2018 por BOCA Jornalismo.

Diálogos sobre as Eleições II: Armando Boito Jr

Existe uma tradição no marxismo que tenta estudar as relações entre as classes sociais e o jogo político sem criar relações deterministas - aquelas em que se assume que um ator político sempre agiria de determinada maneira pelo seu interesse de classe. Para alguns membros deste grupo, é melhor entender que as classes possuem “frações”, e que essas frações estão constantemente disputando o poder. Essa tradição - rara tanto entre marxistas quanto entre cientistas políticos - tem em Armando Boito Jr.  um de seus mais atuantes representantes brasileiros.

 

Boito é professor de Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Lá, passou muitos anos estudando o sindicalismo brasileiro. Desde 2010, tem se empenhado em compreender como a burguesia brasileira tem atuado dentro do Estado, especialmente nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Esse é o tema principal de seu mais novo livro, “Reforma e Crise Política no Brasil: Os Conflitos de Classe nos Governos do PT”. Entre as tempestades que foram os dois turnos da eleição presidencial brasileira de 2018, Armando Boito Jr. esteve em Santa Maria para lançar o seu livro, durante o “III Encontro Regional de Direito, Marxismo e Meio Ambiente”, organizado pelo Núcleo de Pesquisa em Direito e Marxismo (NudMarx), vinculado ao curso de Direito da UFSM.  Entre uma palestra e outra, conversamos com ele sobre as frações de classe, a Ciência Política brasileira, a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL), os erros da esquerda e o emblemático segundo turno que ainda estava por vir.

 

Armando Boito Jr. Foto: Les films de L’An 2.

 

BOCA: No campo da Ciência Política nós tivemos, ao longo desse processo eleitoral, a valorização de alguns aspectos que acabaram não sendo tão importantes, como, por exemplo, financiamento de campanha, tempo de TV, alianças, enquanto outras áreas do conhecimento, como a antropologia, já davam algum peso às redes sociais, ao WhatsApp, à disseminação de informação. Como o senhor acha que sai a Ciência Política depois desse processo eleitoral, em uma avaliação da área?

 

ARMANDO BOITO JR.: A Ciência Política, como toda área de conhecimento, é muito dividida. Você tem diferentes orientações teóricas, diferentes programas de pesquisa, não há uma unidade na área. Então, eu não posso responder como sai a Ciência Política em geral. No que diz respeito ao pensamento progressista, a uma área que poderíamos denominar de “histórico-crítica”, eu penso que essa área foi surpreendida pelo crescimento da candidatura Jair Bolsonaro. Muitos - e eu penso que eram a maioria - imaginavam que a candidatura Jair Bolsonaro iria perder força durante a campanha eleitoral devido às características e mesmo ao despreparo do candidato Jair Bolsonaro. Não foi o que aconteceu. Imaginavam que ele tinha batido no teto e essa previsão revelou-se equivocada. Acredito que o próprio Partido dos Trabalhadores também avaliou erroneamente, deixando na campanha do primeiro turno de focar na crítica ao Jair Bolsonaro, desconstruir a candidatura do Jair Bolsonaro e o que aconteceu foi que acabou surpreendendo e acabou ultrapassando muito aquilo que imaginavam ser o seu teto de votos.

 

Eu penso que isso se deve basicamente à dois fatores: o primeiro fator, você citou, são os novos meios de comunicação o WhatsApp e a leniência a condescendência do Tribunal Superior Eleitoral que permitiu que o candidato recebesse financiamento empresarial de campanha. Vários vídeos na internet que mostram empresários fazendo coleta de dinheiro para financiar a campanha do Bolsonaro pelo Whats App - existem matérias jornalísticas que mostram isso - e o TSE foi condescendente com isso tudo. Esse é um primeiro fator: a guerra nas redes sociais. O segundo fator, foi que o candidato Jair Bolsonaro logrou penetrar nas camadas de baixa renda de zero a dois salários mínimos. Como ele fez para penetrar nessas camadas? O passaporte dele foi o preconceito. Porque o programa econômico e social dele não permitiria que ele obtivesse as intenções de voto e os votos de primeiro turno que ele obteve e está obtendo nessas camadas sociais. Ele mobilizou diferentemente da campanha do Aécio Neves em 2014, do José Serra em 2010 e do [Geraldo] Alckmin em 2006, que eram “campanhas laicas”, não tocavam de maneira forte nessa questão dos costumes e dos preconceitos. Usaram isso, mas usaram marginalmente. Bolsonaro fez disso um programa. Com isso, ele logrou penetrar nas camadas populares. Esse é o segundo fator que explica o forte crescimento e o favoritismo dele para eleição do próximo domingo.

 

BOCA: Mencionaste a questão do dito Caixa 2 e do financiamento da disseminação de notícias através empresas. O quanto desse apoio e dessa penetração de Bolsonaro é espontâneo e o quanto é influência estrutural?

 

BOITO: Eu acho que tem uma penetração estrutural numa grande parcela do eleitorado movida pelo antipetismo, entendendo o antipetismo num sentido amplo contra pobres, contra o movimento feminista, contra o movimento LGBT e contra, principalmente, a esquerda em geral.  Então, você tem um núcleo duro que já está declarando intenção de votar em Bolsonaro há meses, que é uma adesão orgânica, uma adesão estrutural à candidatura do Bolsonaro e representa um movimento neofascista no Brasil. Outra coisa é a expansão de votos que ele teve a partir dos dias 29 e 30 de outubro. Boa parte dessa nova camada do eleitorado que passou a votar em Bolsonaro tem uma adesão menos sólida, uma adesão mais frouxa. Eu acredito que, dessa nova onda de votos, boa parte pode ser revertida para eleição de domingo. Como mostram as pesquisas, a diferença entre [Jair] Bolsonaro e [Fernando] Haddad [PT] está diminuindo a tal ponto que, embora Bolsonaro seja ainda o franco favorito, começa-se a vislumbrar a possibilidade de quem sabe até de uma virada. Mas, principalmente quer dizer que depois das eleições tem todo um trabalho político a ser feito junto a essa camada, que não é fascista, embora vote no Bolsonaro. E é possível trabalhar junto a essa parte da população de modo a ganhá-los para o campo democrático e popular.

 

BOCA: Existem várias análises de situações pontuais de conjunturas realizadas por Karl Marx. Algumas das mais conhecidas são a ascensão do Luís Bonaparte e Comuna de Paris. Quais os primeiros passos a se tomar para proceder uma análise “marxista” de conjuntura?

 

BOITO: O primeiro passo, o mais fundamental, consiste em procurar qual é a relação do processo político brasileiro, seus personagens, seus conflitos, suas instituições - inclusive suas instituições partidárias - com a economia e a sociedade. O elo para se estabelecer esse vínculo são os conflitos distributivos de classe, que são conflitos que colocam em presença classes, camadas e frações de classes. Não é um conflito simples entre, de um lado, a burguesia e, de outro lado, os trabalhadores. A burguesia tem suas frações, suas segmentações internas, com interesses econômicos imediatos diferenciados. O campo popular e dos trabalhadores também é diversificado você tem o operariado stricto sensu, a classe média com diferentes frações, os trabalhadores da massa marginal, o campesinato. Você deve considerar esse campo complexo, todas essas forças em presença, que estão envolvidas em um conflito distributivo de classe muito forte. De tal modo que a gente pode dizer que o processo político brasileiro tem sido governado por esse conflito distributivo de classe. Isso aparece no processo político de maneiras muitas vezes dissimuladas, isso não é evidente. É a pesquisa empírica, a mobilização de conceitos apropriados que permite estabelecer essa vinculação. Mais recentemente, com o fenômeno do neofascismo capitaneado pela candidatura de Jair Bolsonaro, nós tivemos o crescimento da importância de um outro elemento que é o conflito em torno das questões de gênero que envolvem o movimento feminista, o movimento LGBT e também racial.

 

O passaporte do Bolsonaro para as camadas de baixa renda foi explorar o que existe de machismo, de homofobia nas camadas populares. Você tem uma intersecção entre o conflito distributivo e o conflito de valores. Na verdade, a base eleitoral do lulismo era um voto econômico: quem é pobre vota em Lula. Todas as pesquisas e todas as apurações de voto evidenciam isso, se tratava de um voto econômico. Bolsonaro está conseguindo, em parte dessa população, fazer com que abandonem o voto pelo econômico - que eu estou chamando de voto econômico, quer dizer, voto de acordo com os seus próprios interesses de camadas populares empobrecidas ou de baixa renda - e faça um voto priorizando a questão dos costumes e a questão moral contra os seus interesses econômicos. O quadro é complexo. Uma análise marxista deve considerar, portanto, um conflito distributivo de classe e um conflito de valores e procurar vincular isso àquilo que nós vemos no processo político nacional. Nós não podemos confinar a análise da política àquilo que seria o nível processo político stricto sensu. Tem que analisar o processo político, ver suas especificidades e, ao mesmo tempo, perceber a vinculação com os conflitos sociais. Esse é o passo inicial e fundamental para qualquer análise marxista da crise que teve a deposição da Dilma Rousseff [PT, em 2016] e agora a ascensão do neofascismo no Brasil.

 

BOCA: Qual parte da sua pesquisa nos últimos anos tem se focado no papel das frações burguesas no Brasil e como essas frações burguesas têm atuado? Jair Bolsonaro, desde antes da oficialização da sua candidatura, tem apoio declarado de uma determinada fração burguesa, que são esses grandes varejistas do Brasil: Riachuelo, Americanas, Havan. O que isso quer dizer sobre a candidatura do Bolsonaro e sobre a movimentação desses grandes varejistas no sentido do neofascismo?

 

BOITO: Você faz uma pergunta muito difícil de responder. Estão juntos com o Bolsonaro, em primeiro lugar, os proprietários de terra. O que as associações de proprietário de terra têm evidenciado é que, embora a política econômica dos governos do PT tenha favorecido esses proprietários de terra e isso em evidente contraste com o que aconteceu no governos do Fernando Henrique [Cardoso, PSDB], porque os governos do Fernando Henrique derrubaram o preço da terra, porque ele cortou financiamento público e enxugou a política de preços mínimos a ponto que, na década de 1990, nós tivemos os tratoraços em Brasília, com proprietário de terra protestando contra a política econômica do governo. Com os governos do PT isso mudou, porque eles [os proprietários de terra] cresceram muito, voltaram a receber financiamento público, voltaram a ter políticas de preços mínimos. No entanto, eles foram, de modo crescente, se sentindo ameaçados pelo movimento indígena por demarcação de terra, pelo movimento quilombola por demarcação de terra e pelo camponês por desapropriação de terras. Isso fica claro nas análises dos documentos das associações de ruralistas. Por esse motivo, os ruralistas foram - no que diz respeito à classe burguesa - uma força de vanguarda no apoio ao bolsonarismo. Não só chegaram primeiro, como chegaram com uma contundência muito grande, como atestam vários documentos das associações ruralistas quando aderiram à candidatura do Bolsonaro. São textos muito agressivos, muito reacionários, muito ameaçadores. Quanto ao comércio, essa é uma questão que eu, francamente, não tenho uma resposta acabada para essa pergunta. Eu me perguntei se não seria devido à pregação do Bolsonaro a favor da segurança, porque esse é um setor que é muito ameaçado por algo que não é muito comentado, mas que é muito grande no Brasil. É a indústria do roubo de cargas. Os números são impressionantes sobre o roubo de cargas. Também o comércio varejista é vítima de assalto. Eu me perguntei se não seria devido a essa exposição do comércio aos roubos, assaltos a mão armada, etc. Mas, francamente, não sei dizer muita coisa além disso.

 

BOCA: No recente livro sobre conjuntura “Só mais um esforço”, o filósofo Vladimir Safatle afirma que, na crise conjuntural que a esquerda tem passado no Brasil, os intelectuais têm um forte papel por não terem - simplificando - se envolvido diretamente e terem, muitas, lavado as mãos. Na sua concepção, qual é o papel da intelectualidade nessa situação de crise?

 

BOITO: Nós não podemos tratar os intelectuais como um bloco homogêneo.  Discordo dessa ideia de que os intelectuais não fizeram isso, deveriam fazer aquilo. Isso é uma abordagem simplificada do problema. A camada intelectual é dividida pelos conflitos de classe, você tem intelectuais progressistas, intelectuais conservadores e intelectuais neofascistas. Tá me fugindo o nome dele agora, aquele que reside nos Estados Unidos, é um ideólogo da extrema direita, brasileiro…

 

BOCA: Olavo de Carvalho.

 

BOITO: Olavo de Carvalho, claro. Ele é um intelectual no sentido Gramsciano, mas é um intelectual neofascista. Não podemos conclamar os intelectuais no geral, nem nos decepcionar com os intelectuais em geral. O que nós devemos nos perguntar é onde estão e o que fazem os intelectuais progressistas. Eu penso que grande parte deles está engajada na luta contra o neofascismo. Devemos aumentar e ampliar esse engajamento para contribuir para virar o jogo nessas eleições, o que é difícil, mas não é impossível. Mas, principalmente, para nos prepararmos para o que vai vir depois da eleição de domingo.

 

* Revisão e edição: Kauane Müller.

Essa entrevista faz parte da série "Diálogos sobre as Eleições" que também entrevistou Sabrina Fernandes e Rosana Soares Campos.

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