2018 por BOCA Jornalismo.

MAIO LGBT: o ambiente de trabalho

No dia 17 de maio, Santa Maria completou 160 anos e dividiu a data com o Dia Internacional Contra a LGBTfobia. Neste mês, abordamos as relações que pessoas LGBTs estabelecem com a cidade por meio de quatro produções. Este é o segundo texto da série.

 

 

As pessoas LGBTs estão em todos os espaços, ainda que sejam silenciadas ou que sua presença não esteja representada em estatísticas. No ambiente de trabalho, é claro, não poderia ser diferente. Se é instituído na Constituição Federal que o Brasil é um Estado democrático, que deve assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais de seus cidadãos, o ambiente de trabalho deveria ser também um espaço de construção - e de garantia - da dignidade dos sujeitos.

 

Para a Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (ADESM), em 2010, a população economicamente ativa (PEA) do município com a quinta maior população do Rio Grande do Sul representava 2,4% do total do estado. Ou seja, 157.269 pessoas com potencial para ser mão-de-obra para o setor produtivo, descontando-se os aposentados e estudantes. Não há, porém, estudos específicos sobre a quantidade de pessoas LGBT que fazem parte da PEA santa-mariense.

 

 

Usualmente, o candidato a uma vaga de emprego precisa convencer o empregador de que é capaz de cumprir as tarefas relativas ao cargo. Caso contratado, o trabalhador exerce uma série de atividades exigidas pela sua função. Mas não é simples assim: algumas pessoas podem sofrer discriminação no espaço de trabalho por não corresponderem a uma expectativa em relação a sua sexualidade. Isso porque, de início, todos presumem que você é heterossexual. O problema não é a orientação em si, mas como as pessoas que dividem este ambiente com você se relacionam com o tema. É verdade que nem todos ambientes são explicitamente hostis, mas o preconceito também se esboça através de sutilezas cotidianas.

 

DISCRIMINAÇÃO

 

Ao vermos uma pessoa agredindo outra fisicamente, não há dúvidas de que esse ato se configura como uma violência. Se questionarmos um grupo de pessoas sobre isso, muitas delas estariam de acordo que esse tipo de situação é inaceitável entre colegas de trabalho, por exemplo. Entretanto, esta não é a única face da violência enfrentada por pessoas LGBTs.

 

André* é formado em Direito e trabalha como servidor público. Ele conta nunca ter sofrido nenhum tipo de agressão física em seu ambiente de trabalho, porque seus colegas têm consciência de que, por essa atitude, poderia ser aberto um processo administrativo para apurar os fatos, o que levaria a perda do cargo do agressor, por exemplo. No entanto, ele atribui a postura - por vezes hostil - de alguns de seus colegas ao fato de que sua área de trabalho ainda é formada majoritariamente por homens brancos e presumidamente heterossexuais.

 

A percepção de André sobre o próprio ambiente de trabalho lembra a noção de violência simbólica proposta pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, que a compreende como a utilização de instrumentos de coerção para manter uma relação de poder. Essa relação de poder é estrutural e as coerções são repassadas e aprendidas por gerações através das instituições sociais - como família, escola, igreja - e repetidas de forma que nos pareçam naturais.

 

Os comentários preconceituosos relacionados a pessoas LGBTs são comuns no dia-a-dia de André: “Esses comentários sempre aconteceram, não em relação a mim propriamente, mas com relação a outras pessoas. Um gay passa e rolam comentários preconceituosos ‘aaa veado, não sei o quê’, esse tipo de xingamento”, explica. Para a professora de Fotojornalismo da Universidade Franciscana (UFN), Laura Fabrício, a discriminação não vem somente na piada e no explícito, mas também através de interrupções enquanto apresenta argumentos durante reuniões, por exemplo.

 

PROBLEMA ESTRUTURAL

 

Se a violência simbólica tem suas raízes nas relações de poder que existem por conta das estruturas que sustentam a sociedade, como aponta Bourdieu, então o preconceito velado vivido por LGBTs em seus ambientes de trabalhos deve ser visto por um ângulo estrutural. Isso significa perceber que o preconceito contra as pessoas LGBTs é a regra, não a exceção.

 

O jornalista Felipe Laud, que já atuou em diversas cidades do Rio Grande do Sul, lembra que, independente do local, a reação das pessoas a sua sexualidade se assemelha. “[Em] todos os lugares que passei, seja em Santa Maria, Bagé ou Porto Alegre, não difere: as pessoas têm as mesmas dúvidas”, conta. Na capital, por exemplo, Felipe esperava encontrar pessoas mais abertas no que diz respeito a outras sexualidades, o que, para sua surpresa, não aconteceu. Ele atribui o preconceito ao desconhecimento e à ignorância e, às vezes, à falta de disposição das pessoas para o diálogo.

 

A professora Laura nunca enfrentou problemas relacionados a sua sexualidade no que diz respeito à instituição de ensino em que leciona. Ela acredita que, em uma de entrevista de emprego, não há necessidade de falar sobre esse assunto, pois defende que sexualidade não é uma informação necessária em um currículo profissional. No entanto, ressalta a importância de não esconder sua sexualidade. “Isso é justamente uma maneira de ser resistente. E, a partir de uma postura firme, não deixar as pessoas te atropelarem”, ela explica: “porque, infelizmente, muitas pessoas de sexualidade diferente de uma orientação heterossexual sucumbem, muitos sofrem. Ainda mais na adolescência.” ressalta.

 

De acordo com a pesquisa sobre a garantia dos direitos para LGBTs no mercado de trabalho, divulgada pela organização norte-americana sem fins lucrativos Center for Talent Innovation (CTI), o Brasil está entre os países que mais possuem leis que protegem as pessoas LGBTs nesses espaços. Apesar de o resultado parecer positivo, esta pesquisa compara o Brasil com países como Índia, Rússia e Singapura, locais que se destacam por políticas hostis a LGBTs.

 

Em contraposição à aparente amigabilidade demonstrada na pesquisa realizada pelo CTI, o Brasil lidera o número de assassinatos de LGBTs no mundo. É o que mostra o Informe 2017/18 da Anistia Internacional, feito com base no relatório Mortes Violentas de LGBT no Brasil de 2017 do Grupo Gay da Bahia. No ano passado, 445 lésbicas, bissexuais, gays e transexuais morreram. Destas, 387 pessoas foram assassinadas e 58 foram vítimas de suicídio. Uma pessoa a cada 19 horas. Mata-se mais no Brasil do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte para LGBTs.

 

 

Não existe legislação que criminalize especificamente o preconceito contra essas pessoas. A contabilização das mortes incentivadas por LGBTfobia é um desafio, pois elas são registradas apenas como homicídio, sem que necessariamente se registre a motivações do crime. O mesmo ocorre com as agressões que essa comunidade pode sofrer.

 

A IMPORTÂNCIA DA RESISTÊNCIA

 

Um ambiente de trabalho em que o preconceito está presente pode ser encarado como uma possibilidade de colocar a LGBTfobia em pauta. André tem tentado incentivar o debate para que os colegas passem a moderar os comentários preconceituosos. “A gente está fazendo barulho quando alguma coisa acontece. Muito tempo atrás, na época da faculdade, eu já sofria preconceito e no colégio também. A gente se acuava. Eu não via as pessoas falarem, não via os adultos da minha época se posicionarem. Hoje a gente já vê. E as pessoas acabam percebendo que é possível, que eu, que alguém faça barulho sobre essas situações”, analisa.

 

Felipe acredita que a sua presença e seu posicionamento permitem que seus colegas possam entender e discutir questões que, de outra forma, não seriam propostas. “De uma maneira geral, as pessoas dialogam, mas existe um limite, elas dialogam até certo ponto”, explica. Segundo ele, o limite da discussão é a identidade de gênero e a transexualidade. Ele identifica uma dificuldade de compreender e, portanto, de falar sobre essas questões.

 

Por outro lado, Felipe reitera que nem sempre a aparente aceitação da homossexualidade se confirma na prática. “As pessoas também dizem que entendem, que aceitam, porque é bonito dizer que entendem, que aceitam e que estão apoiando a causa. Só que, no fundo, será que estão mesmo? Acho que isso é o pior. Não que eu desconfie dos meus colegas, das pessoas à minha volta, mas tu percebe nas pessoas de maneira geral que elas não querem discutir muito mais sobre isso”.

 

 

Por ser professora, Laura compreende a importância de uma referência de resistência. “No que tange aos alunos e alunas que são de uma orientação sexual diferente da heterossexual, acabo sendo uma força, uma mão estendida, porque não foi uma, nem duas vezes, nesses quase 15 anos, que alunas lésbicas e alunos gays estiveram sentados nessa sala aqui, buscando apoio, buscando uma palavra amiga, um conforto e uma orientação”, afirma Laura.

 

*O nome foi trocado para preservar a identidade da fonte e sua integridade em seu local de trabalho.

 

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