• Luan Romero e Pablo Furlanetto

Devaneios engajados de Bruna Rison

Ao passear por Santa Maria, você pode ser surpreendido pelos adesivos de uma personagem que, para alguns, parece saída de um baralho de Tarô e, para outros, do filme Metrópolis. É a Maria de Luta, criação da arquiteta Bruna Rison, que foi premiada com o segundo lugar no Concurso de Ilustração da Lei Maria da Penha. Essa figura de traços arquitetônicos e sensíveis deve ser impressa em materiais de divulgação do Banco Mundial, uma das instituições promotoras do concurso. A equipe do Boca Jornalismo entrevistou a artista gráfica em seu home office, numa tarde chuvosa de agosto.

“Maria de Luta” - reprodução do Instagram @devaneiodenanquim

O ato de desenhar está presente desde muito cedo na vida de Bruna, que teve suas primeiras lições ainda criança, em Alegrete, sua cidade natal. “Uma das técnicas que a minha professora ensinou foi a ideia de usar o nanquim assoprando com canudo. E me chamou muito a atenção, porque quando você assopra com o canudo ele vai por vários lugares. Formam como veias no papel.”, relata a artista. Naquela época, ao observar as veias negras que se formavam a sua frente, não imaginava que poderia fazer disso sua profissão.

Na hora de optar por uma carreira, escolheu a Arquitetura. Nos primeiros semestres conseguiu desenvolver os desenhos a mão livre, mas foi “endurecendo” com o uso dos programas digitais que esquematizam os esboços arquitetônicos. Com a proximidade da formatura, as incertezas do que fazer ao terminar o curso, a falta de oportunidades, a ansiedade e as angústias da vida urbana tomaram conta de seus pensamentos. Veio o primeiro ataque de pânico.

Além do fim da faculdade, o ritmo caótico da cidade e os problemas sociais existentes traziam agonia os pensamentos de Bruna: “por ser LGBT e mulher, essas coisas que vão se acumulando do dia-a-dia, de final de semana e de festa com os amigos e qualquer coisa… Aquilo foi acumulando e foi me enchendo”. Foi então que a artista procurou ajuda e descobriu que tinha toque de pensamento, um tipo de transtorno mental que afeta o indivíduo, atormentando-o com pensamentos obsessivos. Quando voltou a desenhar, descobriu na prática uma forma de tirar as impurezas da mente. “Eu estava ouvindo Criolo e fiz o primeiro desenho. Comecei a escrever a música que eu estava ouvindo. Depois desenhei. Me deu um start de: ‘vou criar um série sobre ansiedade, ansiedade urbana’”, conta.

Desenho que utiliza a técnica do Nanquim. Foto: Pablo Furlanetto//BOCA Jornalismo

Ansiedade Urbana e o engajamento social

Após ter o insight, Bruna passou a esboçar o primeiro desenho. Também reativou um perfil antigo, o “Devaneio de Nanquim”, que havia criado por incentivo de colegas de faculdade, que percebiam o talento da amiga. Os traços arquitetônicos dos cubos apareceram junto da frase “tanto espaço sem ar”. No canto, um personagem observa o caos dos cubos que parecem prédios a sua frente: o King Zé. “É um rei, porque ele é um personagem comum, não deixa de ser eu e outras pessoas que também se sentem assim”.

Ora King Zé aparece meditando embaixo de uma arapuca, ora surge dentro de um cubo olhando para os raios de sol. King Zé representa os que estão à margem, os que buscam um lugar para se encaixar, as minorias sociais. E também “procura o único espaço verde, de paz, naquele lugar” complementa Bruna. A inspiração para as formas de King Zé vem de um boneco articulado, que fica na mesa de trabalho da artista. Ele não usa roupas, e mesmo tendo um título de nobreza masculino, não possui gênero. Aliás, a coroa é justamente para ressaltar que mesmo a margem, ele é especial, assim como todos nós.

Depois de King Zé ocupar diversos ambientes nos desenhos de Bruna, outro personagem surgiu: a Maria de Luta. “A Maria veio de já discutir dentro de casa essa questão do feminicídio e tudo mais”. Bruna acredita que a arte precisa ser democrática, estar em todos os lugares, além de instigar as pessoas a pensarem.

“CAIXA” - da série Ansiedade Urbana. Foto: Pablo Furlanetto//BOCA Jornalismo

Repercussão e prêmio

Se nas redes sociais Bruna expõe seus desenhos, também foi através delas que soube do Concurso de Ilustração da Lei Maria da Penha, promovido pela Câmara dos Deputados e pelo Banco Mundial. A artista adaptou um de seus desenhos para a temática do concurso e ficou em segundo lugar na categoria profissional. “Eles vão lançar todos os desenhos [ganhadores] em cartilhas para espalhar pelas unidades [do Banco] de combate à violência contra mulher, escolas e algumas coisas serão veiculados em relação a isso. A campanha já foi veiculada no [jornal] El País.” conta Bruna.

A cerimônia de premiação foi em Brasília, no Congresso Nacional. “Foi muito legal todas aquelas mulheres no congresso, toda a cerimônia foi sobre feminismo, elas falando quanto demoraram para chegar lá”, lembra Bruna. Entre os seis ganhadores, cinco eram mulheres.

Mulheres Foda e a repercussão pelo Instagram

Se os desenhos da série “Ansiedade Urbana” foram uma forma de terapia para Bruna em 2017, neste ano, também inspirada por uma música, passou a retratar mulheres foda, como a ela mesma define. “Estava vendo uma música da Iza e umas entrevistas dela e pensei na questão dela ser negra e mulher. Depois ouvi um cover que ela canta uma música da Nina [Simone] e eu pensei: 'cara, que foda! A gente tem uma cantora brasileira com um baita potencial'”, relembra.

“NinaSimone” - da sére Mulheres Foda. Reprodução do instagram @devaneiodenanquim

Assim, surgiu uma Iza mesclada com Nina Simone. “O mais massa é que ela viu a publicação e me pediu sabe? Inclusive eu tô para enviar para ela. O bom do Instagram é isso, você tem um retorno muito rápido das pessoas”, diz Bruna. E foi também no Instagram que uma homenagem a Iza acabou se tornando uma série sobre mulheres importantes na história, porque as pessoas começaram a perguntar qual mulher foda seria a próxima.

Veio a Cássia Eller, referência para Bruna como pioneira nas questões LGBT e do casamento entre pessoas do mesmo gênero. Depois vieram Elza Soares e Lady Gaga, a pedido de amigos. E como uma artista antenada às discussões de seu tempo, Bruna retratou Mônica Benício, a viúva da vereadora carioca brutalmente assassinada Marielle Franco. A surpresa foi que a própria Mônica entrou em contato para agradecer a homenagem e para encomendar um quadro. “Ela me pediu para desenhar ela e a Marielle.” conta Bruna, que ao mesmo tempo que curte esse retorno, se espanta com a força da internet. “Eu tô em Santa Maria e estou falando todo dia ali, e é a viúva da moça que está me encomendando um desenho ali”.

Mas e a arquitetura, Bruna?

A própria artista responde: “Com o tempo eu pensei que poderia aliar todo esse desenho com arquitetura”. Foi em uma palestra com uma arquiteta baseada em Porto Alegre, que faz desenhos à mão em paredes, que Bruna vislumbrou a possibilidade de poder fazer da arte seu ganha-pão. “Neste último ano, fui vendo uma crescente muito grande de artistas que trabalham com desenho handmaid na parede, além do grafite, algo mais voltado para arquitetura. É, inclusive, um dos temas que eu vou fazer agora no artigo da minha pós-graduação. Essa arte em espaços fechados e espaços comerciais. Gosto bastante dessa ideia da arte ser democrática e não ficar só dentro de casa ou dentro dos museus ou só na rua, mas que ela esteja, de uma maneira geral, conversando” reflete.

Desenho Handmaid na parede. Foto: Pablo Furlanetto//BOCA Jornalismo.

Acompanhe o trabalho de Bruna pelos seus perfis no Instagram @devaneiodenanquim e @br.arqarte. Confira a entrevista com a artista.

* Revisão e edição: Kauane Müller.