dos primeiros moradores a se instalarem no terreno de cerca de dois hectares. Rai faz parte do grupo  Resistência Popular, que iniciou o processo de ocupação do terreno. O coletivo apoia a ocupação, mas não a coordena: esse papel fica na mão de quem mora na Resistência. A autonomia é um conceito muito importante para o moradores da ocupação: “Aqui ninguém vai lutar por ti, tu tem que lutar por ti pra que, no final, todos lutem por todos”, afirma Rai.

 

Cartaz está colado na parede do local onde são realizadas as ações sociais e as reuniões quinzenais. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Ninguém sabe ao certo para que serviria aquele terreno, baldio há pelo menos 20 anos. O espaço pertence à Prefeitura, que não quer mais os moradores lá. Mas se o terreno estava baldio, que função teria aquela área? Em entrevista ao “Diário de Santa Maria”, o Superintendente de Habitação do município, Wagner Bittencourt, afirma que o terreno estava destinado a uma “área verde” de cultura, esporte e lazer para a Zona Oeste.  Rai diz que, em reunião com a Prefeitura, os representantes públicos chegaram a afirmar que, ao assentarem suas casas sobre o capim, os moradores estariam inclusive prejudicando a pureza do ar da região.

 

O ar ou a visão? Do outro lado da Rua Engenheiro Adi Forgiarini, se estende uma série de casinhas de tijolos uniformes e cores alegres. Na esquina, uma placa anunciava a venda de apartamentos para um novo residencial. Historicamente marginalizada pelo poder público, a Zona Oeste de Santa Maria tem se tornado uma área bastante cobiçada. Recentemente, um shopping center e um colégio privado se instalaram na região. Obras do poder público como o Hospital Regional e a duplicação da Travessia Urbana contribuem para esse processo de valorização. Interesses à parte, o fato é que a Prefeitura está atuando para que a Vila Resistência termine. Um mandado de reintegração de posse foi expedido pelo município, no dia 3 de maio. Após os moradores ocuparem a sede do Executivo Municipal, chegou-se ao acordo de esperar uma audiência entre as duas partes e o Ministério Público.

 

Rai é uma das vozes mais ativas da Vila Resistência. Segundo ela, o projeto Minha Casa Minha Vida é insuficiente, pois não atende a demanda de moradia da população. Rai reforça que os moradores lutam apenas pelo mínimo - o direito à moradia - e só sairão de lá ou com casas para todas as quarenta e cinco famílias, ou com a posse do terreno. Adriane, nossa personagem, admira muito a presença de Rai: “Ela é uma boa líder. Ela diz que não é líder, mas pra mim é, sim. Ela é pontual, centrada, tudo o que ela promete, ela cumpre. Eu sou mais velha que ela, mas respeito muito ela”.

 

 

 Rai Silva é estudante da UFSM e moradora da ocupação. Foto: Leandra Cruber//Boca Jornalismo.

 

A negação do título de líder não é para menos: a horizontalidade e a participação de todos é uma ferramenta nas lutas da Resistência. Segundo a própria Rai, em muitas ocupações os moradores só se reúnem para ouvir os repasses dos advogados, deixando para um pequeno grupo as decisões maiores. Na Vila Resistência a participação é obrigatória para todos, com algumas poucas exceções, como os moradores que trabalham com carteira assinada, já que teriam horário fixo a cumprir em seus trabalhos. A esmagadora maioria dos que ocupam são trabalhadores autônomos. A participação constante nas atividades da ocupação contribui para a formação de um forte sentimento de coleguismo entre os ocupantes. Vagner Carneiro, um dos ocupantes mais ativos, afirma que as lutas dos moradores valem a pena, e que não trocaria o local em que ele mora por sua antiga residência, em Canoas: “Aqui é o lugar que me dá emprego, que eu consigo criar minha família, aqui tem paz e tranquilidade, que eu sei que eu vou sair e, quando voltar, minha família vai estar bem”.

 

 Andressa é casada com Vagner. Eles têm dois filhos. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Uma semana após a feijoada, Adriane acorda cedo de novo. Toma seu café, prepara o chimarrão e vai direto encontrar os outros moradores. É dia de reunião e ela tem um papel a cumprir.

 

É na organização dos trabalhos, na distribuição das tarefas, que o papel de Adriane fica ainda mais evidente. Ela chefia a Comissão de Finanças da ocupação, cuidando de todas as entradas e saídas financeiras da Vila Resistência. Ela assumiu esse papel em janeiro de 2018, logo depois que o morador que cuidava desta tarefa fugiu com toda a quantia arrecadada pelos moradores. “Fiquei privilegiada, tem mais pessoal capacitado que eu pra fazer isso”, conta.

 

De quinze em quinze dias, aos domingos, os moradores da Resistência se encontram no terreno próximo ao principal acesso. Naquela manhã fria e úmida do domingo, dia 20, não foi diferente. Ao redor da casa de pau a pique e chão batido, cada um puxa uma cadeira de plástico e se prepara, aos poucos, para a reunião. Quase no meio da roda de moradores, com os cabelos longos e bem escuros, Evellyn Nunes, 19 anos, se destaca pela concentração em um caderno posto em seu colo. A menina se preparava para desempenhar, pela primeira vez, uma tarefa bastante importante para as reuniões: escrever a ata.

 

Já organizados, Rai Silva inicia a reunião com uma discussão sobre os riscos de reintegração de posse e sobre a audiência, ainda com data indefinida, que pode definir os rumos da Vila Resistência. Os olhares atentos denunciavam a preocupação com os futuros desdobramentos. Há um apelo pela participação coletiva dos moradores. "Ninguém aqui luta por ninguém. Nós lutamos por nós", reafirma,  enquanto fala aos moradores sobre a importância da cooperação. A ressalva para que todos se fizessem presentes tanto nas reuniões quanto nas ações sociais permanece nas falas dos moradores durante toda a reunião.

 

As reuniões acontecem quinzenalmente aos domingos. Os moradores se encontram na casa de pau a pique, onde discutem as demandas da ocupação. Foto: Leandra Cruber//Boca Jornalismo.

 

Dentre as demandas da comunidade, Adriane fala sobre as vias de acesso à ocupação, que viram um lamaçal em dias de chuva e dificultam a entrada dos moradores. A chefe da Comissão de Finanças aponta para a necessidade de arrumar a passagem com britas, cargas de terra ou cascalhos. Enquanto isso, a ocupante Andressa ressalta a urgência de construções de lixeiras, já que o acúmulo de lixo perto das casas poderia provocar a perda da coleta seletiva e, consequentemente, muita sujeira e a possibilidade de doenças.  Seu Arlindo, conhecido entre os moradores mais antigos, levanta o braço e oferece o material e a mão de obra para a confecção das lixeiras. "Me deram uma caixa de geladeira pr’eu fazer de churrasqueira, mas eu não tenho dinheiro para comprar carne", fala.

 

Todas essas propostas precisam de investimentos e Adriane, atenta às exigências, salienta que o caixa da Vila Resistência está vazio. Portanto, colaboração de todos é fundamental. Por menor que seja a quantia, o autofinanciamento e a organização entre os moradores fazem da Vila Resistência uma ocupação singular.

 

Duas moradoras da Resistência se divertem na feijoada organizada durante a noite do dia das mães. Foto: Beatriz Couto//Boca Jornalismo.

 

Os encontros, na casa de pau a pique, rodeada por árvores e cachorros curiosos, são abertos.  Assim, qualquer pessoa tem a oportunidade de participar, mesmo que não seja um residente da ocupação. É o caso, por exemplo, de dois estudantes de Licenciatura em Ciências Sociais,  que, sentados na roda formada por moradores, participam da reunião. Seu objetivo era o de propor oficinas aos habitantes da Resistência. As oficinas são parte do estágio curricular dos acadêmicos, onde eles teriam de ministrar aulas para pessoas fora do ambiente escolar.  A proposta é de uma discussão sobre o direito à cidade era enfatizada. Nesse momento, uma senhora, olha para Rai e indaga sem hesitar: “Rai, pra isso precisa ter estudo?". Rai, imediatamente, responde que não.

 

A organização coletiva se estende por todos os lados da Vila Resistência. As mulheres de lá planejaram um brechó. O propósito é simples: recuperar a casinha praticamente descoberta que foi escolhida como sede dos moradores. Hoje, o espaço protegido por uma lona azul abriga momentos de lazer, como a feijoada e a exibição de filmes para a criançada, e de construção comunitária, como as reuniões. Então, todo o dinheiro arrecadado com a venda de roupas usadas já tem destino certo. Um mutirão de moradores é organizado para comprar os cascalhos e ajustar as vias. É planejada também uma extensão da rede elétrica, a acontecer ao longo semana.

 

Nos minutos finais da reunião, um momento de debate mais acirrado. Uma nova família quer entrar na Ocupação. A família possui crianças pequenas e precisa de uma casa urgente. Vagner argumenta com um dos ocupantes mais antigos que ele deveria ceder uma de suas casas, a que ele não estava dormindo, pois guardava ela para o seu filho, que ainda não morava na Resistência. O ocupante resiste, afirmando que existem ainda outros terrenos baldios na área para se construir e que ninguém precisava ceder nada. Vagner argumenta que seria impossível colocar uma família com crianças pequenas num terreno baldio enlameado, que elas precisavam de um lugar imediatamente. O impasse é resolvido: a família fica na casa até conseguir juntar dinheiro para construir a sua própria, na Ocupação. O morador cedente encerra a discussão com a concordância de todos: “Entre nós é paz. O inimigo é a prefeitura. Entre nós é paz.”.

 

A reunião termina e Adriane se dirige, calmamente, até a sua casa. Feita de madeira comprada a duras penas, a construção apresenta formas bonitas e delicadas, mesmo com o material rústico e temporário. Um gato curioso observa Adriane se despedir da equipe de reportagem. Ela iria almoçar com o namorado aquele dia, para comemorar o aniversário do cunhado. Uma atividade cotidiana. De quem resiste na vida, mas também vive na resistência.

 

 Adriane é chefe da Comissão de Finanças. Ela tem dois filhos e uma filha que moram com ela na Vila Resistência. Foto: Leandra Cruber//Boca Jornalismo.

 

Please reload