2018 por BOCA Jornalismo.

Luiz Ruffato: “quando você cria, você é o mundo”

Luiz Ruffato é mineiro de Cataguases. Filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Desde o início, tinha um foco nítido: retratar o operariado brasileiro, personagem central de todas as suas obras. Atento aos corpos subalternos, aos trabalhadores urbanos e aos problemas sociais da grande cidade, seus livros têm como característica principal o interesse pelo invisível.

 

Ruffato é conhecido pelo romance Eles eram muitos cavalos, que ganhou o Troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional. Em 2011, encerrou seu grande projeto, a pentalogia Inferno Provisório - composta pelos romances Mamma, Son Tanto Felice (2005), O Mundo Inimigo (2005), Vista Parcial da Noite (2006), O Livro das Impossibilidades (2008) e Domingo sem Deus (2011). A pentalogia foi lançada também em volume único.

 

Em setembro de 2018, ainda antes das eleições de 2018, Santa Maria recebeu Luiz Ruffato, que veio à cidade para a Festa Literária de Santa Maria (FLISM), onde também lançou seu livro mais recente, A cidade dorme. O Boca Jornalismo conversou com ele sobre o percurso da escrita, os trabalhadores urbanos, o Brasil neurótico e a relação entre história, memória e presente na realidade brasileira.

 

Luiz Ruffato e a literatura da invisibilidade. Foto: Leonardo Catto e Karoline Santi // Boca Jornalismo.

 

BOCA JORNALISMO: Você é jornalista de formação, atuou em jornalismo e antes disso trabalhou na indústria têxtil. Eu vejo esse caminho e acho que ele está presente na sua obra. Como você vê esse processo?

 

LUIZ RUFFATO: Na verdade, eu não trabalhei só como operário têxtil. Eu trabalhei também como operário têxtil. Eu me formei em tornearia mecânica no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], trabalhei como torneiro mecânico. Eu trabalhei com um monte de coisa antes de fazer faculdade. Depois que me formei em Jornalismo, também teve um período que eu fiz outras coisas. Todas essas coisas que eu fiz, evidentemente, de alguma maneira, enriqueceram minha experiência pessoal. Eu acho que o grande mistério que existe quando você cria é que, sem saber, você é o mundo. Evidentemente que essas experiências foram importantes para que eu pudesse desenvolver o meu trabalho literário. Mas tem um monte de coisa que eu nunca fiz na minha vida que também estão presentes na minha literatura. Portanto, eu acredito que tem uma parte disso que é mensurável, reconhecível. E existe a outra parte que não é mensurável, não é reconhecível, que são muitas outras coisas extremamente importantes para minha experiência. Por exemplo, leituras de livros em que você vive em mundos que você nunca viveu e isso passa a fazer parte do seu próprio mundo. Ou de pessoas que você escuta e não ouve - porque são duas coisas diferentes - e essas coisas passam a fazer parte da sua experiência pessoal. Eu me sinto como uma espécie de receptor universal, de tal maneira que todas as coisas que me afetam passam a ser minhas. E eu vou usá-las com certeza um dia.

 

BOCA: Eu percebo nos teus livros essa recepção da realidade ou de várias realidades. A realidade é a matéria-prima do teu trabalho?

 

RUFFATO: Acho que isso não se dá de uma maneira tão simples assim. Eu não anoto absolutamente nada. Inclusive, tem gente que fala “ah, você é escritor” e me dá aqueles moleskines de presente. Eu não faço nada com aquilo. Depois eu junto tudo e dou de presente pra alguém. Porque eu não anoto absolutamente nada, não fotografo nada, não gravo nada. Como eu me aproprio dessa realidade que você falou? Pelo meu corpo. Meu corpo é meu caderno de anotações. Evidentemente, isso não é uma coisa pensada, eu falo hoje retrospectivamente. Por exemplo, eu vir a Santa Maria significa vir com meu corpo. Quando eu lembrar de Santa Maria, vou lembrar como estava o tempo, se estava quente, se estava frio, vou lembrar das coisas que vi, das coisas que ouvi, das coisas que senti, das coisas que comi, e Santa Maria pra mim presentificou-se dessa maneira. A pergunta é simples, mas a resposta não é tão simples assim, porque não é uma mera apropriação da realidade, não há mimetismo. A realidade existe, ela vai, de alguma maneira, me afetar, mas como ela vai ser apropriada eu não sei, mas ela vai me afetar como um todo. Pode ser que disso saia alguma coisa um dia, pode ser que não saia, eu não sou capaz de determinar.

 

BOCA: É uma decisão consciente essa afetação?

 

RUFFATO: Não é consciente. Eu acho que você domina certas coisas e certas coisas não domina. Por exemplo, eu nunca, na minha vida, sentei pra fazer esquema de livro. Eu conheço muitos escritores que falam que fazem assim, eles sabem exatamente o que vai acontecer, o que vem na página 46… eu não sei absolutamente nada. Vou te dar um exemplo que eu acho que fica fácil de compreender. Mapa da África. Tá na sua cabeça. Imagina que você vai sair de Dakar, no Senegal, na Costa Leste da África, e quer ir para o Cairo, lá no outro lado. Entre o Cairo e Dakar tem o grande Deserto do Saara. Eu não conheço o Deserto do Saara, inclusive, porque todos os dias ou quase todas as horas ele muda, por causa do vento, as dunas mudam de lugar. Quem conhece bem o Deserto do Saara? O camelo. Eu não sou besta. Eu monto no camelo em Dakar e deixo ele me levar até o Cairo. O caminho que ele vai fazer você mais ou menos sabe, agora, por onde exatamente ele vai passar eu não tenho a menor ideia. É assim que eu funciono. Eu sei, quando começo um livro, de onde vou sair e onde eu quero chegar. Não significa que eu vou chegar, é onde eu quero chegar. Mais ou menos sei que esse caminho vai passar por aqui ou por ali, mas como eu não sei e não me interessa saber. Eu gosto de ser surpreendido também.

 

Os trabalhadores urbanos são personagens centrais na obra de Luiz Ruffato. Foto Leonardo Catto e Karoline Santi // Boca Jornalismo.

 

BOCA: Os teus livros têm uma relação muito forte com o urbano, com a cidade e como as pessoas se movimentam e vivem nesse lugar. Quem são essas pessoas? Como você chega até elas? São pessoas que você conheceu em algum momento ou que você criou a partir desse universo?

 

RUFFATO: Eu também gostaria de saber. Não é uma coisa racional. Eu acho que, no fundo, a gente é feito de várias pessoas. A gente não é uma pessoa, mas várias pessoas. Vou tentar dar um exemplo concreto. Nesse meu último livro A cidade dorme tem a história de uma menina boliviana, na Avenida Paulista, tentando vender uns guarda-chuvas. Eu conheci essa pessoa? Não conheci, nunca. Mas eu vi várias pessoas, ao longo da minha vida, vendendo ou tentando vender coisas. Dessas várias pessoas, algumas eram bolivianas. Qual é o sentimento dessa pessoa quando ela está naquela situação de absoluta fragilidade do ponto de vista econômico, social, etc.? Eu sei, não precisa ninguém me contar. Então, no fundo, eu estou pegando um monte de elementos de diversos lugares e colocando numa história. Inclusive, porque ali tem um cara que está fazendo papel de Papai Noel, um Papai Noel de aluguel. Eu nunca fui Papai Noel de aluguel, nunca conheci um Papai Noel de aluguel, mas eu sou perfeitamente capaz de compreender o que é você ter a necessidade de vender sua força de trabalho das maneiras mais diversas possíveis. Você vai juntando coisas, você não precisa necessariamente conhecer com profundidade um determinado personagem pra você o compor. Eu nunca fiz e nunca vou fazer aquela coisa de laboratório: “ah, eu vou agora morar na favela pra saber como as pessoas da favela vivem”. Você nunca vai saber porque você vai escrever como uma pessoa que foi na favela viver uma experiência, você não vai ser um favelado. Eu não acredito nessa coisa de laboratório. Pro teatro sim, é diferente, é um ator representando, mas eu não sou um ator representando. Eu estou vivendo situações. No fundo, você vai se apropriando das coisas, mas é você, é sua capacidade de empatia, de construir uma empatia em relação ao outro e tentar ver o mundo a partir do ponto de vista do outro.

 

BOCA: A tua obra tem histórias que chocam e atraem pelo diferente, por exemplo, o capítulo Rato, de Eles eram muitos cavalos. No mesmo livro, temos histórias extremamente próximas, como em O que quer uma mulher. E vejo isso perpassando toda a tua obra. Como você encontra esses dois aspectos e os coloca pra conversar?

 

RUFFATO: Pra mim, a literatura que interessa, não só como escritor, mas também como leitor, é a literatura que me transforma, porque eu me reconheço nela ou porque ela é completamente diferente de mim. Eu tento fazer esse exercício de tentar compreender o mundo a partir dessas duas realidades. Eu nunca vivi numa favela, não fiz laboratório para aquele texto dos rato, da mesma forma que aquela realidade é completamente longínqua de você. Mas você de alguma maneira se reconheceu em alguma coisa nele. Eu também.

 

Eu gostaria até de ser bacana agora, inteligente, e falar como acontece. Não sei, eu tô sendo honesto. Vou falar uma coisa que as pessoas podem achar muito esquisito. Acho que nós temos papéis sociais e todos os papéis são importantes. Quando nós éramos homens e mulheres das cavernas, nós tínhamos funções dentro dessa pequena sociedade primitiva. Os homens iam caçar, as mulheres iam fazer outra coisa, ou o contrário, não sei, depende do tipo de sociedade. De qualquer maneira, à noite, eles se reuniam em volta da fogueira para compartilhar as experiências. Um cara meio esquisito ficava escutando todo mundo falar. Depois, quando todo mundo ia dormir, ele ia com uma tocha - coitado - na caverna e começava a desenhar as coisas que ele ouviu naquele dia. Por que ele fazia isso? Porque ele achava que, de alguma maneira, era importante. No início, ele tentava fazer aquilo de uma maneira realista. Mas, como isso era muito difícil, porque ele estava com a tochinha dele, ele começou a tentar dar simbolismo pra isso, que ele sabia o que era. E quando alguém perguntava “como é mesmo que aquele cara matou?”, ele olhava e descrevia simbolicamente aquilo que estava lá. Eu acho que, embora nós tenhamos construído toda uma história depois disso, continuam existindo algumas pessoas que, na sociedade, têm esse papel de tentar construir simbolicamente essas experiências que são comuns. Evidentemente, que nós caminhamos muito de lá pra cá, e hoje você tem, inclusive, uma literatura de entretenimento, que é uma literatura também importante, mas é de entretenimento, não é de experiência, ela não tem essa densidade de divergência. Mas continua existindo uma literatura que busca a transcendência, que é essa literatura que busca reconstruir simbolicamente as experiências de uma comunidade. Por que essa pessoa foi escolhida pra fazer isso? Não sei. Aquela pessoa, lá atrás, também foi escolhida e não foi assim “você vai fazer isso”. Eu acho que continua sendo um pouco isso, mas pode ser que eu esteja completamente equivocado. Eu não tenho a verdade, só tô aqui pensando alto.

 

BOCA: De mim já nem se lembra foi escrito no formato de cartas. Desde Eles eram muitos cavalos, aparecem diferentes formatos em toda a tua obra, quase numa subversão da prosa. Por que a escolha por escrever nesses formatos?

 

RUFFATO: [Gustave] Flaubert, acho que em A Educação sentimental, fala uma coisa muito curiosa. Ele fala que cada história tem uma forma de ser contada e a grande questão do escritor não é escrever história, é encontrar a forma adequada para contar uma história. Quando eu estava no primeiro ano de faculdade, e comecei a pensar nessa hipótese de tentar preencher essa lacuna da inexistência de personagens de classe média baixa urbana na literatura brasileira, eu tinha mais ou menos certo o quê queria escrever, mas não tinha a menor ideia de como eu ia escrever sobre isso. Eu sou um aquariano determinado e falei “eu não vou escrever nem uma linha, enquanto não descobrir a maneira que eu posso fazer isso”. Quando chegou 2000, eu escrevi Eles eram muitos cavalos, que é uma espécie de compêndio de várias possibilidades narrativas. Eu fui pensando “essa história vou escrever com esse formato, essa história vou escrever com esse…”. Claro que não foi tão racional assim, a forma nasce junto com o conteúdo, mas, conscientemente, eu queria fazer um compêndio de narrativas para entender qual a maneira ideal para escrever o que eu queria escrever - que não era o Eles eram muitos cavalos, era outro livro, o Inferno provisório. Quando fiz esse exercício, descobri que, na verdade, eu não tinha que partir de uma forma para construir uma história, eu tinha que construir a história exatamente junto com a forma. Quando eu descobri isso, ficou mais fácil pra mim, porque eu sabia exatamente qual a maneira que eu tinha que me comportar. Ou seja, eu tinha que deixar a história narrar-se. Eu tinha que ser apenas um mero mediador da história que ia ser contada e da maneira que ela estava sendo contada. Por isso, de alguma maneira, cada livro meu dialoga com uma forma específica, eles não se repetem, cada livro é um livro, cada livro traz junto com ele uma forma que não é original, porque não há originalidade, mas ela é um diálogo com uma forma anterior e que eu tento atualizar essa forma anterior. Da mesma maneira, eu não tenho muito claro pra mim, de saída, como fazer aquilo, a história é que vai me dizendo. À medida que vou construindo, vou descobrindo o procedimento. Eu me deixo levar, eu não quero controlar, não.

 

“A história política brasileira é uma história de ditaduras com pequenos lapsos de democracia”, diz Ruffato. Foto: Leonardo Catto e Karoline Santi // Boca Jornalismo.

 

BOCA: Um dos últimos eventos que você participou falava sobre o Brasil neurótico. Nós temos um Brasil neurótico?

 

RUFFATO: Acho que nós somos um Brasil neurótico. O que é a neurose, do ponto de vista psicanalítico? É a repetição de respostas a problemas diferentes. Por exemplo, um dia, você estava dormindo e, quando você acordou, tinha uma aranha em cima de você. Você teve um susto tão grande que você ficou traumatizado com aquilo e, todas as vezes que você vê uma aranha, mesmo que seja num livro, você tem a mesmíssima reação. Não é uma reação normal. Você está dando respostas idênticas a problemas diferentes. Se você não faz esse trabalho de tentar entender o porquê, você vai continuar dando respostas iguais a problemas diferentes.

 

A história política brasileira é uma história de ditaduras com pequenos lapsos de democracia. Nossa história é a história de um trauma. O império termina com um golpe de Estado, que dá início à República Velha; a República Velha termina com um golpe de Estado, que dá na República Nova; dentro da República Nova, há um golpe de Estado que dá início à ditadura de Vargas; nós temos um pequeno período de democracia e um golpe de Estado dá na Ditadura Militar; agora, em 2016, nós tivemos um outro golpe. Quando você pergunta para as pessoas em quem elas vão votar, elas falam que vão votar no [Jair] Bolsonaro, porque ele representa a mesmíssima resposta que nós demos sempre que algum problema estava nos apavorando, que é autoritarismo, que é você entregar para alguém, messianicamente, resolver o seu problema. Porque nós nunca resolvemos o nosso problema, a gente não pensa sobre o nosso passado. A ditadura militar começou em 1964 com o Golpe Militar e terminou em 1985. Ontem. Se você for verificar, por exemplo, quantos livros de literatura foram escritos sobre isso, não tem quase nada. Se você for perguntar quantas pessoas refletiram, propuseram reflexões a respeito disso, quase nada. Como termina a Ditadura Militar no Brasil? Com uma anistia ampla, geral e irrestrita. Ou seja, você traz de volta as pessoas que lutaram contra a ditadura, perdoa-as por terem lutado contra a ditadura e perdoa torturadores, perdoa pessoas que usufruíram daquilo. A gente não quer deitar no divã e pensar sobre o nosso passado, nós vamos continuar repetindo a mesma coisa. Agora, o General Villas Boas, que é o comandante do Exército Brasileiro, foi visitar Bolsonaro em São Paulo e o mandado dele, o Mourão, disse com todas as letras que, numa situação de caos e de perigo - seja lá que perigo for esse -, o presidente pode dar um auto-golpe com o apoio das Forças Armadas. Ninguém recriminou. Portanto, é isso que é o nosso Brasil neurótico, ele dá respostas iguais a problemas diferentes. Enquanto, nós não conseguirmos olhar para aquilo que nós somos, para aquilo que queremos ser, nós vamos continuar fazendo a mesmíssima coisa, infelizmente.

 

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