2018 por BOCA Jornalismo.

Tem saída? Livro discute democracia à brasileira

Divulgação do livro//Facebook

 

Desde o fim da ditadura militar e o início do processo de redemocratização - como foi chamado o período de transição do poder para as mãos de um presidente civil -, o modelo de governo adotado no Brasil passou a ser o da democracia representativa. No caso brasileiro, isso significa que, em um processo eleitoral, são definidos representantes que ocupam cargos nos Poderes Executivo e Legislativo por um mandato de quatro ou oito anos (no caso dos senadores).

 

Em um ano, o Poder Executivo e o Congresso Nacional viram uma queda de 45% e 30%, nos seus índices de confiança, respectivamente, segundo a pesquisa do Índice de Confiança na Justiça (IJCBrasil), produzida em 2017 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que compara a confiança dos brasileiros em diversas instituições. Enquanto isso, a crise na democracia brasileira tem sido uma discussão frequente não só em espaços acadêmicos e políticos, mas também nas mesas de bar, nas reuniões de família e em redes sociais.

 

Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil, publicado em 2017 pela Editora Zouk, questiona se, nesse contexto, é possível haver solução para a dita crise. Recusando as respostas populistas apontadas pelo debate polarizado, o livro não apresenta uma resposta única: existem múltiplas saídas. Todas elas, no entanto, passam por uma radicalização do projeto democrático, que traga para as instâncias de poder e decisão os grupos historicamente subalternizados.

 

 

No dia 7 de junho, três das quatro organizadoras estiveram em Santa Maria para o lançamento do livro. Winnie Bueno é ativista feminista negra, mestranda em Direito Público, coordenadora do projeto de educação feminista e anti-racista Emancipa Mulher, colunista no portal Justificando e vlogger no canal Preta Expressa. Joanna Burigo é mestre em Gênero, Mídia e Cultura, professora e coordenadora da Emancipa Mulher e fundadora da Casa da Mãe Joanna, um projeto feminista de comunicação e educação sobre gênero, além de escrever para CartaCapital. Rosana Pinheiro-Machado é  professora, pesquisadora, cientista social, antropóloga e colunista de CartaCapital. Atualmente, está baseada na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). As três dividiram a organização de Tem saída? com a socióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidad Complutense de Madrid, Esther Solano. Em entrevista ao BOCA Jornalismo, elas propõem soluções para a crise na democracia brasileira.

 

BOCA: O título do livro que vocês organizaram é uma pergunta. Na introdução, vocês falam em radicalização da democracia como uma das respostas a essa pergunta. O que é isso?

 

Winnie Bueno: Pra mim, considerando o processo de redemocratização do país e a não inserção das agendas do movimento social negro, uma radicalização da democracia passa, necessariamente, por rever como a gente chegou nessa democracia que está colocada hoje, num Estado democrático de direito que não atende as reivindicações e as pautas da maioria da população, especialmente das mulheres negras. Essas mulheres continuam marginalizadas e completamente ausentes da esfera pública. Quando você nega para essas pessoas a possibilidade de discutir e pautar quais são as políticas possíveis para você alcançar um Estado democrático, você não tem uma democracia, você tem um simulacro de democracia. Uma democracia que exclui a maioria da população não é uma democracia. Então, essa radicalização parte necessariamente da inserção dessas mulheres e de repensar essa estrutura que está colocada hoje.

 

Rosana Pinheiro-Machado: É pensar em formas de democracia radical, pensar dentro de perspectivas de democracia direta. A gente considera o livro [Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil] praticamente um ato de ação direta, a gente fura as bolhas. A gente considera esse livro parte do que a gente está chamando de performativo, isto é a democracia que a gente quer. A gente faz o livro dentro dessa perspectiva de uma democracia radical também no sentido de outras formas que não passem pelo establishment masculino, que possa ser pensado em uma perspectiva verdadeiramente do comum, popular e que englobe todas as vozes.

 

Joanna Burigo: Acho que tem dois artigos, especificamente, no livro que salientam isso de forma muito objetiva. Um é o da Suzane Jardim, em que ela questiona justamente o que significa defender uma democracia, sendo que esse simulacro da democracia que a Winnie se refere não é o real, ele é um ideário ficcional. Mais do que uma defesa da democracia, questionar quais são as formas democráticas nas quais a gente acredita e pelas quais a gente está batalhando. E um outro artigo é o da Daniela Mussi, que faz uma formulação teórica a partir do Stuart Hall [sociólogo jamaicano, um dos fundadores da perspectiva conhecida como Estudos Culturais], mas, no final, ela fala que tem algo que não mente, que são os números. E, se a gente for olhar pros números, por exemplo, os corpos que ocupam lugares de poder são corpos majoritários de homens brancos, enquanto os números dos índices de violência são majoritariamente de corpos negros. A radicalização da democracia passa por equilibrar esses números. [Passa por] abraçar a realidade e ver que, concretamente, os números nos mostram que essa defesa não pode ser desse simulacro e, sim, de algo que realmente contemple a materialidade das coisas. A radicalização democrática é a gente abraçar essa noção de realidade com um pouco mais de maturidade. É ter a maturidade para enfrentar a realidade, para tomar responsabilidade por esses números. Qualquer índice social vai nos demonstrar que a defesa da democracia conforme ela é feita hoje, por exemplo, pelo Temer é um delírio. A radicalização democrática passa pela realidade da democracia a respeito da qual a gente está batalhando.

          

BOCA: Vocês organizam um livro com várias mulheres notáveis e, poucos meses depois, uma dessas mulheres notáveis é assassinada. Como falar do Tem Saída? antes e depois da morte de Marielle Franco?

 

Winnie Bueno: A Marielle era uma figura desconhecida até ela ser assassinada. As pessoas não sabiam quem era Marielle. As pessoas que sabiam quem era Marielle são as pessoas que acompanham a política muito aprofundadamente e as pessoas que são do PSOL [Partido Socialismo e Liberdade, ao qual Marielle Franco era filiada]. Nacionalmente as pessoas não sabiam quem era Marielle, porque Marielle é uma mulher negra. E, por mais brilhante que ela seja, ela continua sendo uma mulher negra e ela só vai ser reconhecida quando ela é assassinada. Foi preciso um crime bárbaro, horrendo, ainda sem nenhum tipo de resposta, exatamente por ela ser uma mulher negra. Esse crime acontece porque ela é uma mulher negra. Porque todo o resto da esquerda carioca que está envolvida com denúncia de corrupção ou de milícia anda escoltada. A única pessoa que não tinha escolta era a Marielle e é por isso que ela é assassinada. Ela é assassinada porque existe uma imagem controladora sobre mulheres negras de que a gente não precisa de proteção.

 

Rosana Pinheiro-Machado: No lançamento no Rio, levantou uma pessoa e disse “a gente tem informação de que todo mundo sabia que a Marielle seria assassinada, porque todos os vereadores no Rio são assassinados por tais características”. Por que ela não tinha proteção? Bom, assassinaram a Marielle. Colocaram ela para vereadora sabendo que ela tinha o perfil de que seria assassinada, que ela tinha que ser colocada para deputada, para ter [direito] à guarda. Acho que a gente pode falar também do desafio nosso, de transformar o legado dela sem vender o livro.

 

Winnie Buenno: O depois é: “bom, o que que a gente faz com isso agora?”. Eu recebi a notícia do assassinato da Marielle, sentada no Rio Vermelho, em Salvador, no meio do Fórum Social Mundial. Ninguém estava esperando, ninguém acreditava. Meia hora depois do ocorrido. Se alguém de um partido de esquerda vai ser executado, esse alguém vai ser uma pessoa preta. Então, a forma como a gente lê o artigo da Marielle é outra depois, é outra completamente diferente. Na hora que a gente recebe o artigo - e isso a Joanna fez com mais afinco do que nós - Marielle está viva. Quando a gente vai ler esse artigo de novo depois da morte dela, esse artigo tem um outro sentido. Ela falava da importância da vida, porque isso é central para nós, isso é central para mulheres negras. A gente precisa viver porque a gente tá morrendo todos os dias. Quando eu falo que a gente está morrendo todos os dias, isso não é metafórico. Isso é real. As nossas mulheres morrem. Os números da Maria da Penha colocam isso muito explicitamente. Você tem uma política de proteção para mulheres que aumenta o número de mulheres negras que morrem.

 

Joanna Burigo: E não aumenta 2%. Protegidas pela Maria da Penha, o número de feminicídio de mulheres brancas desce em 10% e o número de feminicídio em mulheres negras aumenta em 54%.   

 

Winnie Buenno: Isso é muito grave, isso é muito sério. Para mim, o que muda é a necessidade de a gente não precisar mais esperar alguém morrer de maneira brutal para valorizar as vozes dessas mulheres.

 

Joanna Burigo: No momento que a Winnie me ligou, eram 10h da noite, logo depois do ocorrido, em pânico, para fazer um obituário na página do livro. Então, nesse momento, surgem duas questões que são muito importantes. A primeira delas era fazer essa marcação imediata da dor que atravessou todas nós no momento em que a gente soube da notícia. A gente queria que o livro servisse justamente como esse lugar, esse ponto central de reverberação da palavra dela. A nossa decisão de publicar o artigo dela de forma gratuita, disponível para todo mundo, foi feita exatamente da mesma forma que o livro foi feito, foi coordenada com as autoras. Então a ideia surgiu entre nós, a gente conversou com a editora Zouk, que tem direitos autorais, a editora Zouk imediatamente falou “sim, vamos”. Neste momento, a Winnie sugere conversar com as autoras sobretudo as mulheres negras. Todas responderam positivamente, então, para a gente, era muito importante transcender o livro como um produto. A voz da Marielle precisava estar disponível para quem quisesse entrar em contato com o pensamento dela, essa foi a primeira questão. A segunda questão que demorou umas duas semanas para a gente articular, e que eu articulei em um texto, depois de muita conversa com a Winnie, foi a comoção nacional que se deu com a morte da Marielle, que acabou gerando aquele Somos Todos Marielle. Eu acho que é muito importante dizer “não, não somos todos Marielle”. Porque Marielle não é uma exceção, Marielle é a regra. Marielle ser assassinada como figura pública é realmente um choque, não tem como a gente diminuir o impacto que a posição política que ela ocupava causou na comoção pública. No entanto, era muito importante para nós como organizadoras do livro lembrar a sociedade que Marielle é regra, o assassinato, a morte de mulheres negras é comum no país. O nosso cuidado como organizadoras do livro ao promover a palavra dela era justamente fazer essa lembrança. Sim, podemos todos nos comover com a morte da Marielle - e devemos, é um dever de toda a nação que a gente se comova com a morte da Marielle - mas a gente não pode projetar nessa imagem fantasmagórica da Marielle esse “somos todos” do ideal democrático. Porque ela ainda era um corpo no mundo. Essa questão do corpo é muito importante pra mim, porque o corpo é a concretude do real. A Marielle era uma mulher negra que foi assassinada. Ela acontecia de ocupar uma posição de destaque, mas esta é a realidade das mulheres negras. No momento em que mulheres brancas, sobretudo, de esquerda se colocam como “somos todos Marielle” ou “lute como uma Marielle”, a gente faz um “calma lá, gente”, porque não somos nós quem está realmente perdendo a vida por defender as coisas que a Marielle defendia. Como organizadores do livro, essas duas coisas eram muito importantes para a gente. Em síntese, que a voz dela transcendesse o livro como produto e ficasse disponível para todo mundo e que neste exercício fosse muito forte a lembrança de que não somos todos Marielle. É muito fácil projetar em um ídolo fantasmagórico esse ideal democrático, mas ela era um corpo no mundo e era um corpo de uma mulher negra. E este é o corpo neste país que realmente está mais suscetível e sujeito a violências e assassinato e isso não pode ser perdido.        

 

BOCA: Vocês organizaram o livro e são outras 25 autoras, todas mulheres. Mas esse não é um livro sobre feminismo, é um livro sobre política. Como é para vocês, enquanto mulheres, pesquisadoras, organizadoras do livro, carregando tudo o que vocês são, seus corpos, terem feito esse livro que não é sobre o que se espera que vocês escrevam?

 

Winnie Bueno: Pessoalmente, eu me incomodo um pouco com a fixação: estar fixada como alguém que fala de raça e gênero, embora eu faça e estude isso. Mas, ao mesmo tempo, nós estamos colocadas como mulheres que pensam política, de um jeito ou de outro. Eu, durante um período significativo de tempo, pela minha filiação político-partidária, e as gurias por outras razões. Só que mulheres organizando um livro que é sobre política e que não é sobre feminismo é um outro processo e é um processo que surgiu dessas inquietações. Rosana é uma pós-doutora, uma mulher que não é exatamente uma intelectual de gênero; Joanna é a única de nós que é especialista em gênero; eu estou começando uma trajetória acadêmica, estou no mestrado, mas sou mestranda em Direito. Tenho outras contribuições a fazer para além das contribuições sobre raça e gênero, embora eu ache que nesse país elas são centrais, tem outras coisas com as quais eu dialogo. Então, sair dessa fixação é muito importante. Especificamente para colocar para o mundo que a gente pode fazer. Acho que o livro serve pra isso. O livro, numa lista inicial, tinha mais de cem nomes, de cem mulheres muito qualificadas pra participar desse livro. Tem muito potencial de produção intelectual feita por mulheres mas não necessariamente sobre mulheres. Essas mulheres conseguiram pensar e escrever sobre política a partir de outros lugares. O briefing que elas receberam não foi “vocês têm que escrever sobre crise da democracia, falando sobre mulheres”.

 

Joanna Burigo: A Fhoutine Marie escreveu, por exemplo, sobre [a série de TV] Game of Thrones. Ela fez um trabalho de ciência política e mídia. Ela se utiliza da estrutura ficcional de Game of Thrones pra fazer uma analogia com relações de poder. Eu falo aqui como especialista de gênero, porque é isso o que eu estudo. Pra que serve o feminismo? Ele serve pra ficar circulando em si mesmo como epistemologia ou ele serve como práxis política? Eu acho que ele serve pras duas coisas. Eu acho que tem um elemento do feminismo que é uma construção epistemológica a respeito do tensionamento do debate acerca do que significa ser uma mulher no mundo, do que significa ser feminista, mas tem um outro lugar também que serve pra que a gente projete a nossa voz pra uma outra direção. Bastante da minha relação com feminismo e teoria de gênero não se encerra neles. Por exemplo, a minha entrada no feminismo, foi a partir de um estudo sobre sexualidade feminina. Não tem nada a ver com política. Qual é o denominador comum? O silenciamento das mulheres, seja no desejo ou na construção democrática, tem uma mesma origem, que é uma estrutura hegemônica patriarcal e branca. Qual é a função do feminismo? Existem muitas funções. Uma delas é ficar se tensionando em si mesmo pra promover o aprimoramento do debate, mas outra é conseguir fazer essas aplicações em outros lugares. Por exemplo, o livro não é sobre feminismo, mas todas as autoras se identificam como feministas. Então, ele é um livro feminista sobre política. O feminismo não precisa falar só sobre si mesmo. O feminismo pode servir como práxis pra que a gente faça uma outra projeção. Vejam o que está acontecendo no Chile, por exemplo, é uma ocupação feminista do espaço político. Como isso surge: nas ocupações estudantis reivindicando menos morosidade nas resoluções de assédio sexual nas universidades. Hoje, as mesmas mulheres que organizaram as ocupações estavam no parlamento cobrando o presidente atual em relação a gênero e em relação a uma educação não sexista. A gente precisa desconstruir essa ideia de que o feminismo só fala sobre si mesmo: ele existe pra que a gente fale de outras coisas, ele existe como perspectiva teórica, epistemológica e prática pra que a voz das mulheres ocupe outros lugares.

 

Rosana Pinheiro-Machado: Quando a gente começou a discutir o livro, era realmente uma resposta aos livros dos homens. A gente quis dizer “não conseguiram achar mulher porque estavam gripadas? A gente vai achar cem!”. Durante o processo do livro, a gente pediu pras autoras, a gente botou em negrito: “esse não é um livro sobre gênero. É um livro escrito por mulheres, mas isso vai ser segredo. A gente vai lançar, as pessoas vão olhar e vão ver que, sem querer, só tem mulher”. Ninguém faz isso com livros de homens. Cada uma aqui tem uma trajetória específica. Eu nunca estudei gênero, tenho muito constrangimento em falar sobre feminismo, é um assunto do qual eu não estou qualificada a falar, falo da minha experiência pessoal como professora mulher numa universidade, e também discutindo política. Só isso. Eu me descobri feminista há poucos anos. Nunca fui anti-feminista, mas isso não era uma questão pra mim. Claro, nem vou abrir o parêntese de todos os privilégios que me permitiram estar nesse lugar que me permitiu não pensar sobre gênero. A minha postura é muito mais de uma mulher branca que tenta falar do lugar universal, do masculino. Eu marcava muito isso, que esse livro tinha que ser de política. A Winnie também. A Joanna estava mais relaxada em relação a isso. Durante o processo, a gente mandou e-mail, a gente reforçou que não ia dizer em nenhum momento que era um livro de mulheres, que era para as pessoas verem e se darem conta. Isso era um pacto. Vocês são as primeiras pessoas pra quem a gente está falando isso. Por que era pra ser assim: “só tem mulher?” “é, a gente convidou um homem, mas ele estava gripado”. A gente recebeu muitos textos de mulheres brancas - Márcia Tiburi, Tatiana Roque - falando de um lugar político universal, sobre neoliberalismo, sobre subjetividade, que é um lugar que não discute questões nem de gênero, nem de raça. A maioria dos textos que nós recebemos de mulheres negras discutia raça e gênero. E eu pensei “a gente tem metade do livro falando desse lugar universal, masculino, falando de coisas gerais, e a outra metade falando de gênero e raça, das mulheres negras”. Eu e a Joanna discutimos e a gente entendeu que a crise na política é essa e que a solução pra crise democrática é essa. É bem interessante pensar nos processos. Pra mim ficou muito clara uma desigualdade na questão de que algumas mulheres ocupam esse lugar masculino do saber, que, na verdade, é uma ilusão. Elas não estão nesse lugar universal, do Safatle e do Marcos Nobre. Mas falam e pleiteiam esse lugar. Ficou muito evidente uma certa desigualdade, porque o poder hegemônico se dá a partir do universal masculino. Ao mesmo tempo, é importante estar nesses lugares hegemônicos e que pautam a política de uma maneira que as pessoas compreendem. E esse livro é um meio-termo: ele está falando de uma política universal, interseccionada, racializada, e que passa e consegue trazer todos esses papéis.

 

Joanna Burigo: Esse momento que a Rosana descreveu, de ver essa diferença gritante, não me preocupou, porque, como cientistas sociais, nós temos que ver os padrões. Se todas essas mulheres estão mencionando que esses são assuntos fundamentais e que eles não podem não ser debatidos, a gente também não pode sucumbir a essa narrativa do hegemônico desencarnado.

 

Rosana Pinheiro-Machado: Falar sobre isso no livro era a saída. A crise e a saída.

 

Joanna Burigo: O hegemônico é desencarnado, ele não é corpóreo. Ele é o ideal da razão ocidental, como se essa razão não tivesse corpo. E essa razão é de corpos masculinos e brancos. No momento que um debate político insere corpos femininos e negros como questão fundamental do debate, a gente precisa aceitar isso como questão fundamental do debate. Essa separação da política de identidade da política me dá vontade de rir, ela é ridícula, porque é como se existisse um holograma desencarnado de um ideal. E não existe.

 

Winnie Bueno: É dominação ideológica pura.

 

Rosana Pinheiro-Machado: Eu acho importante também mencionar que essa pergunta só pode ser respondida levando em conta a diferença imensa de trajetória de cada uma de nós e que cada uma responde essa questão de um lugar e de uma maneira muito diferente. Uma mulher negra que estuda gênero e raça, uma mulher que estuda gênero e uma mulher que não estuda nem gênero, nem raça. E isso é a premissa do livro.

 

Joanna Burigo: E não é essa a democracia que a gente deseja? Que a gente consiga estabelecer diálogo - e pra mim diálogo é método - entre essas perspectivas diferentes. Se a gente vai partir do ponto de que a gente quer uma democracia verdadeiramente representativa, a gente precisa estar preparado para estas dissidências. Quando a gente está concordando, é um dando tapinha nas costas do outro, isso não é diálogo. É essa a democracia representativa que a gente quer: eu venho com a minha perspectiva, você vem com a sua perspectiva e a gente sai os dois com a nossa perspectiva. Tem um livro, que é o livro da minha vida, é um livro infantil, da Ruth Rocha, que chama Nicolau tinha uma ideia. A edição original do Nicolau tinha uma ideia é pura abstração. Nicolau é um cara que tem o cabelo azul e ele vai andando pela vida e encontra com as pessoas. A ideia do Nicolau é representada por um balãozinho que tem um arco-íris. Aí, o Nicolau conversa com o Mateus. A ideia do Mateus é representada por um balãozinho que tem uma agulha. Aí, o Nicolau e o Mateus conversam e sai o Nicolau com um arco-íris e uma agulha e o Mateus com um arco-íris e uma agulha. Ninguém precisa sair convencido da agulha ou convencido do arco-íris. O livro [Tem saída?] prefigura essa democracia na qual a gente acredita, na qual todo mundo tem uma perspectiva e a gente vai tentar achar um denominador comum. Dentro da própria organização [do livro] existiram momentos de “mas será que é isso?” e ninguém chegou e disse “vou sair desse livro porque não estou concordando”. A própria decisão de publicar o artigo da Marielle. A Zouk achava uma boa ideia. A gente só se convenceu depois que todas as autoras negras concordaram. Quando a gente fala que o livro é um dispositivo, é porque ele é um dispositivo de estudo pras pessoas, mas, pra nós, ele também foi um dispositivo dessa democracia que a gente quer. Pra mim, pessoalmente, o processo é mais importante do que o livro. Não é que o conteúdo não seja importante. Eu chorei copiosamente em São Paulo, porque todas as autoras falaram do processo, que era onde a minha energia estava investida. Então, se um processo desses, que é pequeno, consegue operar na forma democrática que a gente acredita, tem saída.

 

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