2018 por BOCA Jornalismo.

O Grupo H em Santa Maria - Parte I: A noite terrível acabou

Tido como o Grupo mais fraco tecnicamente da Copa, o Grupo H era, sem dúvida, o mais multicultural e diverso do mundial. Colômbia, Japão, Polônia e Senegal e enfrentaram em seis confrontos eletrizantes, onde a vaga não esteve garantida em nenhum momento. Aqui em Santa Maria, algumas pessoas viveram o Grupo H de maneira diferente: são os migrantes e descendentes desses povos, que fizeram uso da Copa para congregar com suas culturas de origem.

 

Em uma reportagem de duas partes, o BOCA foi atrás dessas pessoas, procurando ver como elas sentiram a Copa em Santa Maria.

 

“Cesó la horrible noche

La libertad sublime

Derrama las auroras

De su invencible luz

La humanidad entera

Que entre cadenas gime

Comprende las palavras

Del que murió en La Cruz”

 

Himno Nacional de Colombia – Orestes Sindici

  

 

O domingo chuvoso prenunciava o longo período em que os santa-marienses seriam privados de sol. O dia 24 de junho se encaminhava para os seus finalmentes na Vila Maringá, zona leste de Santa Maria. O repórter, que confessa nunca ter ido ao bairro, se depara com mais uma vizinhança em que a terrível pavimentação nada combina com a formosura dos lares. Algo típico de uma cidade que gosta de fazer seus moradores se balançarem nos trajetos. Aquelas cercanias tão próprias de Santa Maria, entretanto, falavam em outros sotaques. Ou melhor, hablavam. Durante algumas horas, a Vila Maringá não mais pertencia a terras brasileiras. Tornava-se um bairro de Cali, uma villa em Bogotá, uma quadra de Ibague. Cheirava a café, tempero e alegria. Cheirava a Colômbia.

 

O grupo de camisas amarelas se concentrava na casa de Daniel Moreno, 51 anos. A concentração ao jogo não permitia melhores cumprimentos ao repórter. A Colômbia havia perdido o primeiro jogo (contra o Japão, por 2x1). Em um grupo parelho, perder aquele segundo jogo para a Polônia poderia significar a morte da boa geração colombiana no mundial. O clima de tensão estava nos rostos de cada um dos quinze adultos ali presentes, dez colombianos e cinco brasileiros. O grupo se divide, no geral, em casais. Dentre os seis casais presentes, cinco são pares de colombianos com brasileiros. O grupo assistia ao jogo na sala, a televisão de LED com um cabo suspenso para conseguir captar a imagem. Nos primeiros vinte minutos de jogo, a tensão não permite ao repórter sequer se abaixar para cruzar o cabo e partilhar do jogo. O jeito era fazer fotos e vídeos à distância.

 

O grupo de colombianos assiste, tenso, ao jogo. Foto: Mateus de Albuquerque//BOCA JORNALISMO.

 

O dono da casa, hospitaleiro, pede para que este repórter cruze o cabo e assista ao jogo. Atrapalhado, me abaixo e consigo (claro) derrubar o cabo e desligar o televisor. Durante os quinze segundos necessários para que se repare o dano, o oxigênio não circula pela sala. A minha sorte é que a explosão de alegria logo viria: aos 38 minutos do primeiro tempo, o zagueiro Yerri Mina empurra a bola com a cabeça contra o gol do goleiro polonês Szczęsny. A sala explode de alegria. O sofrimento estava acabando.

 

Aproveito o intervalo para conversar com o grupo. Divertindo-se com o meu constrangimento, contam que demoraram duas horas para ajeitar o cabo no televisor. Todos acham que são mais apaixonados pela seleção colombiana que os brasileiros. “Dia de jogo, todo mundo usa camiseta. Aqui as pessoas até esquecem que tem jogo do Brasil”, relata Diana, 25 anos. A ponderação de que no sul se torce menos para a Seleção que no resto do Brasil também é feita. Se são mais apaixonados, não sei. Mas mais efusivos, com certeza: o grupo olhava para o televisor como se estivesse em Kazan, assistindo ao jogo ao vivo. Após o gol, o silêncio dava lugar a uma alegria ensurdecedora. Outro ponto que os torcedores gostam de relatar é a mudança de perspectiva que se tem sobre a Colômbia: se antes as reportagens eram excessivamente focadas no narcotráfico, o acidente aéreo envolvendo o time da Chapecoense mostrou ao Brasil o lado caloroso e solidário dos vizinhos. Mesmo assim, o narcotráfico ainda é visto como um fantasma, a cercar toda e qualquer cobertura que se faça sobre a Colômbia.

 

O jogo recomeça, em clima de euforia. Jefferson, 29 anos, é o mais animado de todos. Quando os poloneses estão com a bola, puxa os gritos de “Nunca Sera”. Já quando os colombianos dominam a jogada, “Siempre Sera” é o canto entoado. Outra brincadeira frequente é a de xingar os jogadores poloneses de algum palavrão, seguido do sufixo “vsky”, simulando os homogêneos nomes dados na Polônia. Aos vinte e cinco do segundo tempo, com o resultado bem administrado em cima do insosso futebol eslavo, Falcao García infla as redes. 2x0 Colômbia. Falcao (que tem por apelido outro animal, El Tigre) é o querido da torcida: carismático, ficou de fora da última Copa por uma lesão no joelho, poucos meses antes do início do mundial.  O gol é seguido por vários cochichos apaixonados de um mesmo sentimento: “Falcao se merece mucho”.

 

 Os torcedores comemoram o gol de Falcao García. Vídeo: Mateus de Albuquerque// BOCA Jornalismo

 

Aos trinta minutos do segundo tempo, Juan Cuadrado, o melhor jogador da partida, amplia o placar ainda mais. A festa se amplia. Com o resultado, a Colômbia iria para o segundo jogo, contra Senegal, dependendo apenas de si mesma para se classificar. Reascende a esperança de uma geração que bateu na trave em 2014 (foram eliminados para o Brasil, de virada, nas quartas de final). Os mais velhos lembram da Colômbia de Higuita e Valderrama com carinho, mas vem nessa geração, cheia de craques como James Rodriguez, Cuadrado, Ospina e o próprio Falcao, a possibilidade de fazer os jovens acreditarem cada vez mais no futebol colombiano. O jogo termina, com a sensação de que, naquele ano, tudo era possível para o futebol Cafetero.

 

O 24 de junho também marcou o aniversário de Pompillo, um dos colombianos ali presentes. Rapidamente, o clima de pós-jogo se transfigura em outra celebração. O número 50, em balões, estampa a frente da decoração nas cores da bandeira colombiana. Os personagens dessa história celebram em torno do bolo: há canto, há euforia, há Colômbia. No meio de tantas histórias a se unir naquele “Parabéns pra você” homogêneo, resolvi contar com mais detalhes a de três personagens, que aceitaram se afastar um pouco da celebração para conversar com esse já inconveniente repórter.

 

 Pompillo celebra os seus 50 anos com seus compatriotas. Vídeo: Mateus de Albuquerque // BOCA Jornalismo.

 

DIANA

 

Diana Bolaños Erazo tem 28 anos, é de Cali, torcedora do Deportivo e é formada em Jornalismo pela Universidad Del Valle. Em 2012, veio para a UFSM fazer o seu intercâmbio. Já estava namorando o seu atual esposo, Clóvis. Namoravam à distância. Os dois jovens escoteiros se conheceram na internet, visando um aprender a língua do outro. Se conheceram ao vivo e a coisa ficou séria. Casaram. Diana então fez a seleção do mestrado em Ciências Sociais, na mesma UFSM. Passou. Hoje ambos moram juntos, em Santa Maria. Ela pesquisa os migrantes brasileiros em Cali.

 

É a cola que une os colombianos de Santa Maria. No grupo do Whatsapp, é a mais ativa: está sempre propondo encontros como aquele. Para ela, a boa fase da seleção estimula a união dos migrantes: “Conseguimos nos transportar para Colômbia. Por exemplo eu estava agora falando com vários amigos da Colômbia que sentem o mesmo que eu. Gera um sentimento transnacional, que ultrapassa fronteiras”. O grupo se junta desde as eliminatórias para ver os jogos, e a torcida cresceu jogo a jogo. Não nega: seu xodó é o Tigre. “O Falcao tem uma relação bastante próxima. Ele fez muito para vir em Brasil 2014 e não conseguiu. E a imprensa criticando ele, chamando de ex-jogador em atividade. O fato de ele ter feito o gol é uma espécie de redenção”.

DANIEL

 

Daniel Moreno e sua família foram os primeiros colombianos a chegarem em Santa Maria. Vieram através de um projeto humanitário da Organização das Nações Unidas no ano de 2004. A expressão sábia e o jeito sempre falante, comunicativo de Daniel escondem um passado difícil: é refugiado dos conflitos paramilitares que assolaram a Colômbia ao longo da segunda metade do Século XX. Testemunhou histórias chocantes: chegou a ver um colombiano ser queimado vivo nas ruas de Quito, capital do Equador, pelos narcotraficantes. Em Santa Maria, reconstruiu sua história. Reconstruiu, literalmente: trabalha em projetos de construção civil e garante orgulhoso que, em Santa Maria, nunca faltou emprego para ele.

 

Daniel poderia ter ido para a Suíça, a Suécia ou para algum país nórdico que ele não recorda o nome. Não gostou: preferia o calor. No Brasil, teve de refazer o Ensino Médio. Fez treze cursos profissionalizantes. O adjetivo usado para descrever o Brasil é “ótimo”. A relação de amor bipátrida está no futebol também. “Tenho dois amores na minha vida. Brasil, excelentes jogadores, os craques brasileiros e mi país, e seus grandes jogadores”. Quando questionado sobre o seu jogador favorito, a resposta é imediata: James. Daniel é um apaixonado por camisas 10. Pelé, Zidane, James Rodriguez. “Camisa 10 é a referência, é quem conduz o jogo”.10 era o número que o próprio Daniel usava quando jogou futebol profissional na Colômbia.

 

Teve de se afastar por lesão, e pela morte de sua mãe. Jogou pelo Once Caldas, time que surpreendeu o continente ganhando a Taça Libertadores da América. Em 2004, mesmo ano em que Daniel chegava ao Brasil. Daniel gosta que sua casa seja a “sede” dos colombianos em Santa Maria. É orgulhoso se sua hospitalidade. Insistiu que o repórter provesse sua arepa com guacamole. Eu, nordestino que sou, peguei a versão apimentada. Daniel aprovou a escolha. Sobre colombianos e brasileiros, unidos em sua casa, mais um adjetivo: “Único. O ser humano não deveria ter fronteiras, por raça, nacionalidade, cor de pele, por diferenças sociais. Aqui na minha casa se reúnem pessoas com doutorado, mestrado e pessoas mais simples”.

JESSICA

 

Jessica Morales, 23 anos, se destaca em meio aos outros. Veja bem, a alegria e o amor pela seleção era contagiante em todos os colombianos ali presentes. Mas Jessica era mais. Jessica vivia cada instante, vibrava em cada momento. Jessica era a Colômbia e a Colômbia era a Jessica. Pudera, o amor vem desde cedo. Desde pequena, desfilava a caráter nos desfiles patrióticos da província de Tolima, local em que nasceu. Descreve o torcedor colombiano com três adjetivos: “Alegre, ansioso e sofredor”. Engraçado. Parece que está descrevendo a si mesma a contemplar a televisão.

 

Alegre, ansiosa e sofredora. Esta é Jessica torcendo para a Colômbia. Vídeo: Mateus de Albuquerque // BOCA Jornalismo.

 

Veio para o Brasil com seus pais (o aniversariante Pompillo e sua esposa, Rocio), também refugiados da guerra com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). “Eles nunca desistiram de dar estabilidade a nossa família”, conta. Na UFSM, cursa Ciências Biológicas. Trabalha no salão da mãe, La Colombiana, outro ponto de encontro dos colombianos santa-marienses.  Claro, nem tudo são flores em sua estadia no Brasil: se incomoda com o preconceito, com as constantes piadinhas envolvendo a cocaína e o narcotráfico. Já chegou a ser perguntada se era parente de Pablo Escobar. “Tem vezes que o colombiano leva na brincadeira, tem outras que eu não superei e digo ‘meu querido, estuda histórica, Colômbia não é só isso’”.

 

Entretanto, a relação com o Brasil é apaixonada. “Gratidão, não tem uma palavra maior do que a gratidão. Eu tenho faculdade. Me ajudaram. Temos casa. Minha família toda tá aqui”. Responde, a um emocionado repórter patriótico. Sente que o povo do sul é mais fechado, e crê que isso é fruto de sua colonização, mas vê no Brasil uma terra para todos. “Santa Maria é coração. Coração de mãe. Cabe todos”. E gargalha, sem saber do peso do que acabara de falar.

 

Jessica é uma apaixonada por futebol. Não só assiste, mas joga. Sente que essa nova geração de futebol colombiano lhe aproxima daquela pequena Jessica que ia torcer por Valderrama e companhia com o rosto pintado, na garupa da moto de seu pai. Mas nem tudo no futebol é união. O marido, Davi, é fanático pela seleção brasileira. Mesmo trajando as cores cafeteras, não perdoou até hoje a joelhada de Zuniga em Neymar, na Copa de 2014. Sente que o Brasil teria ganho aquela Copa não fosse isso. Talvez Davi esteja exagerando, mas o fato é que o futebol cruza fronteiras e une paixões, ainda mais se trajam as mesmas cores amarelas.

Como o hino da Colômbia bem mostra, a noite terrível, uma hora, termina. Terminou para Jessica e sua Família, terminou para Daniel. Todos encontraram um lar no Brasil. Terminou para o ídolo de Diana, Falcao, que espantava as dúvidas de que ele poderia apresentar um bom futebol para sua seleção. Terminava para a seleção colombiana, que, naquele domingo, garantia que seguiria para além da primeira fase da Copa do Mundo. A noite terrível terminava, e se abria o colorido de um céu amarillo, azul y rojo. Para estes, a noite sempre será clara e alegre. Siempre sera.

 

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