• Guilherme Trucollo e Leonardo Catto

ORECO: 60 anos de um santa-mariense campeão mundial

Cerca de 50 mil pessoas assistiam o Brasil vencer a Suécia por 4 a 2 na final do mundial de 1958, em Estocolmo na Suécia, quando a bola foi alçada na área, Pelé marcou de cabeça o seu sexto gol naquela edição que fecharia o placar da final. Além das 50 mil que assistiam o jogo nas arquibancadas, no banco brasileiro, estava sentado Valdemar Rodrigues Martins. Oreco, o santa-mariense que saiu da Boca do Monte para participar do primeiro elenco brasileiro campeão mundial.

Valdemar Rodrigues Martins, ou apenas Oreco, nasceu no dia 13 de junho de 1932, na Rua dos Andradas, número 1424 (hoje não há mais sua antiga casa). O menino de Santa Maria literalmente ganharia o mundo anos mais tarde. Ele é o único santa-mariense a ter conquistado uma Copa do Mundo, o jogador foi campeão em 1958 – o primeiro título brasileiro. Canhoto e de um drible marcante, Oreco tinha como posição de origem a lateral esquerda, mas também jogou de quarto zagueiro, na lateral direita e até mesmo se aventurou algumas vezes no ataque.

Seu Waldemar – pai de Oreco – e Dona Eva tiveram seis filhos. Os irmãos mais velhos de Valdemar foram os responsáveis pelo apelido. Com seus sete anos, o menino magrinho era semelhante ao personagem Reco-Reco, que junto de Bolão e Azeitona, era personagem principal de um quadrinho da época. De “Reco-Reco” passou a ser “Reco” e, então, “Oreco”.

O INÍCIO

A primeira vez que pisou em um gramado fardado foi aos 13 anos com as cores do Esporte Clube Ideal, um antigo clube amador da cidade. Atuou ao lado de Tarica, que viria a ser o maior artilheiro do Internacional de Santa Maria, vizinho e grande amigo que o futebol deu a Oreco. Jogou no Ideal entre 1945 e 1948. Em depoimento a Cândido Otto da Luz, autor do livro “Registros do Futebol Santa-Mariense - volume 1 - ORECO”, um dos fundadores do Ideal, Carlos Lopes, falou sobre o jovem como o primeiro negro a ser aceito no time:

"Ele lutou muito para entrar no Ideal, pois havia preconceito racial. A amizade com outros jogadores fez com que Oreco fosse se aproximando, e com o tempo, aceito no time, contou o desportista."

No E.C. Ideal, Oreco é o último abaixado | Foto: Arquivo da Família/Cândido Otto da Luz

O destaque no Ideal chamou a atenção dos clubes profissionais da cidade. Oreco já estava autorizado pelo pai e com inscrição assinada no Riograndense, mas o presidente do Esporte Clube Internacional, o coronel Annibal Tiradentes de Araújo Dória articulou um chapéu (quando um time atravessa uma negociação e acaba levando o atleta.) no rival. Antes de se profissionalizar em Santa Maria, Oreco quase foi para o Grêmio no ano de 1947, após se destacar em um amistoso em Porto Alegre. Ele despertou o interesse do clube tricolor, mas o racismo naquela época ainda se fazia presente no Bairro da Azenha.

"Foi uma das maiores aquisições feitas pelo colorado nos últimos tempos, uma vez que o jovem craque é possuidor de invejável classe"

(Jornal A Razão, 1949)*

Oreco assinou com o Riograndense, mas acabou indo para o Inter-SM. | Imagem: Cândido Otto da Luz

INTERNACIONAL DE SANTA MARIA

Seus primeiros toques profissionais na bola foram pelo Internacional de Santa Maria. Era tido como uma grande promessa do futebol gaúcho. Estreou pelo Alvirrubro no dia 10 de abril de 1949. Segundo Cândido Otto da Luz, em entrevista, foi eleito melhor jogador da partida pela crônica esportiva do jornal A Razão em todos os seus 28 jogos pelo Internacional. Apesar do destaque individual, não impediu que o número de derrotas fosse expressivo: 13 partidas perdidas, dois empates e também 13 vitórias. Os triunfos, embora igual ao número de derrotas, foram decisivos; o ano em que defendeu o Alvirrubro foi o suficiente para um título: o Citadino de Profissionais de 1949.

Internacional de Santa Maria, em 1949. Oreco é o terceiro em pé. | Foto: Cândido Otto da Luz

INTERNACIONAL

O seu destino estava traçado para ser o Internacional de Porto Alegre. Foi convidado pelo Inter para um amistoso contra o São José. Após o jogo, o menino encantou o colorado que rapidamente fez contato para ter o lateral em seu elenco. Não fosse esse amistoso contra o Zequinha, o prodígio do futebol gaúcho quase teria ido ao Rio de Janeiro para defender o Fluminense.

Registro de profissionalização do atleta Oreco. | Foto: Departamento de futebol do Internacional

O passe do jogador para trocar o Internacional de Santa Maria pelo de Porto Alegre? Cinco mil cruzeiros, além da construção de um muro na Baixada Melancólica. A história contada por Cid Pinheiro Cabral na revista “História e Estórias do Futebol Gaúcho” fala sobre um temporal na cidade que desmoronou o muro do estádio. O interesse do Inter de Porto Alegre no jogador e a falta de dinheiro fizeram o Coronel Dória – presidente do time de Santa Maria e torcedor do time de Porto Alegre, propor a construção em troca do passe.

“Começou assim – trocado por um muro – a carreira no futebol de um dos mais notáveis valores técnicos que vi emergir no Rio Grande do Sul”.

(Cid Pinheiro Cabral | História e Estória do Futebol Gaúcho)

Internacional campeão gaúcho de 1955. Oreco é o primeiro em pé. | Foto: Cândido Otto da Luz

No seu segundo ano de Inter de Porto Alegre, Oreco foi diagnosticado com uma lesão cardíaca. Apesar disso, o diretor do clube Abelard Jacques Noronha e o treinador Teté apoiaram o jovem a continuar no futebol. O susto foi pequeno para atrapalhar o momento que Oreco vivia na capital. Em Porto Alegre foram sete anos e cinco campeonatos gaúchos conquistados e a participação no Pan-americano de 1956, em que a Seleção Brasileira – representada por um selecionado de jogadores gaúchos – se tornou campeã enfrentando a Argentina na final. Naquela época, ser jogador de futebol fora do eixo Rio-São Paulo e ter destaque nacional era uma tarefa praticamente impossível. A Seleção Brasileira só foi representada por gaúchos devido ao andamento dos campeonatos carioca e paulista.

Elenco brasileiro campeão do Pan-Americano de 1956 | Foto: Revista do Grêmio, 1970

Os anos de Inter renderam sua participação na escalação do “melhor Internacional de todos os tempos”, feita pela Revista Placar em 1982.

"Tratava-se de um jogador clássico e versátil. No Inter costumava partir para o apoio ao ataque, quando isso era considerado irresponsabilidade".

(Revista Placar, 1982)*

Foi quando jogava no Internacional que conheceu sua futura esposa, Maria Eloá Soares Martins, em 1952. Casaram-se em 1954. O fruto desse matrimônio foram dois filhos: Valdemar Rodrigues Martins Júnior e Valdir Rodrigues Martins. Dona Eloá faleceu nos anos 1990, já viúva, em Minas Gerais. No início da década, Valdemar Júnior morava na capital mineira, enquanto Valdir residia em São Paulo.

Oreco e Maria Eloá em seu casamento | Foto: Arquivo da família/Cândido Otto da Luz

"Oreco tem verdadeira adoração por crianças. Por isso aproveita todas as horas livres para passá-las em casa, ao lado de seus herdeiros Valdemar Júnior e Valdir. Para distrair os meninos ele chega a improvisar “peladas”.

(Revista do Esporte - RJ)

Oreco e seus filhos após voltar do México | Foto: Arquivo da família/Cândido Otto da Luz

Depois do Pan-Americano virou destaque no centro do país. A Portuguesa tinha interesse no atleta e ofereceu 200 mil cruzeiros de luvas, mas o Corinthians cobriu a propostas, pagando 360 mil cruzeiros para o atleta se juntar ao time do Parque São Jorge.

CORINTHIANS

Pelo clube paulista fez 409 jogos, obteve 225 vitórias, 88 empates e 96 derrotas, a sua estreia foi no monumento sagrado do futebol, no Maracanã; dia 28/04/1957. A derrota por 4x1 para o América-RJ pela Taça Rio São Paulo, marcou o primeiro jogo do santa-mariense no clube paulista.

Não ganhou nenhum título paulista em sua passagem pelo Corinthians – passou pelo clube em uma das suas maiores secas da história. Os únicos festejos coletivos foram de menor expressão: o Torneio de Brasília (1958) e a Taça São Paulo (1962). Porém, marcou três gols. Dois deles em seu primeiro ano no clube, no dia 25 de Julho de 1957, no Parque São Jorge, empatando a partida contra o XV de Jaú, válida pelo Campeonato Paulista. O segundo gol foi em 30 de outubro do mesmo ano, garantindo a vitória por 1x0 contra o Jabaquara, também pelo Campeonato Paulista.

"Considerado por muitos corintianos como craque-modelo, Oreco é chamado em certos círculos da torcida do Corinthians de gaúcho bom. E ele se mostrar justamente envaidecido por merecer esse tratamento carinhoso".

(Revista dos Esportes - RJ | Ano desconhecido)

O terceiro gol de Oreco em São Paulo demorou um pouco, foi apenas em 08 de abril de 1965 – pouco antes do santa-mariense se despedir do Corinthians. Em um amistoso contra a Seleção do Tietê, abrindo o placar no jogo que acabou com uma vitória por 3x1. A despedida foi 12 dias depois. Paralelo ao Timão, ainda trabalhou no Departamento de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo, o que lhe garantiu a aposentadoria.

"Fora do futebol, Oreco é funcionário público. Mas não é daqueles que só assinam o ponto não. Comparece com assiduidade à repartição dando provas de que sabe e gosta de cumprir os seus deveres."

(Revista dos Esportes - RJ | Ano desconhecido)

Corinthians em 1963. Oreco é o terceiro em pé | Foto: Cândido Otto da Luz

No mesmo ano em que chegou no Corinthians, Oreco disputou a Copa Rocca (hoje, Superclássico das Américas). O primeiro jogo da disputa foi vencido pela Argentina por 2 a 1. Oreco estava atuando na lateral esquerda, quando Pelé entrou na partida – estreando pela Seleção – e marcou o único gol brasileiro no jogo. Na segunda partida, 2 a 0 para o Brasil. Mais um título de Oreco pela Canarinho.

O MUNDIAL DE 1958

Se Oreco seguiria sendo convocado caso não tivesse ido para o Corinthians, não há como saber. O fato é que, em São Paulo, os holofotes da Seleção brilhavam mais. Além das cinco partidas pelo Pan-Americano, foram outras seis (quatro vitórias, um empate e uma derrota). Na Copa de 1958, foi o único gaúcho no elenco, consagrando-se campeão mesmo sem entrar em campo – era reserva de Nilton Santos.

"Naqueles tempos as dificuldades de um jogador aqui do sul integrar a seleção brasileira eram muitas. Mas Oreco foi um jogador fora de série, e sou capaz de me atrever a dizer uma coisa: acho que futebol o Oreco jogava mais que Nilton Santos. A vantagem de Nilton Santos era jogar no Rio de Janeiro."

(Cláudio Cabral, jornalista)

“Sinto-me orgulhoso em ver o meu filho entre os representantes do Brasil na Suécia”

(Pai de Oreco para o Jornal do Dia - RS)

Oreco não entrou em campo pela Seleção no Mundial em nenhuma partida. Ficou no banco ao lado de Castilhos, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Moacir, Dino Sani, Joel, Mazola, Dida e Pepe. Assistiu o Brasil empatar com a Inglaterra e ganhar de Áustria, União Soviética, País de Gales, França e Suécia. De forma alguma, isso desmerece sua conquista como parte do elenco brasileiro.

Oreco com a Taça Jules Rimet, do Mundial de 1958 | Foto: Cândido Otto da Luz.

Em 1962, quase todos esses reservas atuaram no bicampeonato da Seleção no Chile. Oreco não foi convocado apenas por uma lesão, que o cortou.

"Se eu não foi convocado é porque não estava em boa forma técnica e, assim, não poderia servir ao escrete. Mas podem ter certeza que, como jogador e torcedor, eu me senti como se estivesse no Chile."

(Oreco para a Revista dos Esportes, 1963)*

MÉXICO, COLÔMBIA E ESTADOS UNIDOS

Depois de deixar o Corinthians em 1965, Oreco rumou para o Millionarios, da Colômbia, e venceu o campeonato nacional. Nos anos de 1967 e 1968, atuou mais discretamente no futebol mexicano, defendendo o Toluca. No país mais ao norte, comprou um Mustang, mas o carro se tornou um empecilho quando ele quis voltar para o Brasil. Isso porque o veículo não poderia ser vendido em território mexicano, era necessário que Oreco negociasse em terras ianques.

Rumou para os Estados Unidos com fim de vender o carro. Na passagem por Dallas, encontrou um ex-jogador do São Paulo, Juracyr, que o convenceu de atuar juntamente dele no clube da cidade. Oreco aceitou ficar por seis meses. A família também se mudou para os Estados Unidos. Apenas sete anos depois ele retornaria ao Brasil com um saldo de um título da liga dos Estados Unidos (1971) e como o primeiro brasileiro a criar uma escolinha de futebol no país. Em 1975, vendeu a escolinha e retornou ao país natal.

O FIM

O final de sua carreira profissional, pode se dizer, aconteceu quando deixou o Toluca. O futebol, entretanto, jamais deixou a rotina de Oreco, mesmo que no amador estadunidense. De volta ao Brasil, ele ingressou na equipe de masters do Millionarios, que fazia exibições pelo território nacional. Jogou recreativamente ao lado de Garrincha, Djalma Santos, Pedro Rocha, Pepe e Joel.

Time master do Millionarios. Oreco é o último da esquerda para a direita | Foto: Arquivo da Família/Cândido Otto da Luz

Em uma dessas exibições, dia 3 de abril de 1985, no Estádio de Futebol da Associação Atlética Ituveravense, o coração, que já em 1951 indicava problemas, enfartou. Na hora, foi socorrido nos braços do companheiro Pedro Rocha, mas não houve nada a ser feito.

"Olha, a meta de um jogador de futebol é a seleção. Eu acredito que todo o jogador quer chegar ao máximo. A emoção é muito grande, maior ainda quando tu tira um campeonato mundial. Aí o sonho é todo realizado."

(Oreco, em entrevista à Rádio Capital de São Paulo)*

Oreco viveu um sonho. Disse que o futebol lhe rendeu amizades e um emprego público. Do futebol viveu e, jogando futebol, foi convocado para os céus.

"O jogador morre duas vezes. Uma quando para de jogar e outra quando Deus convoca."

(Tarica, em depoimento a Cândido Otto da Luz)*

Oreco e Tarica, na primeira vez em que Oreco enfrentou o Inter-SM, defendendo o Inter de Porto Alegre | Foto: Arquivo de Luiz Fernando Abelin (Tarica)/Cândido Otto da Luz

*Trechos extraídos do livro Registros do Futebol Santa-Mariense - volume 1 - ORECO

Dados e reportagens de acervo retirados dos projetos Almanaque Corintiano e Memória Colorada.