2018 por BOCA Jornalismo.

Entrevistamos Felipe Martinez do Teatro Por Que Não?

Apresentação da peça "Amores aos Montes", dirigida por Felipe. Foto: Walesca Timmen. 

 

Felipe Martinez tem 29 anos, é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e é o diretor do Teatro Por Que Não?, um dos mais relevantes grupos de teatro de Santa Maria hoje.

 

De família comunicadora (o pai é publicitário, a é mãe relações públicas e o irmão Gustavo é jornalista fundador do BOCA), Felipe coordena uma das mais bem sucedidas propostas culturais da cidade. O TPQN? promove cursos de teatro e apresenta espetáculos envelopados no projeto "Em Cartaz", financiado pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC). As peças falam sobre temas como a presença das redes sociais nas nossas vidas, o(s) amor(es) e a crise econômica, e são apresentadas nos mais variados lugares: no Theatro Treze de Maio, na Concha Acústica do Parque Itaimbé, nas praças da cidade e no Quartel General do grupo, o Espaço Cultural Victório Faccin.

 

No Espaço, localizado no bairro do Rosário, conversamos sobre o seu processo artístico, a importância do acesso à cultura e o papel do teatro nos tempos de fúria.

 

BOCA Jornalismo: A peça “Say Hello para o Futuro” é uma das peças que o público mais comenta que é sempre bacana e está sempre mudando. Pessoas que já viram a peça têm vontade de ver de novo, pois pode haver novidades. O que motivou o Teatro Por Que Não? a fazer a peça? Qual foi a ideia por trás?

 

Felipe Martinez: A gente queria fazer um espetáculo que tivesse uma dramaturgia original, totalmente criado por nós mesmos, inédito em qualquer lugar. Começamos a discutir assuntos que eram de interesse comum do grupo e a questão que ficava latente era sempre a relação das pessoas com as tecnologias, com as redes sociais, com a internet em geral. A gente começou a pensar “bom, nós vamos ter que ter um espetáculo de teatro que siga essa linha. Porém, a gente começou a questionar a partir da aí o papel do teatro dentro desse público mais contemporâneo - que vem se acostumando com essas tecnologias, não só para se comunicar, mas também como forma de informação, de entretenimento. Basicamente, tivemos a ideia de fazer uma peça que mostrasse o teatro dentro do teatro explorando algumas questões sobre o fazer teatral e, ao mesmo tempo, brincasse com essas ferramentas na vida das pessoas. A gente queria falar sobre como, muitas vezes, as pessoas utilizam demais essas tecnologias e acabam esquecendo um tipo de comunicação mais ‘clássico’, mais comum. E, também de como estamos perdendo o hábito de ir ao teatro, mas, em grande parte, desconhecendo o que é o teatro. É muito comum a gente ter públicos já na fase adulta que dizem estar pela primeira vez no teatro, motivados pelo conteúdo da peça. A ideia foi basicamente essa, suscitar o interesse das pessoas, para fazer parte do dia-a-dia delas e começar a fazer uma comédia de costumes disso, desse tempo que a gente vive hoje, começar a brincar sobre as comicidades que essas novas relações com as tecnologias trazem na relação com as pessoas, ao mesmo tempo em que falamos sobre o teatro. É um espetáculo de teatro que fala sobre teatro, que fala sobre tecnologia e sobre relacionamento humano hoje em dia.

 

BOCA: O tema da relação das pessoas com as redes sociais está bastante em voga e, talvez, uma das maiores portas de entrada para isso seja a série “Black Mirror”, da Netflix. Diferente de “Black Mirror”, a peça “Say Hello para o Futuro” parece mais um “rir de si mesmo” do que uma culpabilização pelos vícios das redes sociais ou do celular. Como você administra essa sensação da plateia, que pode ser a culpa moralista ou a o “rir de si mesmo”, em um espetáculo em que você é a comédia?

 

Felipe:  O espetáculo foi concebido para ser cômico. A comédia, por natureza, vem como uma ferramenta de crítica social. Quando surgiu, tinha esse objetivo, que os artistas pudessem fazer críticas sem sofrer uma censura maior e, muitas vezes, a comédia não era levada a sério por quem detinha o poder. Então, desde a Grécia, desde a Idade Média, quando se fazia comédia de algo, se tinha liberdade - o clássico exemplo disso é o “O bobo da corte” ou “ O Palhaço”. A comédia te dá essa liberdade de rir das coisas, pois, na maioria das vezes, tu está rindo de ti mesmo. E quando tu está rindo de ti mesmo, tu tá fazendo um processo de reflexão natural. Eu posso fazer tu rir e fazer tu perceber o ridículo que essa relação [com o Facebook] impõe muitas vezes no teu comportamento e ai tu vai parar para pensar “será que eu preciso agir assim? Será que é bom agir assim?”. Também não é a nossa intenção criticar como as pessoas se comportam. A comédia vem no sentido de fazer com que o espetáculo se torne mais leve e, muitas vezes, é um espetáculo bem pesado - ainda em cenas de comédia. Tem momentos que muitas pessoas dão risada e outras não conseguem rir desse mesmo momento. Ainda há esse processo também individual: posso rir de uma piada que para ti não tem graça nenhuma. Mas, a partir do momento em que deixamos ele mais leve, tu acaba aceitando aquela crítica de uma forma mais imediata, tu aceita pensar sobre ela. Esse recurso vem como uma  forma de fazer com que o espetáculo conquiste o público em primeiro momento. Vivemos uma onda muito forte de comédia no Brasil, as pessoas já tem, inclusive, identificado o teatro com comédia, se tem a mentalidade de que se vai ao teatro para rir e esse é um fator que conquista o público. Black Mirror realmente não pega tanto o viés da comicidade, vai para um lado mais denso, mais dramático, muitas vezes. A gente ainda não tinha a referência do Black Mirror quando criou o “Say Hello para o Futuro”, mas a gente preferiu, já de cara, fazer com que ele fosse um espetáculo cômico. Até hoje, embora tenha cenas que não são de comédia, nosso objetivo é sempre inserir a comicidade no espetáculo, fazer com que o processo de reflexão seja através da comicidade.

 

 

 

BOCA:  A peça “Amanhã foi outro dia”  é uma peça adaptada no texto de Plínio Marcos. No texto original, o pano de fundo não é a crise dos anos 90, pré-Plano Real. Tu colocastes esse pano de fundo. Por quê desta escolha de colocar a crise e como adaptar questões políticas e macroeconômicas para a vida das pessoas. Como adaptar o impacto de fenômenos históricos na vida dos personagens?

 

Felipe: Isso começa com o conceito que o Plínio tinha de que, sempre que considerassem as peças dele atuais, era porque o país até então não tinha evoluído. Então, se tu lesse uma peça que ele escreveu nos anos 60 em 2018 e tu considerasse que ela é atual, é porque o país não evoluiu o suficiente naqueles assuntos. Porém, quanto à  linguagem, o espetáculo é muito datado e a gente começou a trabalhar pensando que isso poderia não ser tão interessante para o público que fosse assistir. Ao mesmo tempo, a gente gostaria de fazer um espetáculo que tivesse um reflexo no passado, para buscar um pequeno distanciamento nas pessoas. Para que as pessoas enxergassem numa outra época a mesma época em que elas vivem. Na verdade, quando tu lê o texto original dos anos 60, tu tem um distanciamento que te permite pensar aquilo de uma forma diferente, mas aquilo ainda fala sobre a tua realidade. As questões abordadas fazem parte do nosso dia-a-dia, mas esse distanciamento ajuda a refletir com outro julgamento. Isso, na cabeça de pessoas que são mais conservadoras ou moralistas - pode ser um facilitador para conseguir passar as mensagens que gostaríamos de passar com esse espetáculo. A gente pensou em trazer uma época em que houvesse maior identificação, mas que ainda não fosse totalmente atual. A maioria do nosso público não viveu os anos 60, mas viveu os anos 90 - mesmo que muitos ainda quando criança, mas têm um referência desta época. O outro lado é  mostrar que o país, embora tenha passado por muitas transformações, acaba, em determinados núcleos da sociedade, tendo alguns tipos de visões sociais que não evoluíram muito - como o próprio debate sobre o aborto ou sobre desemprego, ou o machismo. É uma peça que fala muito sobre machismo. O marido não quer deixar a mulher trabalhar porque ele não vai ser sustentado por uma mulher. Essa peça traz um núcleo da sociedade que pensa assim ainda hoje, pensava assim nos anos 60 e pensava assim nos anos 90. Esses assuntos acabam permeando nossa vida de diversas formas, independente do período, conseguimos abordar com as mesmas nuances, com o mesmo aprofundamento. A partir disso, a gente percebeu uma semelhança na situação financeira do começo dos anos 90 - aquele momento em que a peça aborda que as pessoas começam a ser demitidas das fábricas e a máquina começa a tomar conta e, simplesmente, ele não tem escolaridade nenhuma e não consegue ter outro ofício. Então ele fala “se eu soubesse algo de elétrica, se eu soubesse algo de encanamento, se eu tivesse algum conhecimento eu poderia arranjar um emprego hoje” Mas ele não sabe, sabe operar apenas uma máquina desde pequeno, a família dele vinha de uma situação de humildade. A situação do país mudou, a revolução chega, as máquinas tomam conta, ele desempregado e não consegue fazer mais nada e tá no olho da rua. Nos anos 90, a gente tem um período parecido de recessão muito grande em que a gente percebe que, colocando aqueles personagens nesse contexto, poderíamos abordar o mesmo conteúdo. Todo mundo faz peças no passado, nos anos 60, 40, 30 ou 20, mas não vemos muitos espetáculos que estavam se passando nos anos 90, então pensamos “vamos pegar uma época que ainda tá sendo pouco falada, porque está muito próxima e as pessoas ainda não querem documentar artisticamente este período. Veio também para ter esse diferencial.

 

BOCA: “Amores aos montes” é uma peça que se apresenta, pelo figurino dos personagens, pelos diálogos e músicas, como uma peça mais infantil. Ao mesmo tempo - em uma das apresentações - um dos personagens faz uma crítica velada a um candidato à presidência da República. Como se mistura essa delicadeza, a inocência do teatro infantil com uma peça, que na verdade, tem coisas bem adultas e profundas no seu texto?

 

Felipe: A peça “Amores aos Montes” surgiu da necessidade técnica do grupo de ter um espetáculo de rua, que pudesse ser apresentado em qualquer lugar. Apresentar “Say hello para o futuro” ou “Amanhã foi outro dia” exigem uma estrutura que nem sempre a gente dispõe. Quando a gente vai levar algo para a rua, a gente tem que pensar no que vai falar.  A gente vem falando muito sobre a crescente cultura do ódio no Brasil, que vem deixando as pessoas cada vez mais violentas - embora a gente saiba que se trata de uma tendência global. Pensamos em fazer uma peça que leve um pouco de amor para a rua, que fale de amor e que consiga fazer com que as pessoas tenham a oportunidade de entender que o amor é uma possibilidade no relacionamento entre as pessoas sempre. E isso não numa visão utópica, totalmente “paz e a amor”, mas numa visão realista, dentro de uma sociedade na qual a gente ainda possa fazer críticas, independente a quem for. Quando a gente começou a escrever a peça e começou a ensaiar, a gente percebeu que muito se falava sobre o que é o amor e que muitas interpretações e ideias eram colocadas desde muito antigamente e a gente resolveu seguir um caminho contrário - que é falar o que o amor não é. Porque achamos muito difícil explicar o que é o amor sem se limitar muito, mas achamos muito fácil falar o que o amor não é. Porque o amor não é uma série de coisas que são interpretadas como o amor. Aí começamos a ir para lado que também não era tão infantil. Se tu for parar pra pensar o conteúdo infantil que tem sido feito ultimamente, desde desenhos a filmes e animações, não tem sido muito restrito ao público infantil, abarca uma grande faixa etária. “Hora da Aventura”, “Steven Universe”, “Irmão do Jorel”, “Clarêncio, o Otimista” são desenhos que, se são apresentados para uma criança, ela adora, e, se tu apresenta para um adulto, ele entende as críticas que estão por trás e vai se divertir muito com aquilo. A gente tentou seguir essa tendência: pensar em um espetáculo que seja para todas as idades, mas que tenha, visualmente, uma atratividade para chamar a atenção das crianças também, embora a gente venha percebendo que os adultos se encantam bastante com a parte estética do espetáculo. Nós do Teatro Por Que Não? não conseguimos fazer um espetáculo que não acabe tocando em questões políticas e sociais que nos incomodam. Não conseguimos abrir mão de inserir algumas críticas, isso faz parte do nosso processo de criação. Criamos o espetáculo através de improvisações. Essa cena em questão do dia foi uma improvisação: alguém puxou o papo “aqui temos uma espécie de trogloditus masculinus”, uma das meninas começou a se referir a um dos meninos que tava improvisando um personagem estúpido. A gente começou a brincar com a espécie, onde ele está, como se comporta, até que começaram a chegar em várias esferas. A gente percebeu que o trogloditus tá na mesa do bar, mas ele tá na Câmara também, concorrendo à presidência, tá em todas as partes e isso não o impede de ser um trogloditus. As crianças olham a cena e se divertem. Os adultos olham e têm aplaudido a cena, tem sido bastante comum. Em compensação, já tivemos algumas reações mais pesadas, de pessoas nos criticando, xingando, são pessoas que não concordam com as críticas que a gente faz. Nada muito ameaçador, mas na rua nos submetemos à isso também. Há pouco tempo, tivemos uma situação em um espetáculo, a partir de uma fala em que inserimos no começo. Estavam apresentando e alguém fez uma crítica política no começo do espetáculo e uma mãe com o filho disse “vamos, meu filho, tu não é obrigado a ouvir isso”. Em nenhum momento, estamos ofendendo alguém, fazendo o que o amor não é, estávamos fazendo uma crítica política que mostra um ponto de vista que pode ser enfrentado mas não é ofensivo a ninguém. Se tem essa dificuldade de falar o que se quer algumas vezes e não atingir alguns públicos, mas não abrimos a mão disso e isso faz com que o espetáculo seja para toda família e que não perca a essência do que  a gente tem com teatro, que é levar uma mensagem. Essa mensagem não tem como não ser política, na sociedade, somos política, a gente fala sobre política em todas as peças. O teatro é política, não há como fugir disso. Mas tu pode fazer um espetáculo para crianças que faça uma crítica a um candidato a presidente, por exemplo.

 

 

 

 

BOCA: No espetáculo “Say Hello para o Futuro”, há um momento em que as pessoas sobem ao palco e fazem um discurso sobre algo que elas pensam, seja lá o que for. No “Amores aos Montes”, em dado momento, os atores se viram para a plateia pedindo sugestões de xingamento para poderem xingar outro personagem. Como tu - como diretor - constrói essa relação entre personagem e público na hora de pensar a montagem?

 

Felipe:  Eu gosto muito da palavra “aproximação”. Existem linhas de teatro que trabalham com distanciamento e são excelentes também. Tu distância o público daquilo que está acontecendo e faz ele chegar a uma reflexão através desse distanciamento. Sou muito fã da aproximação, gosto de fazer com que o público se sinta realmente dentro do espetáculo em vários momentos. Quando fizemos “Say Hello”, tinha um caso muito simples: as pessoas se expressam o tempo todo na internet  e, se nosso espetáculo brinca que é uma rede social, a gente vai ter que abrir espaço para que as pessoas possam se expressar aqui também. A gente corre riscos. Já houveram momentos em que foram levantadas discussões em que uma pessoa trouxe um assunto e uma pessoa do público discordou. Faz parte. No espetáculo “Amores aos Montes”, tinha a questão dos personagens estarem buscando o que é o amor e questionando o que o amor não é e em nenhum momento vamos perguntar às pessoas o que elas acham? Não. Nós temos que perguntar para as pessoas o que elas acham e então resolvemos criar um momento no espetáculo para isso, porque eu gosto da aproximação. Não é sempre pegar o público e trazer para a cena, inclusive, muitas pessoas não gostam disso. Mas a ideia é fazer uma aproximação - seja de conteúdo, seja de dramaturgia - para fazer com que o público se sinta mais parte daquilo ainda. O teatro é, por natureza, um encontro. Não se faz teatro sem ter, pelo menos, um espectador, um ator ou atriz num mesmo local. Não se pode ignorar a pessoas que estão fazendo parte deste encontro. A nossa visão parte basicamente daí: valorizar esse encontro e fazer com que as pessoas se sintam ainda mais parte desse espetáculo.

 

BOCA: O projeto “Em Cartaz” do Teatro Por Que Não? recebe financiamento público da lei de Incentivo à Cultura (LIC). Como se deu isso e como você se posiciona frente à crescente discussão sobre se a arte deve ser financiada pelo poder público ou não?

 

Felipe: Embora a Lei Rouanet já exista há muitos anos, essa discussão voltou a ganhar espaço. A gente vem tentando e aprovando alguns projetos na LIC. Ela depende de um financiador privado - uma empresa ou uma pessoa física - que destina parte dos impostos que ela já paga - um dinheiro que é do município, teoricamente - para apoiar um projeto cultural. A gente precisa convencer, em um primeiro momento, a prefeitura de que nosso projeto merece ser aprovado em determinado valor e, depois, pessoas e empresas. Temos nos aprimorado nesse sentido. Já temos um grande número de alunos que têm interesse em apoiar - que doam o seu IPTU e tem conseguido fazer com que nossos projetos tenham esse financiamento de forma mais recorrente. São valores ainda baixos, mas que têm mantido uma pequena estrutura financeira ao longo do ano pra gente. Estamos reformando partes do Espaço Cultural [Victorio Faccin, sede que o Teatro Por Que Não? divide com o Teatro Universitário Independente (TUI)] com essa verba, então conseguimos fazer com que esse apoio e incentivo sejam fundamentais na nossa vida. Em outubro, faremos um festival internacional com financiamento da Rouanet em Santa Maria, trazendo grupos de Portugal, Moçambique, Uruguai e aqui do Brasil também. Abrindo um pouco mais o assunto, nós temos que pensar em algumas coisas. O acesso à cultura é um direito do cidadão, tá lá escrito não sou eu quem está dizendo. A  cultura engloba todo um acervo específico de uma determinada comunidade. Quando eu faço um espetáculo como “Say Hello para o Futuro”, eu estou trazendo a cultura da nossa comunidade hoje em dia. Isso é cultura, isso é reflexivo, é parte da nossa sociedade. E tu tens o direito a ter o acesso à isso. Por si só, o governo tem que fazer com que esse acesso seja garantido, ou seja, tem que financiar. Não estou dizendo que tem que financiar 100% das produções culturais do país, mas tem que financiar, fomentar, estimular e fazer acontecer. A gente está entrando num ciclo em que as pessoas estão tendo cada vez menos informação. Quando tivemos a intervenção onde havia um artista nu e uma criança chegou perto dele, as pessoas desceram o cacete em cima daquilo. Não concordo com nenhuma dessas pessoas, mas sei que nenhuma delas tinha informação intelectual suficiente para entender o processo que estava ali por trás. Quando tu tem um entendimento raso, tu tende a fazer um julgamento raso. Não estou dizendo que sou mais inteligente que essas pessoas. Pelo contrário, talvez elas sejam muito mais inteligentes que eu. Agora, quando se trata de arte eu tenho um pouco mais de conhecimento para poder defender e poder falar sobre isso. Então como é que a gente pega Fulano, que não vai ao teatro, que não lê livro e não ouve música, e vem dizer que o meu trabalho não merece ser financiado, que meu trabalho nao merece ser visto pelo público, que meu trabalho não é arte. Quem é ele para dizer isso? Não estou criticando no sentido de “quem ele pensa que é?”, estou questionando sobre as informações e o embasamento artístico que tal indivíduo tem para dizer isso. Veja bem, é um ciclo vicioso. Se a pessoa não tem acesso à cultura desde cedo, ela não está acostumada com aquilo na vida dela. Quando ela vira adulta, ela não teve acesso não teve conhecimento, não consegue nem julgar 100% aquilo. Daí ela chega em uma exposição, que tem propósitos muito bem definidos, e critica aquilo. Ela não critica porque achou ruim, critica porque não entendeu. No final das contas, cultura não é aquilo que tu gosta. Arte não é aquilo que tu gosta. É muito mais complexo do que isso. Tu tens o total direito de não gostar, mas não de impedir que faça, porque daí é censura. Na prática, o que as pessoas estão querendo que volte é que a arte seja um mero entretenimento com o funcionalismo simples. Como tínhamos a pouco tempo espetáculos que enaltecem os militares, por exemplo; como tínhamos romances só com homens e mulheres. Quando é um entretenimento básico, que é totalmente pequeno e raso, não desenvolve pensamento nenhum. Precisamos incentivar mais o acesso à cultura desde cedo, fazer com que as pessoas tenham conhecimento cultural intelectual. Que possam formar as próprias opiniões e começar a adentrar o universo cultural e artístico de forma apropriada. Mas elas não farão isso se formação. É ruim ir apresentar um espetáculo na rua e levar ovo na cara por colocar dois homens se beijando, mas enquanto a gente não insistir, não começar a fazer isso e não mostrar que isso é normal, as pessoas vão continuar achando que é horrível e que não se deve fazer isso. Então a gente tem que insistir e resistir. Nosso trabalho é resistência. Aí entra o papel do governo. Infelizmente, se pegarmos o governo atual do Brasil, ele quer mais que acabe. O Ministério da Cultura virou nada, conseguiu acabar em um ano e meio. Tenho medo de quem pode assumir, então não sei o que vai ser. O Brasil desenvolveu no começo dos anos 2000 sistemas de financiamento cultural exemplares e isso impactou uma cadeia de produção da arte incrível, uma preservação do acervo cultural do país e estamos colocando tudo em risco.

 

 

BOCA: Alguns argumentos contra o financiamento público trazem como alternativa os financiamentos colaborativos, que seriam o caminho que mais respeita as regras de livre mercado dentro da arte. Como tu enxerga essa contraposição ? Acredita que a arte deve atender à regras de mercado, às leis de oferta e demanda?

 

Felipe: Acho que o financiamento colaborativo deve continuar existindo, é muito importante, mas não acho que ele deva substituir o financiamento público. Na prática eles são muito próximos. Porque, se parar para pensar, o dinheiro é das pessoas. O dinheiro que ela pagou imposto ou o dinheiro que ela vai pagar para ti é o mesmo dinheiro, tá saindo do mesmo bolso. Eu te dou 10 reais para o teu espetáculo de teatro ou eu dou pro teu projeto na LIC, o dinheiro é o mesmo. A diferença é que o dinheiro da LIC fazia parte de um imposto e tá sendo destinado do caixa da prefeitura e o primeiro fazia tem uma lógica mais de livre mercado, financia quem quer. O Brasil segue um modelo de financiamento que, particularmente eu não gosto, que é tirar do governo a responsabilidade de financiar. O governo é um mediador, basicamente. Então, tu tem o artista produtor, tu tem o governo com a verba e tu tem o empresário que é quem libera a verba. Vou pedir pro governo para ter acesso a essa verba, ele vai dizer “ok” e vai pedir para o empresário. Acho que a arte, infelizmente, não vai se desvencilhar das práticas do mercado tão cedo porque a sociedade está se moldando de uma forma ultra-capitalista. Por mais que tenhamos núcleos que cada vez mais tentam se desvencilhar disso, temos muita dificuldade para quebrar essa bolha. Enquanto artista, preciso fazer uma série de coisas que a sociedade me exige para eu continuar sobrevivendo. O que eu não posso é fazer com que meu trabalho exista somente para isso ou em função exclusivamente disso, porque daí ele perde a função que é maior do que simplesmente pagar as minhas contas. Pagar minhas contas é uma consequência do meu trabalho, porque se eu não pagar minhas contas eu não faço o meu trabalho e, se eu não fizer meu trabalho, ele morre. Então, essa relação com o mercado vai continuar existindo. Há grupos e artistas que estão cada vez mais indo por esse caminho. Eu acho que deveríamos ter um meio termo, que deveríamos ter um financiamento público eficiente no Brasil. Não existe financiamento público sem contrapartida social, não há como ganhar aprovação de um projeto sem tê-lo. Pode ser que os critérios de avaliação sejam fracos e realmente questionáveis, mas existe uma contrapartida social. Ou seja, não precisamos acabar com a Rouanet, precisamos melhorá-la. Mas existe financiamento colaborativo sem uma contrapartida social, mais pela lógica de mercado mesmo. Tu me paga, eu te dou em troca algo que eu acho que tu mereça, vou fazer o meu trabalho e ponto final. Acho que deveríamos começar a enxergar um meio termo mais eficiente. Financiamento público não é só projetos, é espaço para cultura também. Aqui em Santa Maria, não temos espaço suficientes para cultura, então deveríamos facilitar o acesso por parte do público e por parte dos artistas. Aí entra o poder público para equilibrar essa balança.

 

 

BOCA: É possível viver do teatro em Santa Maria?  

 

Felipe: Sim. Tem gente fazendo isso. A gente está se aproximando disso, ainda não vivemos 100% do nosso teatro, mas tem grupos que já estão há pouco mais tempo que a gente e que conseguem fazer seus espetáculos e viver de teatro. São exemplos de que é possível fazer. É bem difícil, mas é possível.

 

BOCA: Qual a função do teatro hoje? Em um mundo em que cada vez mais as pessoas permanecem em casa, as cidades cada vez mais terceirizadas e precarizadas, o teatro pode sobreviver?

 

Felipe: Acho que vai sobreviver, sim. Na época do cinema, essa discussão foi muito forte, não se acreditava que o teatro iria sobreviver ao cinema. Quem deu continuidade ao teatro tinha o pensamento de que o teatro era único em relação ao cinema, semelhante em várias coisas, mas único em outras. Isso faz com que o teatro continuasse. Hoje eu acho que o teatro é um encontro e, por isso, se diferencia do cinema, da internet e da Netflix por exemplo. As pessoas vêm a um determinado local, se olham nos olhos, veem um drama humano - porque o teatro é sempre humano. Tu como humano vai se identificar com um sentimento humano, mesmo que nunca tenha sentido isso. É um encontro com os próprios sentimentos, com o humano. Acho que essa função do teatro é primordial, porque o teatro é reflexivo. Ainda que o público possa sentar e assistir o espetáculo, existe um outro espetáculo acontecendo dentro da cabeça dele, um espetáculo reflexivo, sempre. E ali, tudo pode acontecer. O encontro é a sensibilidade, o sensível, o se perceber em outra pessoa sem precisar passar por aquilo que ela tá passando. O teatro sempre vai ter essa função de encontro, tanto é que comum vermos as pessoas vindo ao teatro e falando “que bom que vim aqui hoje, eu precisava sair de casa”. A gente vai descobrir mais para frente, quando teremos uma leva de crianças e adolescentes que nasceram imersos nesse universo tecnológico e que vão ter uma outra relação com isso. Mas eu acho que não vai ser mais raso, vai ser diferente. Talvez eles até possam nos ensinar mais coisas porque a necessidade deles de teatro pode ser muito maior do que a que a gente tem hoje. Muita coisa ainda pode acontecer e acho que essa discussão nunca vai acabar. Sinceramente, não vejo a gente perdendo espaço - vejo dificuldades no sentido de conseguir público, por exemplo - mas, pelo contrário, vejo a gente conquistando espaço.

 


 

Please reload