2018 por BOCA Jornalismo.

O fantástico brasileiro é coisa séria

Fantasismo. O termo foi cunhado pelos pesquisadores Bruno Anselmi Matangrano e Enéias Tavares para propor um movimento literário contemporâneo, marcado por elementos da tradição literária fantástica adaptados à realidade do mercado editorial brasileiro no século XXI.

 

Nesse cenário, acontece a primeira Festa Literária de Santa Maria (FLISM), organizada pelos professores e pesquisadores Gérson Werlang, Enéias Tavares e Raquel Trentin. Vinculados ao curso de Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Gerson, Enéias e Raquel foram os responsáveis por uma festa que durou três dias - de 12 a 14 de setembro de 2018 - e recebeu autores de Santa Maria e do Brasil para discutir a literatura como forma de educação e convívio social.

 

No último dia de festa, o professor e escritor santa-mariense Enéias Tavares recebeu Felipe Castilho, Carol Chiovatto e AZ Cordenonsi para discutir a literatura fantástica brasileira. Presente cada vez mais nas salas de aula, nas pesquisas acadêmicas e nas grandes editoras, o fantástico tem adentrado espaços que antes ficavam restritos ao que se convencionou chamar de alta literatura.

 

AZ Cordenonsi, Felipe Castilho, Carol Chiovatto e Enéias Tavares debatem a literatura fantástica nacional. Foto: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo.

 

 

“O FANTÁSTICO É UM POSICIONAMENTO POLÍTICO”

 

A autora dessa frase é Carol Chiovatto. Mestra e doutoranda em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na Universidade de São Paulo (USP), Carol assina a tradução de importantes obras, como Orgulho e Preconceito, da escritora inglesa Jane Austen e a série Mundo de Oz, de L. Frank Baum. Ela também publicou os contos Mestres do Conhecimento, Space Opera: Ecos de Maztah e A última feiticeira de Florença.

 

Carol acredita que a literatura fantástica tem a vantagem de poder propiciar uma leitura leve enquanto discute temas sérios e políticos. “Arthur C. Clarke é um autor de ficção científica. N’O fim da infância, que é um livro bem famoso, ele propõe o seguinte: chegaram os ETs, pararam as naves na frente das principais metrópoles do mundo e, ao invés de destruir o mundo, eles decidiram resolver os problemas da humanidade. Eles resolvem ao longo de anos, e a arte acaba. Eu acho essa proposta interessantíssima porque a arte é a nossa resposta aos problemas que a gente não sabe resolver, ou então, é a nossa proposta para os problemas que a gente não sabe resolver”.

 

Para Carol, a literatura fantástica pode ser tão politizada quanto qualquer outra forma de arte, levando em conta sua função também enquanto entretenimento. Ela questiona: por que lemos, de onde vem o nosso prazer com a arte? “Quando as pessoas pensam em alta literatura, elas falam como se a alta literatura não fosse entretenimento. Mas é. Eu acho que a literatura fantástica tem a vantagem de admitir o que ela faz”.

 

Felipe Castilho é escritor. Seu livro Ordem Vermelha: Filhos da degradação, lançado em parceria com o site Omelete e a Comic Con Experience, passou semanas nas listas de livros mais vendidos no país. Escreveu, entre outras obras, a série infanto-juvenil O legado folclórico, que une mitologia brasileira e videogames e foi indicado ao Prêmio Jabuti pelo quadrinho Savana de pedra. Durante a FLISM, lançou sua obra mais recente: o quadrinho Desafiadores do Destino.

 

Felipe tem uma compreensão parecida com a de Carol sobre a relação da literatura fantástica com a política. De acordo com ele, embora a discussão de temas considerados sérios ficasse restrita à “alta literatura”, a literatura fantástica possui um importante papel questionador, em que a fantasia aparece como alegoria, como elemento estético. Como exemplo, Felipe cita o inglês China Miéville e seus livros de Outubro, A cidade e a cidade e Estação Perdido, obras de fantasia perpassadas por ideias marxistas.

 

“O Eric Novello, que é um grande amigo e escreveu alguns dos meus livros preferidos, o Exorcismos, amores e uma dose de blues, agora escreveu Ninguém nasce herói, que é um livro que fala o que aconteceria no Brasil, num futuro próximo, em um governo fundamentalista. A gente comenta que o livro dele quase não é fantasia, porque a gente tem um espectro, esse fantasma que fica assombrando. A fantasia, às vezes, potencializa alguma possibilidade negativa ou positiva pra gente poder imaginar o que aconteceria se”, explica Felipe. Se a fantasia se apresenta como possibilidade, esses autores se posicionam em defesa do fantástico.

 

A arte sempre foi uma forma de resistência do artista, sua posição em relação aos problemas do mundo. É o que pensa o escritor, pesquisador e professor da UFSM, André Cordenonsi. Conhecido como AZ Cordenonsi, o santa-mariense é autor da série steampunk Le Chevalier e de Sherlock - romances infanto-juvenis sobre a juventude do detetive dos contos clássicos de Arthur Conan Doyle - e publicou com Enéias Tavares e Nikelen Witter o romance A alcova da morte - Um caso da Agência de detetives Guanabara Real.

 

André entende que a literatura contribui para a formação de cidadãos capazes de desenvolver pensamento crítico e opiniões embasadas. “O problema maior do jovem que não lê e do cidadão que não lê é que ele acaba acreditando somente naquilo que contaram pra ele ou que ele internalizou de alguma maneira. Como ele não lê, não se informa de outra maneira, aquela internalização se torna um dogma e ele não consegue perceber que há uma possibilidade de mudança. Aí é que entra a arte como uma forma política de se expressar. Não existe odiar a política, porque tudo o que você faz é político. Não é só quando você vota que você faz política”, afirma.

 

AZ Cordenonsi e Felipe Castilho discutem o papel questionador da literatura fantástica. Foto: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo.

 

A LITERATURA FANTÁSTICA E O IMAGINÁRIO

 

Escritor de ficção científica e steampunk - um gênero literário originado na ficção científica, que abrange histórias ambientadas no passado, com um nível de evolução tecnológica distinto do que o que a história mostrou ocorrer, geralmente fazendo uso da tecnologia mecânica do vapor - AZ Cordenonsi compreende as cidades dos seus livros como personagens. Isso significa entender que as grandes cidades têm um ritmo próprio e que isso influencia a forma como se vive nelas. “Eu tenho mapeado todo o sistema de trem da época do Sherlock. Deu trabalho fazer isso, porque era tudo particular, não tinha público, era um sistema completamente caótico. Eu tenho ele todo mapeado pra eu saber como ele podia se deslocar pela cidade”, conta.

 

Nessa construção do imaginário do leitor sobre o que é a cidade e, portanto, sobre como é o lugar onde vivem as personagens de uma história, o autor encontra as diferentes maneiras do pulsar da cidade. Na série Le Chevalier, por exemplo, Cordenonsi apresenta Juliette, uma menina que vive na rua. O problema aqui, ainda que estejamos falando de uma história fictícia passada numa Paris steampunk, é como uma grande cidade trata seus meninos e meninas de rua. Mais uma vez, é o recurso fantástico sendo utilizado para discutir um problema que permanece, um problema do nosso tempo.

 

Ordem Vermelha, uma das obras mais recentes de Felipe Castilho é entendido por Carol Chiovatto como um livro sobre luta de classes no Brasil contemporâneo: uma minoria religiosa dominando o povo através da religião, usando de violência, um povo miserável nas favelas, chamadas no livro de assentamentos. A cor vermelha ganha força representando uma simbologia transgressora e de perigo, que assola os nossos imaginários historicamente.

 

Para causar essa imagem mental, Felipe entende que o escritor deve ter em mente qual mídia que comportará sua obra. No caso do livro, ele acredita que “a armadilha está nas palavras”. Entretanto, o caso de Ordem Vermelha é diferente, como explica seu autor, porque o universo foi pensado de maneira primeiramente visual. “Como a minha expertise é a prosa, eu trouxe isso pra prosa. Ele pode ser contado em várias outras narrativas. A gente fez adaptações, teve que reimaginar algumas coisas, mas a gente teve apoio visual. Foi muito parecido com uma equipe de criadores de um filme: apesar de eu não esquecer que eu estava escrevendo um livro, eu tinha o apoio de concepts, eu tinha storyboard se eu quisesse”, conta. O livro é uma co-criação de Felipe com o ilustrador e escultor Rodrigo Bastos Didier e o artista de concepts 3D Victor Hugo Sousa.

 

MULHERES E LITERATURA FANTÁSTICA: UM OLHAR PERIFÉRICO

 

Em sua pesquisa de doutorado, Carol discute o imaginário da figura da bruxa enquanto estereótipo de mulher transgressora. Em seu trabalho enquanto escritora e tradutora, ela questiona uma literatura que classifica como europeizante e autocentrada. “Se pretender universal e dizer que isso é arte”, explica. Para ela, é com naturalidade que escritores homens, brancos, heterossexuais e de países europeus encaram sua presença em premiações importantes, pois eles se colocam em um lugar universal, que pretende abarcar toda a condição humana.

 

Carol Chiovatto propõe o enaltecimento de obras representativas e diversas. Foto: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo.

 

“Tem um autor que uma vez falou uma frase numa entrevista, e isso me doeu. Ele falou sobre representatividade e disse ‘representatividade eu acho muito importante, mas representatividade não pode ficar no caminho da arte’. Ele inventou um postulado no qual arte e representatividade são opostas, e não são. O que ele realmente quis dizer é ‘eu sou preguiçoso e minha arte não terá representatividade porque eu não quero que tenha’. Só que seria muito feio ele falar isso numa entrevista, então ele cria essa invenção que, como autoridade de homem branco que é, ele pode dizer. Você não pode dizer que você tá falando da condição humana se essa é a sua capacidade de representar um gênero inteiro”, entende Carol.

 

Reconhecendo-se como parte de uma escrita periférica, enquanto escritora mulher e latino-americana, Carol propõe o enaltecimento de artistas que possuam trabalhos respeitosos e com personagens que tenham significado respeitoso. Para ela, a literatura fantástica surge, nesse sentido, como vanguarda: são histórias que não poderiam ser escritas por um homem branco heterossexual europeu, porque carecem de um olhar distinto, atento a necessidades de lugares - geográficos e sociais - diferentes e periféricos.

 

É o que pensa também Felipe, que enxerga na literatura fantástica um meio para trazer essas questões do nosso tempo à tona. “Eu não vou mudar pra escrever a dor do escritor com bloqueio criativo que se apaixona pela estudante. Sabe, contar a mesma história do homem branco de sempre, pra poder ser aceito. A gente vai fazer nosso caminho e mostrar que a fantasia também pode ser questionadora”.

 

 

* Revisão e edição: Luan Romero.

 

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