Diálogos sobre as Eleições I: Sabrina Fernandes

A socióloga e militante ecossocialista Sabrina Fernandes tem doutorado pela Carleton University, no Canadá e é hoje uma das mais ativas pensadoras políticas de esquerda do Brasil. Não, não tente procurar no Lattes. Apesar da vasta e qualificada produção, Sabrina tem tido destaque pelo seu projeto de comunicação política, o canal no YouTube “Tese Onze” (anteriormente chamado “À Esquerda”). O título do canal é uma referência à décima primeira tese de Karl Marx em seu debate contra o filósofo Ludwig Feuerbach. A tese, frase-chavão entre militantes de esquerda, afirma: “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de diversas formas, o que importa é transformá-lo”.
 

A ânsia em transformar os temas mais complexos e cheios de nuances do repertório de esquerda em conteúdo palatável e que encaminhe para a prática tem norteado a ação de Sabrina Fernandes. O sucesso da iniciativa não passou despercebido, e Sabrina agora circula pelo país em palestras, quase sempre lotadas. Em outubro, Sabrina esteve em Santa Maria para falar sobre meio ambiente (um de seus temas favoritos) na Semana Acadêmica do Direito, promovida pelo Diretório Livre do Direito da UFSM. O BOCA conversou com ela sobre política, ecossocialismo, as dificuldades da esquerda em se comunicar com o grande público e, é claro, as caóticas eleições de 2018.

 

Sabrina Fernandes durante sua fala na Semana Acadêmica do Direito. Foto: Bruna Bergamo//BOCA Jornalismo

 

BOCA: Como é que a gente fala  “Ecossocialismo ou barbárie” com a barbárie batendo na porta?

 

SABRINA FERNANDES: É justamente por isso que o ecossocialismo é necessário. A barbárie que bate na porta é uma barbárie social, política e ecológica, então ela passa por todos esses eixos. E, quando a gente está num momento de barbárie as pessoas procuram respostas e, neste momento, o ecossocialismo é justamente aquela resposta que pode articular as pessoas para fora dessa barbárie e não nessa armadilha que está sendo apresentada pelo avanço do fascismo no Brasil e que mascara as raízes do problema realmente.

 

BOCA: Há globalmente uma forte circulação de informações falsas. No Brasil, recentemente, se descobriu que parte dessas informações não circulam de maneira orgânica - como se previa - mas, sim, através de amplo financiamento para a disseminação nas redes. Como o Tese Onze, um projeto de comunicação à esquerda, se coloca nessa disputa global pela comunicação não orgânica?

 

SABRINA: O Tese Onze, na verdade, tem um objetivo muito simplório. A ideia do Tese Onze é ocupar um espaço que não estava sendo ocupado pela esquerda. Os youtubers da direita são extremamente articulados, eles possuem financiamento próprio, além do crowdfunding. Eles possuem financiamento institucional, a gente sabe disso também.  E eles estão ocupando esse espaço há muito tempo, vários desses espantalhos que a gente vê por aí estão sendo plantados em lives do YouTube há sete anos. E a esquerda se deparou com esse espaço, não achou esse espaço interessante e largou ele pra lá. Então, o projeto Tese Onze é estar ocupando o espaço, mas não achar que através daquele espaço a gente vai conseguir organizar essas pessoas. O papel de organização vai vir das lideranças no campo político, realmente, de partidos, sindicatos, de coletivos, organizações estudantis. E o papel do Tese Onze é ocupar o espaço e trazer um subsídio ali, plantar sementes e, sim, começar a disputar aquela audiência de uma forma ou de outra trazer um contraponto num espaço em que esse contraponto nunca existiu antes.

 

BOCA: Quem te acompanha nas redes sociais (Twitter, Facebook e etc.) vê, constantemente, comentários seus sobre ataques que o canal ou determinado vídeo  sofre vindo de indivíduos identificados à esquerda. Machismo, preconceito geracional, a pergunta é: como é que essas opressões operam na hora desses ataques?

 

SABRINA: Elas são muito frequentes, porque eu já fazia textões com as minhas ideias por aí e eu não era muito atacada por elas. Eu era questionada e criticada até porque se falar de ecossocialismo na esquerda é algo muito de vanguarda e muita gente tem uma certa resistência a fazer esse debate, assim como muitos homens têm resistência ao debate do feminismo. Mas, por estar ali no audiovisual, muda bastante a proposta. A pessoa está olhando para o seu rosto e eu sou uma mulher feminista que gosto da minha maquiagem e gosto de pintar meu cabelo, isso choca alguns padrões. Ele choca porque os estereótipos  são contrários a isso. Eu acho importante dar esse bug na cabeça das pessoas, eu acho que é um bug do bem para mostrar que a gente não deve estar julgando as pessoas pela aparência. Infelizmente, a gente está lidando com uma questão estrutural dentro da esquerda brasileira, que é uma esquerda muito patriarcal e que a maioria das referências de lideranças são homens brancos mais velhos, que dizem que todas essas pautas seriam apenas pautas morais. Pautas que não deveriam ser consideradas, porque elas, na verdade, atrapalhariam a organização social da classe trabalhadora. E aí passam a esquecer que a classe trabalhadora é feita de mulheres, de pessoas negras, de pessoas LGBT e que essas opressões e a exploração do capitalismo estão entrelaçadas, sim.

 

BOCA: A questão de ser feminista e gostar de se maquiar parece uma afronta, não é?

 

SABRINA: Eles pensam “ah, deve ser uma pessoa muito fútil então ela não deve ter a qualidade teórica necessária para trabalhar com isso”. E isso é uma coisa que irrita muito mais porque eu ainda chego com isso a partir do meio acadêmico. Eu tenho doutorado, eu sou professora e isso é algo que incomoda as pessoas porque mexe com as estruturas. Inclusive, vários desses ataques que vêm de homens da esquerda são de homens que se propõem a estar escrevendo esses textões e querem as curtidas, mas não estão tendo a audiência que eu estou alcançando nesse momento. Sendo que, na verdade, a minha proposta é a seguinte: quer falar sobre comunicação comigo? Vamos falar, eu te ajudo a criar um canal também.

 

Foto: Bruna Bergamo//Boca Jornalismo

 

BOCA: Você é abertamente militante do PSOL [Partido Socialismo e Liberdade], que, dos partidos da chamada esquerda radical, é o único que consegue eleitoralmente melhores resultados. Quanto de estética e de uma outra maneira de comunicar na esquerda existe nesses bons resultados do PSOL ou em outros fenômenos que a gente vê ao redor do mundo, como o [partido grego] SYRIZA e o [partido espanhol] Podemos?

 

SABRINA: Eu acho que o PSOL tem tido um êxito muito grande através das suas figuras públicas mulheres. A gente vê isso refletir nessa bancada atual do PSOL. Entre as pessoas que conseguiram se eleger estão figuras como a Talíria, como a Áurea, como a Fernanda e como a Sâmia, e elas se juntam a Erundina nesse processo. E isso é bastante valioso, sim. Só que o PSOL tem uma dificuldade de fazer o tal do signo da rebeldia. Infelizmente, as nossas campanhas conseguem mobilizar pessoas a partir da sua identidade. Isso não é uma coisa negativa, é uma coisa de identificação e isso é positivo, mas ainda não conseguiu se posicionar como um partido antissistêmico. Mesmo tendo pautas altamente antissistêmicas, que chegam e confrontam o modo petista de governar. É algo a tentar se resgatar de experiências passadas e não tomar partidos como o Podemos como um ponto de referência. Isso é algo que eu critico bastante. A estética do Podemos, na verdade, é muito focada no seu intelectual central - que seria o Iglessias - e que tem como referência teórica o Laclau, que tem, na minha opinião, uma teoria de populismo de esquerda, que substituiria o populismo como tática que teria um apelo eleitoral por um populismo de estratégia que, na verdade, atrapalha o horizonte socialista de se estabelecer. E, com o SYRIZA o problema é maior ainda porque o que a gente vê no governo do Tsípras é uma traição descabida em relação à classe trabalhadora. Eles capitularam totalmente à Troika e agora eles estão tendo um processo de repressão muito pesado aos trabalhadores na Grécia. O que a gente vê de conciliação de classes do PT no Brasil é ‘fichinha’ perto do que o SYRIZA está fazendo na Grécia.

 

BOCA: Independente do que aconteça no dia 28, a tarefa para a esquerda é radicalizar?

 

SABRINA: A tarefa sempre foi radicalizar só que ela foi esquecida porque acostumamos com a institucionalidade. Este é um problema. Nós vimos que o caminho da institucionalidade, se não passar por uma construção radical de poder popular de organizações de base, vai encontrar uma parede em algum momento e a gente vai entrar num processo de regressão, que é o que está acontecendo no momento hoje. O PT que foi o partido que teve essa hegemonia institucional agora enfrenta não somente o antipetismo, mas problemas de articulação em relação a classe trabalhadora, um sujeito com o qual ele sempre se articulou. Agora é o momento de reorganização e de se rearticular em relação à radicalidade. E, sim, fazer autocrítica, mas é bom a gente ter essa ênfase de que autocrítica não é mea culpa. Autocrítica não é falar “olha, sim, eu errei e não devo errar mais”, autocrítica passa por transformação material, porque é um processo dialético e a gente tem que compreender isso através do método do Marxismo, que é o do materialismo histórico. Passa por transformar as condições da realidade. Só assim, essa autocrítica vai ter lastro e vai ter algum efeito positivo.

 

BOCA: O PT governou com o que, provavelmente, há de mais à direita na política brasileira nos seus treze anos de governo e também aplicou muitas medidas bastante recuadas - para não dizer ataques à classe trabalhadora. Independente do que aconteça no dia 28, se a tarefa da esquerda é radicalizar, qual deve ser a postura da esquerda em relação ao PT?

 

SABRINA: A postura da esquerda em relação ao PT não é exatamente o que a esquerda tem pensado, que nós temos que apontar que o PT deve morrer, deve acabar porque errou. O PT tem um acúmulo histórico bastante forte, ele tem, sim, um apelo importante com eixos importantes da classe trabalhadora, trabalha com movimento social, tem uma base que vai além de uma base eleitoral. Na verdade, é sua base eleitoral que tem derretido, mas sua base militante prevalece. O que é necessário: a gente construir algo que eu trabalho no meu livro que vai vir aí que é a função da “esquerda mosaico”. Se a gente vive numa situação de fragmentação, a solução não é homogeneizar, juntar todo mundo num mesmo balaio. Até porque essas dificuldades a gente encontra dentro do PSOL, com muitas organizações diferentes com visões diferentes sem conseguir formar sínteses nem mesmo nos seus congressos. A função é a gente criar essa esquerda mosaico. Procurar encontrar qual é a nossa cola, qual a nossa liga e, a partir disso, articular outros braços. Em vez de disputar a mesma base, pensar onde este partido consegue ter mais apelo com aquele grupo social e fazer o trabalho dessa forma. É um trabalho de organização coletivo bastante amplo, mas que vai requerer não somente a questão da autocrítica, mas também uma certa humildade política de entender que as vezes onde está a falha do outro eu posso contribuir e onde está a minha falha o outro pode contribuir. 

 

BOCA: Você fez duas falas aqui em Santa Maria, lotou os auditórios também em Florianópolis. O Tese Onze, além da sua experiência como pesquisadora, é muito bem sucedido em comunicar com a esquerda e comunicar com o público que, às vezes, passa a conhecer a esquerda através do Tese Onze. Quais indicadores você daria para esse sucesso, no que o Tese Onze acertou?

 

SABRINA: O canal, em números de inscritos, é muito pequeno comparado aos canais de direita no YouTube. Existem canais de direita no YouTube com mais de dois milhões de inscritos. Eu tenho cinquenta mil, mas tenho uma alta taxa de visualização comparada à questão de inscritos. Eu acho que isso tem feito a diferença, porque ele [o canal Tese Onze] tem realmente furado a bolha. Tem pessoas que nunca ouviram falar de ecossocialismo e agora estão falando “nossa descobri o ecossocialismo e isso tem um apelo pra mim, eu achei isso interessante, eu quero descobrir mais”. O canal traz ferramentas, não traz respostas prontas para as pessoas. Não é a questão de um trazer uma coisa mastigadinha e falar “é nisso que você tem que acreditar, é isso que você tem que defender.” Tem um apelo muito forte no quesito comunicativo porque traz as pessoas para fazer parte do projeto, deixa de ser um projeto da Sabrina Fernandes e, sim, um projeto coletivo, de pessoas que constroem as ferramentas juntas e aí se fideliza. Eu acho que essa diferença é uma das razões pelas quais o Tese Onze tem conseguido agregar pessoas em espaços diferentes. Pessoas pedindo para eu ir para vários lugares do Brasil para conversar com elas porque, por mais que seja o meu rosto, minha voz e a minha produção intelectual, ele não é um projeto personalista. Eu não vejo que o Tese Onze é para mim. Na verdade, a minha ideia é plantar uma sementinha nas pessoas e que elas possam levar para outros espaços não que dependam de mim para isso.

 

BOCA: A gente precisa de outros Tese Onze?

 

SABRINA: Precisamos de muitos! A ideia é multiplicar. Se a gente for concentrar, por exemplo, a produção de conteúdo de esquerda em um canal de YouTube a gente já está falhando. A direita fez isso muito bem. Ela tem canais diferentes com abordagens diferentes para audiências que respondem a essas abordagens diferentes. Não é todo mundo que se identifica com a minha abordagem. Várias vezes eu recebo mensagem “ah você deveria fazer assim ou fazer daquela outra forma”. Isso não seria autêntico. A abordagem que eu faço no Tese Onze é aquela com a qual eu me identifico, que é natural para mim e que funciona no papel que eu me enxergo como uma professora naquele espaço, trazendo ferramentas teóricas e análises de conjuntura ao mesmo tempo. Mas é necessário ter canais que trabalhem com outros eixos, que trabalhem com animação, canais que façam vídeos mais curtinhos de um ou dois minutos, isso é muito importante. Eu tenho trabalhado com com parcerias, gravado com outras pessoas também para estar incentivando e para gente estar dividindo a nossa audiência, quem se identificar ir pra lá também. E quanto mais pessoas, mais canais a gente tiver ocupando aquele espaço, mais a gente vai poder se fortalecer nesse processo também para não focar todos os ataques numa figura só.

 

* Revisão e edição: Kauane Müller.

Essa entrevista faz parte da série "Diálogos sobre as Eleições" que também entrevistou Armando Boito Jr. e Rosana Soares Campos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2018 por BOCA Jornalismo.