2018 por BOCA Jornalismo.

 

Quando pensamos nas pessoas LGBT de Santa Maria, acabamos pensando também em opções de lazer. Opções de lazer? Não. Estamos falando de festa mesmo. Santa Maria, uma cidade jovem e universitária, é um espaço fértil para festas focadas no público LGBT. Mesmo os ambientes que não sejam nichados muitas vezes acabam recebendo um grande público LGBT e tem de se preocupar com, por exemplo, as opressões que os frequentadores podem vir a sofrer. Além da necessidade de agradar à diversidade de gostos desse público em específico. É nesse mundo múltiplo, em que estereótipos são confirmados e negados a todo o momento, que a equipe do BOCA Jornalismo resolveu mergulhar. Conversamos com as pessoas responsáveis pela organização de festas em três ambientes que costumam (ou costumavam) receber uma forte presença de pessoas LGBTs. O foco é descobrir como essas festas surgiram e criaram um cenário propício para esse público. Acredite: não é só glitter, purpurina e Madonna.


 

MACONDO LUGAR

 

Macondo é uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. Diferente do que escreveu Gabriel García Márquez, em Santa Maria, na rua Serafim Valandro, número 643, há outro Macondo. Em 2005, seis amigos abriam a boate que tem o nome inspirado na pequena e excêntrica cidade criada pelo escritor colombiano no livro Cem Anos de Solidão. A casa verde e cheia de grafites coloridos teve sua primeira festa organizada pelos alunos do curso de Artes Cênicas como recepção dos calouros. No início, o Macondo Lugar funcionava como um espaço alternativo, que possibilitava às bandas locais de rock um local para a divulgação de seus trabalhos. Foi, no entanto, com a criação da festa Clube da Criança Junkie que o pop entrou em cena no Lugar, era a única festa que tocava músicas pop dos anos de 1980.

 

Macondo Lugar, a casa verde e repleta de grafites é um espaço conhecido entre os jovens. Foto: Leandra Cruber // Boca Jornalismo

 

Pablo Canalles é amante de música pop e eletrônica. Tem 36 anos, 19 dos quais passou em Santa Maria. Hoje, é professor na Universidade Federal de Santa Maria e DJ. Há 10 anos, no dia 31 de março de 2008, encontrou-se com Atílio Alencar na lancheria Imperial. Entre comidas e conversas, surgiu a ideia de fazer uma festa em que só tocasse "música chiclete", que tocasse de tudo, em especial, o pop. O slogan criado por eles foi: “a festa do chiclete, a festa que gruda em você”. Entre gargalhadas,  Atílio propôs que a festa tivesse um nome em inglês, já que o pop teve sua origem nos Estados Unidos. A partir disso, surgiu o nome Bubble Gum [Goma de Mascar]. Assim, nasceu a primeira festa assumidamente LGBT. Ao todo, foram  60 pessoas, em um espaço que cabe 321.

 

Cada festa é pensada de maneira singular: o tema, a decoração, a playlist, a forma como as músicas encaixam e quais DJs vão tocar. Tudo faz parte da narrativa criada por Pablo. Se, por um lado, conceber uma festa é um trabalho de direção de arte, ser DJ é  um trabalho de atuação, é preciso estar atento às emoções do público.

 

Antes da Bubble Gum e de outras festas voltadas ao público LGBT existirem, Santa Maria já possuía um apanhado de festas e lugares LGBT, mas eram de difícil acesso para uma parte da população. No centro, Pablo recorda: "o Sanduba Café Bistrô, tinha uma festa LGBT que acontecia dentro da Galeria Gaiger. Outro lugar era o Fiction, ficava ao lado do churrasquinho Miau, em um subsolo". As festas LGBT da cidade estavam em universo underground, em que ninguém podia ser visto.

 

 

"O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo"

(trecho do livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez)

 

 

Por conta disso, a Bubble Gum se tornou um espaço importante na cidade, já que foi a primeira vez que havia um festa LGBT no centro.  Com o tempo, as festas foram crescendo e o público foi se modificando. Em 2013, após a tragédia da boate Kiss, um dos únicos espaços que continuaram a funcionar em Santa Maria foi o Macondo Lugar. Tudo mudou naquele período: pessoas que nunca tinham ido o Macondo passaram a frequentar esse espaço. Nesse novo ambiente, o interesse do público, por outros gêneros musicais - como o funk - surgiu, fazendo com que a atmosfera em torno do Macondo também se transformasse.

 

 

"Dois namorados felizes na multidão,  até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousante e profundo que a felicidade arrebatada e momentânea das suas noites secretas"

(trecho do livro Cem Anos de Solidão)

 

 

Para Pablo espaços voltados para a comunidade LGBT são importantes, mas " é como que tapar o sol com a peneira. A gente deveria começar a conscientizar a população que todos os lugares são lugares para todas as pessoas. O dia que a gente conseguir fazer esse exercício de empatia, os lugares vão ser voltados para todas as pessoas. Mas eu também acho importante que as pessoas levantem as bandeiras, porque ser LGBT não tem a ver com a vida sexual das pessoas, tem a ver com quem eu sou frente ao mundo."

 

BARCELONA

 

O nome remete à cidade catalã, mas, apesar da  semelhança na efervescência de cores e sentidos, o Barcelona que aqui tratamos ficava em um sobrado na Rua Barão do Triunfo, quase na esquina com a Avenida Presidente Vargas. O Barcelona Bar & Danceteria foi fundado por dois amigos, no já longínquo março de 2009. No mesmo ano, os dois romperam a sociedade, e Ângela Vieira, a tia de um deles, assumiu o negócio. O funcionamento do empreendimento era de dar orgulho aos mais tradicionais: Ângela, seu esposo, sua irmã e seu sobrinho organizavam tudo como uma grande família. Talvez duas coisas não agradassem tanto aos conservadores aqui citados: o intenso consumo de drogas e o público, quase unicamente LGBT.

 

Ângela diz que até tentou fugir do rótulo de “boate gay”: “a gente queria ser um bar de todos os públicos, mas não foi assim que aconteceu, o nosso público era de lésbicas, gays e transexuais”, conta. Segundo ela, o que atraia o público era a música do segundo piso do local, focada em ritmos eletrônicos e música pop. O primeiro andar era destinado à música ao vivo. Uma piscina completava o ambiente alucinante. Claro, o espaço livre de preconceitos, montado pela dedicada equipe, ajudou muito nesse processo. O Barcelona foi um dos primeiros bares onde mulheres transexuais podiam frequentar o banheiro feminino, por exemplo. A casa abria apenas nas sextas e sábados (e alguns feriados), sempre com lotação máxima.

 

Driblar a rigidez musical do ambiente não era fácil. Marcelo Cabala, DJ de música brasileira desde 2002, teve de se esforçar para que os donos permitissem, em 2010, a criação da Brasil de Todos os Sons, sua festa de música brasileira. A razão seria a de que o samba seria um ritmo considerado um ritmo com pouco apelo para o público LGBGT. Cabala relata, inclusive, que sentia relutância das pessoas que não frequentavam o Barcelona quando ele as convidava para as festas: “Havia um certo preconceito e deboche de conhecidos, já que a boate é muito relacionada ao público LGBT”. Ao ser criada, a festa acabou atraindo outros públicos e ampliando o repertório do Barcelona. Outra festa responsável por isso foi o Clube da Criança Junkie, focada em música dos anos 80. A insondável festa, com seus cartazes propositalmente exagerados começou no Macondo Lugar, mudando-se para o Barcelona depois de negociações frustradas com a antiga casa.

 

 Focada na música dos anos 80, o Clube da Criança Junkie era uma festa marcada

por seus cartazes irreverentes. Foto: Divulgação

 

Cabala relata também certo preconceito de classe em relação ao público da Casa. Segundo ele, mesmo dentro da comunidade LGBT, havia relutância em se frequentar o espaço, já que seu público-alvo seria formado por gay mais “chinelões”, ou seja, pessoas mais pobres, que estariam - supostamente - mais condicionadas à violência e à confusão. Esse preconceito pode muito bem ser visto nos comentários dessa postagem do blog De Mau Humor, localizado através do nosso processo de pesquisa. A postagem de 2009 faz uma breve (e positiva) avaliação do bar. Nos comentários todo o tipo de coisa apareceu: uma menina procurando o terceiro membro para um ménage a trois, um anônimo procurando o endereço de sauna gay em Santa Maria, um homem deixando o seu celular para que a moça que ele avistou na noite anterior o ligasse e etc. Mas o que chama a atenção são os comentários estigmatizando o local. Um Anônimo diz: “Essa merda e para GLS, pura sacanagem e ainda rola briga, com facão e tudo”. Outro comenta: “Se é pra ir pra levar canivetaço ou facada de sapatão no meio das brigas que SEMPRE dão, melhor não ir. Preso (sic) pela minha segurança”. Esses comentários mostram que o Barcelona não sofria apenas preconceito ser um espaço LGBT, mas também ser um espaço popular.

 

Ângela e sua irmã tiveram de fechar o espaço em 2013. A razão é bem conhecida por todos os santa-marienses: com a tragédia da Boate Kiss, ficou muito caro realizar todas as reformas necessárias na nova política de fiscalização de casas noturnas. Ainda mais em um espaço alugado. Afinal, foram as insuficiências estruturais que causaram a tragédia. A noite de Santa Maria teve de se adaptar a essa nova realidade. Apesar de sentir saudades, Angela comenta: “Santa Maria não tem mais Boate Gay porque não precisa mais ter. Os lugares hoje respeitam bem mais”. Marcelo Cabala é mais nostálgico: “Sinto falta desses lugares que fecham. Era um espaço para tocar música diferente”.

 

BOATE DO DCE

 

Outro espaço onde a comunidade LGBT de Santa Maria se faz presente são as festas realizadas no campus da UFSM, organizadas pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), pela Diretoria da Casa do Estudante Universitário (CEU) ou pela União Universitária. Essas festas já são conhecidas e aguardadas na abertura de cada semestre letivo.

 

A proposta é um pouco diferente das demais boates da cidade: o rock – estilo que foi o precursor das boates do DCE – segue presente com bandas que são, na maioria das vezes, desconhecidas dos frequentadores da festa. Porém, hoje, este ritmo divide espaço com outros estilos, como rap e funk, que na visão do DCE são marginalizados pelo mercado noturno santa-mariense e têm nas festas do campus seu lugar.

 

Para que todos aproveitem a festa ao máximo e se mantenham seguros até o primeiro Bombeiros/Faixa Velha chegar à parada, quase junto com o sol da manhã, o DCE promove ações de conscientização durante as festas. Segundo a coordenadora-geral do DCE, Saritha Denardi, o membros da gestão estabelecem alguns mecanismos de defesa para esses casos: “Há várias formas de conscientizar durante uma festa. Entre essas formas temos colado cartazes ao redor da copa, do palco e dos banheiros com gritos de ordem ou frases que demarcam a necessidade de respeitar o outro”. Além disso há na organização sempre  duas ou três pessoas da organização (em sua maioria, mulheres) circulando pela festa, preparadas para lidar com qualquer caso de assédio, violência e preconceito. Os membros da gestão estão a postos para acionar a segurança caso visualizem algo.

 

 Cartaz de divulgação da Boate do DCE. Foto: Divulgação

 

Saritha Denardi conta ainda que, se ainda assim alguma situação de violência acontecer, o DCE tem preparo para identificar e resolver o possível caso. Por meio de redes sociais, a organização busca entrar em contato e receber mais informações das pessoas que fazem as denúncia, além de oferecer o canal como diálogo, dando seguimento ao processo através de ouvidorias, do Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e outros órgãos que precisem ser acionados. “Dependendo do ato a gente também vai fazer com que os demais estudantes se reúnam para conversar e traçar linhas de ação que promovam a conscientização a respeito do combate às opressões”.

 

Todo esse trabalho do DCE buscando combater a LGBTfobia é aprovado na prática pelos estudantes da universidade e demais assíduos das festas no campus. Antônio Buere, estudante de Produção Editorial, por exemplo, frequentou diversas boates santa-marienses desde que chegou na cidade em 2015, mas, com o passar dos semestres, optou por frequentar mais barzinhos e as festas do campus. “Essas festas na UFSM agregarem mais o pessoal do ambiente universitário e essa galera já possui uma mente mais preparada para lidar com as várias camadas da diversidade”, conta.

 

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