2018 por BOCA Jornalismo.

As Entrelinhas do Entrevero

31/10/2018

Na última semana, aconteceu o Festival Internacional de Teatro de Santa Maria, o Entrevero. O BOCA já contou como funcionou o financiamento do evento a partir da Lei Rouanet.

 

Todos os espetáculos contavam com traduções simultâneas em Libras, pois o Entrevero propunha-se a ser inclusivo. O discurso de ódio é o déspota que o Entrevero espera depor para que a união reine em seu lugar. Artistas de Portugal, Uruguai e de diferentes lugares do Brasil se reuniram na Cidade Cultura. Juntos, criaram esse espaço de diversidade, onde diferentes línguas e sotaques viraram uma linguagem universal: a arte resistente.

 

Em tempos que parecem nos levar de volta a ideais medievais, Ladra Terra (Teatro Universitário Independente) traz artistas interpretando outros artistas no medievo. Assustadoramente atual, o humor em sua faceta crítica debocha de temas políticos que sucedem em mais de 500 anos o fim da Idade Média.

 

Espetáculo Ladra Terra, que aconteceu dia 24 de outubro, no Theatro Treze de Maio. Foto: Walesca Timmen.

 

Apesar de meio século de distância, podemos traçar ainda o paralelo entre o mercado que hoje exclui e desemprega com os bufões, comediantes excluídos das companhias teatrais. De risada em risada, compreendemos que, além de cantar, comer, beber e dormir, também existe o sonhar. O sonho com a terra prometida onde a plateia é renovada e a possibilidade de receber alimento também. Ou o sonho em encontrar uma “alma”, como é contado em Balada de um Palhaço.

 

O texto de Plínio Marcos ganhou vida no Entrevero pelo grupo de teatro DACARATAPA (Santa Maria/Venâncio Aires-RS). O espetáculo convoca os arquétipos de Branco e Augusto. Assim, evidencia as relações humanas nas diferenças entre os palhaços Bobo Plin e Menelão. Há o puro, que busca sua alma e o mesquinho, que busca sobreviver, limitado por cifras de dinheiro. Atravessam as dicotomias de riso e choro, alegria e tristeza para pensar o que há de prazer na vida e na arte.

 

Atores de Balada de um Palhaço manifestam-se após o espetáculo, que aconteceu dia 25 de outubro, no Theatro Treze de Maio.

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo.

 

O envolvimento entre diferentes formas de arte acontece em No Hay Flores en Estambul, de Iván Solarich (Montevidéu). Na capital turca, que também é local do filme “Expresso da Meia-noite”, a peça se desenvolve contando mais do que apenas uma história. Os fatos da película estão, agora, no palco. Além deles, assistimos e sentimos com o ator seus testemunhos honestos, recordações de vida. A multiplicidade de narrativas ganha embasamento na máxima de que “existem histórias que merecem ser contadas”. O diretor e filho Mariano Solarich que dirige o pai Iván tem uma dessas histórias. História que, como já falado, conta o filme “Expresso da Meia-noite”. E justamente por contá-lo, faz com que queiramos assistir também o filme. Eis o envolvimento entre diferentes formas de arte.

 

Espetáculo No Hay Flores En Estambul, que aconteceu dia 27 de outubro, no Theatro Treze de Maio. Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo.

 

A arte que representa a própria arte, como é em Paradjanov  -  A Celebração da Vida (ASTA Teatro/Covilhã). Inspirada em histórias do cineasta armênio Serjei Paradjanov, a peça leva o cinema em seu formato, com recursos audiovisuais. Quase que ritualística ao falar de amor. Além de ver e ouvir, ganha espaço até o cheirar. Brincando com a sinestesia para tratar de como sentir o amor, faz com que nos perguntamos: “como não enlouquecer nessa coisa de amar?”. Talvez uma resposta possível possa ser encontrada por meio do sofrimento do homem que perdeu duas esposas, mas que prefere abrir mão de qualquer malignidade, afinal, sua vingança é o amor.

 

Espetáculo Paradjanov - A celebração da vida, que abriu o Entrevero, dia 21 de outubro, no Theatro Treze de Maio. Foto: Pablo Furlanetto//BOCA Jornalismo.

 

E o que o amor não é se descreve em Amores aos Montes (Teatro Por Que Não?). O espetáculo ganhou vida duas vezes durante o festival, na UFSM e na Praça dos Bombeiros. Quem conhece o Por Que Não? conhece a Amores e sua ludicidade para encarnar situações em que se ama — ou desama. Mais do que mostrar o amor ou a falta dele, Amores aos Montes diz que não precisamos entender para sentir. Afinal, não precisamos moralizar nossos sentimentos.

 

Amores Aos Montes, dia 27 de outubro, no campus da UFSM. Foto: Walesca Timmen

 

A hiper-valorização da moral é a circunstância que envolve Os Sete Gatinhos. A peça escrita por Nelson Rodrigues foi apresentada pela Cia. Retalhos de Teatro. O peso que se dá aos valores “puros” é contraditório diante da ruína moral que vivem os personagens. Justifica-se, contudo, quando se aplica a lógica de valorizar aquilo alheio ao que se tem. O único espetáculo do Festival com classificação para maiores de idade levou ao palco inquietação —  que pode até ter aparecido como riso ou amor. Essa peça, contudo, perturba e faz refletir sobre o que pode de fato ser moralmente santo diante da indecência profana.

 

Os Sete Gatinhos, que aconteceu dia 26 de Outubro, no Theatro Treze de Maio. Foto: Walesca Timmen

 

Já sem pregar moral, mas longe de tal indecência, Alguém me sabe dizer se o meu chapéu está bem posto? (Folha de Medronho, Loulé) coloca no palco uma técnica Assistente de Higiene e Limpeza ponderando aleatoriedades. A personagem troca sua ideia nonsense com animais de estimação, que são seus interlocutores. Em algum momento, diante dos pensamentos em voz alta, a carapuça — ou melhor — o chapéu há de servir. Mas sem moralismo. Só podemos refletir: será que está bem posto?

 

Espetáculo Alguém me sabe dizer se o meu chapéu está bem posto?, que fechou o Entrevero dia 28 de Outubro, no Theatro Treze de Maio. Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo.

 

Hoje há ignorância, exposta ou não por sete gatos. Há ódio na crueldade cômica do palhaço, assim como existe — porém sem jocosidade — nas vozes da rua que esbravejam contra o outro que tenta resistir. 

 

No Entrevero, contudo, o ódio teve sua deposição. Ao vingar-se, o Festival de todos ensinou que, como Paradjnov, nossa vingança deve ser o amor. Enfrentamos tempos de ódio. É um alento, o teatro. Como uma lógica aristotélica, um elemento condiciona o outro. E assim: se teatro, então resistência.

 

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