2018 por BOCA Jornalismo.

O Grupo H em Santa Maria - Parte II: A corneta não tem país

Enquanto fazia 10 graus em Santa Maria,  Tóquio - a capital japonesa - vivia seu verão com mínimas de 24 graus e máximas podendo chegar a 36. Mesmo com o frio, era aqui na Boca do Monte que nossa equipe de reportagem iria a uma sorveteria. No entanto, não para comer sorvete, mas sim para contar mais uma história sobre como o Grupo H da Copa do Mundo foi vivido em Santa Maria. A sorveteria escolhida só poderia ser a Nipon Sorvetes.

 

ADEMIR

 

Seu Ademir, 60 anos, pode até não parecer ser filho de japoneses pelo nome. Mas os olhos puxados e os sobrenomes (Shinobu e Nakashima) entregam a descendência. Ele é dono da sorveteria localizada na Avenida Rio Branco entre a Andradas e a Silva Jardim. Junto da esposa, Ana Lúcia, 53, administra o local.

 

Fachada da Nipon, já fazendo referência a descendência do proprietário | Foto: Leonardo Catto//BOCA Jornalismo.

 

Os pais de Ademir eram japoneses. Vieram para o Brasil por volta de 1956. Cerca de dois anos depois, nasceu Ademir. Enquanto o Brasil conquistava seu primeiro mundial (1958), nascia mais um torcedor. Sim, Ademir até torce para o Japão, mas em primeiro lugar vem a canarinho. "A gente torce, né? Mas não é assim como a torcida para a Seleção Brasileira", compara, contando também, entre risos, que precisava correr para assistir aos jogos do Brasil, mas que os do Japão eram vistos ali na sorveteria mesmo.

 

E, apesar de torcer por duas seleções, ele não pestaneja ao conspirar que a eliminação brasileira foi comprada. Segundo ele, porque “tudo envolve patrocínio, dinheiro. Ou o jogador aceita as condições de patrocínio, ou tá fora. Se não fosse assim, o Brasil teria condições de ser campeão quantas vezes quisesse”.

 

Ademir conversa, no balcão mesmo, com quem chega a sorveteria | Foto: Leonardo Catto//BOCA Jornalismo.

 

“O Brasil tinha time, tinha condições de ganhar contra a Bélgica, tinha condições de ganhar

se fosse contra o Japão também”

 

A descrença na honestidade, contudo, não tiram a graça do futebol para Ademir. Inclusive, qualquer cinco minutos de conversa sobre o assunto com ele já mostram que é mais graça do que um esporte mesmo. No dia que a reportagem foi até a Nipon, um cliente de longa data - alguns se fidelizaram no decorrer dos 25 anos da sorveteria - e filho de alemães sofria com as piadas do nipo-brasileiro: “tinha jogo da Alemanha, e ele torcia para a Alemanha, e eu torcia contra, só porque ele tava aqui. É divertido”, fala entre risos como uma criança. Naquele dia, tanto Japão como Brasil já haviam sido eliminados, mas a Alemanha perdera primeiro, então as cornetas ainda eram válidas. Ademir ainda faz questão de explicar que suas brincadeiras com relação ao futebol vão além das copas. Colorado, gosta de brincar com amigos gremistas.

 

Há clientes de anos que nem vão mais pelo sorvete ou churros, e sim para conversar | Foto: Leonardo Catto//BOCA Jornalismo.

 

Se não souber brincar, não adianta. Não adianta partir para violência. O futebol hoje é para rir, conversar, comentar depois.

 

Ademir fechou a sorveteria apenas durante jogos do Brasil. Quando o Japão jogava, assistia apenas pela televisão do estabelecimento. Um dos jogos envolvendo os japoneses foi contra Senegal. Dia 24 de junho, enfrentaram-se, em Ecaterimburgo.

 

Antes disso, Senegal venceu a Polônia na primeira rodada. Os proprietários da sorveteria acompanharam pelo televisor, mas não sozinhos. Na mesma galeria da Nipon, fica a loja em que Sumani trabalha. Ele é senegalês e tão bem humorado quanto Ademir.

 

Sumani deu uma fugidinha da loja para assistir ao jogo na sorveteria. A cada ataque polonês, uma corneta de Ademir. O placar, contudo, mostrou a superioridade dos africanos, que venceram por 2 a 1.

 

Já quando as seleções senegalesa e japonesa se enfrentaram, no dia 24, não estavam juntos, pois Sumani havia viajado. Entretanto, no fim, ambos puderam comemorar, cada um duas vezes. O craque do time senegalês, Sadio Mané,  abriu o placar ainda aos 11 minutos. Foi sucedido por um empate japonês, para logo depois haver desempate de Senegal. Até Honda marcar e se tornar o jogador japonês mais velho a fazer um gol em Copas do Mundo.

 

O empate em 2 a 2, na ocasião, favoreceu para que o Grupo H ficasse embolado até a última rodada. Tanto é que o único critério que classificou o Japão e eliminou Senegal foi o número de cartões, uma vez que ambas as equipes estavam empatadas em pontos, vitórias, saldo de gols, gols marcados e sofridos. Pela primeira vez, a questão disciplinar foi decisiva numa classificação em Copa do Mundo.

 

Ademir Shinobu Nakashima trabalhou nos dias de jogos do Japão. Nos meses de junho e julho, dá uma pausa nos sorvetes e vende apenas churros | Foto: Leonardo Catto//BOCA Jornalismo.

 

SUMANI

 

Sumani mora no Brasil há três anos. O português ainda não sai com tanta facilidade. A dificuldade com a língua é um impeditivo comunicacional. Na primeira vez que a equipe de reportagem tentou conversar com ele, limitou-se a dizer que “Senegal perdeu, Brasil perdeu, e agora eu vou trabalhar”, enquanto seguia dobrando roupas num claro sinal de que não queria falar e mandava a equipe embora.

 

Numa segunda tentativa, a reação já foi outra. Sumani não explica exatamente porque veio para o Brasil, mas conta que vive melhor aqui com sua esposa Mathi, que trabalha na mesma loja. O bom humor é exemplificado, além do sorriso, na sinceridade. Para Sumani, não era necessário dizer sua idade se já disse seu nome. Conta também que não sente saudade da família que ficou em Senegal, já que consegue visitar algumas vezes e passar um mês no país natal.

 

As máquinas de sorvete da Nipon e, ao fundo, a África de Bamba, loja em que Sumani trabalha | Foto: Leonardo Catto//BOCA Jornalismo.

 

Enquanto Sumani dizia ser legal assistir a Senegal em uma Copa do Mundo, perguntava se a reportagem ia para a televisão - segundo ele, isso atrairia mais clientes para a loja. Ficou empolgado em fazer imagens, e empolgou o repórter que sacava a câmera. Quando entendeu que não era nada de televisão, a sinceridade novamente veio à tona ao dizer que “então não precisa mais”.

 

Ademir tem 60 anos. Sumani não revela a idade, apesar de parecer jovem. As capitais de seus países, Tóquio e Dakar, ficam à 13 mil quilômetros de distância. Aqui vale o clichê sobre como o futebol une enquanto esporte. Porém, isso vai além. Jovens ou não, até mesmo numa Copa do Mundo, o futebol vira brincadeira para eles.

 

DJILY

 

Santa Maria tem sido uma das cidades gaúchas que mais receberam migrantes senegaleses durante a última década. Seja por motivos de acesso à universidade ou via comércio ambulante nas ruas do centro, que é o caso do nosso personagem. Djily Diagne, 28 anos, senegalês com origem em Dakar, capital senegalesa, trabalha diariamente no calçadão da cidade, onde há mais de cinco anos vende bijuterias e outras mercadorias que compra fora do estado para revender ao público santa-mariense. A equipe de reportagem entrevistou o comerciante em sua residência, no Bairro do Rosário, local marcado pela forte resistência negra que demarcou a comunidade no pós-abolição.

 

No dia da partida marcava uma forte chuva na cidade. Com o horário do duelo previsto para às 11h da manhã, o comerciante senegalês assistia apreensivo ao jogo da última rodada do Grupo H entre Senegal e Colômbia, partida que valia a classificação para a 2ª fase da Copa do Mundo. Dias antes da visita à casa de Djily, ele havia dito que na manhã do jogo não trabalharia por motivos futebolísticos. Chegando ao recinto, depois de percorrer um trajeto considerável até o Rosário, o senegalês recebeu a reportagem com entusiasmo. Logo de início perguntei sobre o principal astro da seleção, Sadio Mané, e o senegalês brincou ao fazer comparações com outro craque, Neymar: “Os dois são parecidos, não pensam em jogar para o time”, ironiza.

 

Pelo pé-frio ou não do repórter, quem triunfou e garantiu a vaga para a próxima fase foram os colombianos, vencendo por 1 a 0 a partida. Para se ter a noção da importância do que significou a participação da seleção africana na Copa, havia 16 anos que os “Leões” ( como são apelidados no seu país) não participavam do Mundial. Como se fosse um sonho, só que agora fora de Senegal, Djily assistiu à derrocada dos africanos na competição, porém, sem muito desânimo já que torceria dali em diante para o Brasil. “Falando das minhas preferências por torcida na Copa, torço para Senegal, Brasil e Argentina”, ressaltou o migrante.

 

Aliás, a sequência de torcidas têm relação, direta ou indiretamente, com os países em que o senegalês já morou. Antes de firmar-se no Brasil, residiu na terra do díos Maradona, trajeto comum da imigração senegalesa ao longo dos últimos anos, principalmente de quem vem para o Rio Grande do Sul. O jogo acabou e naquele dia parecia que a chuva insistia em atrapalhar a Djily. Ele pretendia sair de casa para trabalhar no centro. Aproveitando o tempo - com perdão do trocadilho - uma das questões era saber, aliás, quais seriam as diferenças culturais e o modo de torcer entre Senegal e Brasil. E o comerciante foi enfático.

 

“Todos os africanos são apaixonados por algum time, mais especialmente. Na minha visão, tem uma diferença muito grande” (no modo de torcer). “Quando a seleção nacional joga, todo o país para pra assistir”.

 

Tanto a torcida como os jogadores de Senegal, certamente honraram as cores da bandeira senegalesa, numa clara demonstração de orgulho africano e o talento nato representado pelos jogadores. No dia seguinte, Djily voltaria a trabalhar no comércio informal da cidade, mesmo que não seja o ideal como bem menciona.

 

“A gente não tem como sair dali. É difícil, a gente não têm emprego formal pra trabalhar, então a última solução que temos é vender na rua. E ninguém gosta de trabalhar na rua. Mas, e aí? Vou fazer o quê?”

 

À milhas de Senegal e da cultura do seu país, o futebol continua sendo o maior símbolo de união entre os povos. É como se ressoasse a cada passo dos migrantes em Santa Maria, o canto da sua nação, dizendo: “Sol em nossos terrores, sol em nossa esperança.

Em pé, irmãos, aqui está a África reunida”.

 

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