• Chaiane Appelt e Leandra Cruber

Ocupar e permanecer: histórias de trans e travestis na escola e na universidade


No mês de maio último, o Boca Jornalismo preparou uma série de reportagens sobre as pessoas LGBTs em virtude do Dia Internacional contra a LGBTfobia. Em Santa Maria, desde 2016, uma parcela da população reconhece também uma outra data, agosto, como o Mês da Diversidade. Todavia, para quem se identifica ou se aproxima de alguma das letras que formam a sigla - expandida por vezes para LGBT+, LGBTI, LGBTTTIQ - a discussão não se restringe a uma data no calendário.

Grosso modo, a sigla é abreviação de Lésbicas, Gays, Bisexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros. O conjunto de letras abriga um grupo nada homogêneo de indivíduos que os glossários LGBTs e algumas cartilhas de boas práticas tentam conceituar. Nesses materiais, o termo transexual é definido como oposto ao cisgênero, ou seja, diz respeito ao indivíduo que não se identifica com o gênero ao qual foi designado ao nascer. Todavia, será que esse conceito entra nas escolas de Santa Maria? Mais do que isso, as pessoas abarcadas por ele, transexuais, travestis ou transgêneros encontram as portas abertas para entrar e permanecer? Numa cidade universitária, encontramos histórias de quem conseguiu ou ainda tenta acessar os espaços de educação formal.

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo: a cada duas mortes violentas, uma ocorre em terras tupiniquins. O dado, fruto de uma pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foi levantado ainda em 2017. Até julho de 2018, o mapa desses assassinatos já contabiliza 95 vidas interrompidas. No entanto, o país não lidera apenas este ranking: do total de travestis ou transexuais que abandonam a escola antes de completar a formação básica, 82% são do Brasil.

Não há consenso sobre se esses dois números - de assassinatos e de evasão escolar - são causa ou consequência um do outro. Fato é que o artigo 205 da Constituição Federal coloca que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. Nomes de transexuais e travestis brasileiros aparecem com frequência muito maior nos atestados de óbito do que nos certificados de conclusão de curso, o que aponta para a percepção de que os três entes - Estado, família e sociedade - têm falhado.

“Primeiro, pessoa trans tem que lutar para sobreviver”, demarca Diana Carolina Rodrigues de Souza, 36 anos. Ela iniciou o processo de transição tardiamente - após os 30 anos - e reconhece as heranças emocionais que carrega por ter adiado tanto esse processo. Mas admite também privilégios, como ter passado pelo período escolar, pela universidade e ter entrado no mercado de trabalho enquanto pessoa cis. E, é claro, o privilégio de estar viva aos 36, enquanto a expectativa de vida de trans no país é de 35 anos.

Diana de Souza passou pela universidade e está empregada | Foto: Leandra Cruber

Mas a violência que fere e mata, como matou Thalia Costa na cidade gaúcha de São Borja em 21 de junho, se manifesta bem antes da idade adulta. Uma pesquisa do Ministério da Educação em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), realizada em 2013, mostrou que 15% dos alunos da educação básica não queriam ter transexuais, travestis ou transgêneros como colegas de classe. Uma realidade que Maria Eva Bevilaqua Rizzati sentiu na pele. Ela recorda-se de mudar de escola pelo menos três vezes. O ensino fundamental foi feito em duas escolas diferentes, a segunda no bairro em que residia com a família. “Como eram colegas de turma, de rua, amigos, eu não passei por tanto preconceito nessa transição de escola. Eles não tiravam tanto sarro. Mas quando eu fui pro Cilon [Rosa, escola estadual santa-mariense], no primeiro, segundo e terceiro ano [do Ensino Médio]… eu só não desisti porque eu era forçada a ir”, lembra.

Maria Eva na data em que se formou em Design de Moda | Foto: Arquivo Pessoal

No caso de Maria, a pressão veio da família, que exigiu a continuidade dos estudos e incentivou-a a tentar a graduação. Brunna, de maneira similar, descobriu sua sexualidade e sua identidade de gênero no período escolar e chegou a ser expulsa de casa. Seu pai não via com bons olhos os trejeitos considerados afeminados da criança. Ela iniciou o processo de transição através de hormônios recentemente, mas as consequências de se perceber mulher são antigas. Na escola, “sempre as piadinhas dos colegas, mas eu nunca levei muito a sério. Sempre levava na brincadeira. Mas, antes, quando me chamavam de gay e eu não me aceitava, chegava em casa e chorava.”

Brunna, que iniciou a transição recentemente, sofria preconceito na escola | Foto: Chaiane Appelt

A lágrima que escorre é a manifestação visível de um processo de descobrimento, percepção e aceitação em nada facilitado pelo ambiente escolar. “No ensino médio eu tinha noção de que eu era uma pessoa diferente, mas eu tinha noção também de como as pessoas diferentes eram tratadas. Então eu ficava o tempo todo observando e tentando ficar invisível”, desabafa Diana. Para ela, a repreensão manifestada na escola, por crianças e adolescentes, é fundamentada fora dali: “eles repetem padrões tóxicos que veem na sociedade e na família. Vira um microcosmo, a escola. E, pode ser muito pior pra criança que não se reconhece na onda do todo, da ‘média humana’. Pode ser muito cruel, muito assustador.”

Dos portões para dentro, a escola brasileira não é mais bonita ou acolhedora do que fora deles. Diana, que é licenciada em Artes Visuais, se coloca na posição dos alunos para tentar compreender o abandono escolar. “Já é algo que a pessoa precisa colocar vontade pra ir lá, pra se manter lá [na escola], mesmo que tenha evasão. Agora, tu imaginas um péssimo grupo de professores, péssimas instalações e aí a pessoa indo lá e ainda sendo rejeitada... Como que ela vai voltar num lugar desses?”

Além das escolas, existem outras instituições que desempenham papéis importantes no processo de educação dos indivíduos, como as universidades. Esses dois ambientes - as escolas e as universidades - possuem diferenças que são sentidas na pele por quem os integra. As instituições de ensino superior mostram-se mais preparadas para receber as e os transexuais. Todavia, ao passar pelos cursos de Jornalismo, Teatro e Filosofia em diferentes instituições de ensino superior, a artista visual Élle de Bernardini, 26 anos, percebeu que essa mudança é bastante recente. “Isso é de dois anos para cá. Quando entrei na faculdade, em 2009, esse ambiente não era preparado para receber pessoas como eu”, relembra.

Élle de Bernardini, artista visual, em seu ateliê Foto: Leandra Cruber

No entanto, as diferenças não estão somente na preparação do ambiente. O modelo de educação adotado pelas instituições básicas de educação poda as crianças e adolescentes, reprimindo-os. “O ambiente escolar é muito repressor. Nesse ambiente você não tem voz, você é menor de idade, tem que obedecer”, enfatiza Élle. Essa característica influencia diretamente na vida de jovens LGBTs que, por ainda passarem por processos de reconhecimento e aceitação, não conseguem se defender sozinhos dos episódios de repressão. E nem sempre há quem os ajude, já que os profissionais responsáveis por oferecer suporte dentro das escolas não possuem a preparação necessária. Em resposta a solicitação de nossa reportagem, a Secretaria de Educação de Santa Maria informou que, no último ano, 156 professores da rede pública municipal participaram de uma formação intitulada “Diversidade Sexual: um tema a ser refletido por profissionais da saúde e educação”.

Ainda, perguntada sobre a existência de formações ou capacitações aos docentes sobre temas como gênero e sexualidade, a Secretaria afirmou que, no âmbito do Programa Saúde na Escola (PSE), 39 escolas - são mais de 70 em toda rede - receberam atividades sobre “Direito sexual e reprodutivo e prevenção de IST/AIDS, a Promoção da cultura da paz e direitos humanos, a promoção da saúde mental no território escolar, das violências e acidentes, de atividades físicas e lazer nas escolas”. Ao representar a base de um sistema de educação, o ambiente escolar carece de atenção no tocante à permanência e proteção das pessoas transexuais para que não se sintam constrangidas, perseguidas e até mesmo violentadas por expressarem sua identidade de gênero.

Enquanto isso, nos espaços acadêmicos, a realidade tem passado por mudanças que são consequência de políticas brasileiras recentes. O Decreto nº 8727 de 28 de abril de 2016, por exemplo, dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais “no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional”. Dessa forma, a lei assegura que transexuais e travestis tenham sua identidade de gênero reconhecida e respeitada a fim de acabar com os constrangimentos e outras episódios de violência simbólica, parte do problema que leva à evasão educacional.

No âmbito da educação privada o cenário de opressão assemelha-se ao público, como pode comprovar Maria Eva. Apesar de ter mudado de escola durante a adolescência, ela conseguiu obter vaga no curso de Design em Moda, numa instituição privada da cidade e, ali, ela também se deparou com preconceito. Durante a graduação enfrentou um professor que se recusava a chamá-la pela conjugação pronominal correta - ela, no feminino. A situação fez com que Maria recorresse à Comissão local de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Não é normal ver uma travesti numa faculdade. Então, eu sei que eles vão levar um baque. Mas eu não esperava tanto”, conta.

Sabe-se que uma pessoa trans é assassinada a cada 48 horas no Brasil. Mas, nos ambientes de ensino daqui, a agressão que prevalece é aquela que não deixa marcas visíveis na carne. A trajetória de Maria Eva até a obtenção do diploma foi marcada por tais agressões quando alguns estudantes se recusaram a entrar no elevador com ela; quando, ao ser recepcionada por um profissional da instituição que estudava, ouviu “bem vindo” ao invés de “bem vinda”; e em outros momentos nos quais sentiu-se mal por ser a exceção da regra. Essa violência simbólica é parte do problema que leva as e os transexuais a optarem por deixar as universidades quando conseguem chegar lá e, mais comumente, a pararem de frequentar as escolas de educação básica, mesmo que o direito ao estudo seja lei e passaporte para o mercado de trabalho.

Embora os casos de constrangimentos e de preconceitos não tenham sido exceções entre os relatos, as realidades vividas por transexuais durante o processo educativo diferem umas das outras. Para Diana de Souza, a classe social é a principal causa dessas dissonâncias: “tem toda uma relação muito forte entre classe e educação, padrões de comportamento que são repetidos conforme a expectativa social da pessoa”, disse.

A relação apontada por Diana extrapola as fronteiras da educação, principalmente em casos de vulnerabilidade social, quando qualquer forma de garantir o mínimo para se viver é priorizada em detrimento da educação. E, por consequência, reflete nas oportunidades de conquistar qualquer colocação no mercado de trabalho.

Nascida e criada em uma família bem estruturada e com boas condições socioeconômicas, Élle reconhece os privilégios que teve durante a vida e que proporcionaram a ela até mesmo a oportunidade de estudar ballet clássico fora do país. “Isso difere muito de pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. Eu nunca estive em situação de vulnerabilidade”, ressalta.

Contudo, a falta de oportunidades é sentida na pele por cerca de 90% da população de transexuais do país que, segundo o dado estimado pela Antra, buscam seu sustento na prostituição. Outras alternativas de emprego também envolvem as péssimas condições de trabalho e rotinas exaustivas que refletem negativamente na qualidade de vida de pessoas trans.

Brunna ocupa a noite dos dias de semana para finalizar seus estudos no ensino médio, enquanto a manhã e a tarde de sábado são usadas para o curso Técnico em Enfermagem. Para continuar estudando e manter-se financeiramente, trabalha em uma clínica de psicologia e, após sucessivas entrevistas de emprego, a jovem busca complementar a renda cortando e cuidando de cabelos. Realizações que foram possíveis em virtude do apoio de amigos.

Hoje, Diana se reconhece enquanto mulher, se faz presente no mercado de trabalho e é respeitada em seu emprego. Foi contratada com base na experiência pregressa de trabalho e faculdade, antes de passar pela transição. “E todas essas oportunidades eu não posso dizer com certeza que eu teria tido se eu tivesse feito minha transição com treze anos, por exemplo”, admite a pedagoga.

Maria Eva trabalha em um negócio próprio. A designer em moda confecciona peças íntimas, geralmente sob encomenda. Suas principais clientes são pessoas trans. Mas essa não é mera opção. Maria Eva receia o tratamento que receberia em outro local de trabalho: “Eu não me vejo trabalhando num lugar. Eu vejo preconceito, Eu fiz estágio, mas as pessoas sempre vão te ver como “aquela travesti”, vão te assediar”. Ao que Diana completa: “é uma luta por espaço. As pessoas não querem transexuais naqueles espaços que elas delimitaram pra elas.”