2018 por BOCA Jornalismo.

Rap Plus Size: contra toda forma de opressão

Enquanto lê, ouça:


  

Em dezembro de 2018, o Grita, festival independente de arte e música feminina de Santa Maria, promoveu uma noite ao som de muito rap no Rockers Soul Food. Para a abertura, as santa-marienses do Rima das Minas assumiram o palco. Naquele noite, Mc Monteiro, Thai Spencer e Nandi, Mc Gabi RTK, Mc West Mika e Mc Leti e Nazo representaram a cidade. Nas suas vozes carregavam o peso de ser resistência. Em seguida, Issa Paz e Sara Donato, MC’s que são as vozes do Rap Plus Size, assumiram o show.  

 

Desde 2016, com “Rap Plus Size”, álbum de estreia, o duo movimenta o cenário do rap brasileiro. Com letras que exaltam a importância da representatividade, Issa e Sara mesclam música e ativismo. Nas rimas e em seus corpos, carregam a si e a outras mulheres, pessoas negras, gordas, transexuais, pobres, faveladas. No rap, o combate ao machismo, a quebra de padrões estéticos, a LGBTfobia, as questões de gênero e o empoderamento pela música.

 

O BOCA Jornalismo aproveitou a passagem da dupla por Santa Maria e conversou sobre música, o Rap Plus Size, gordofobia, machismo e resistência.

 

Sara Donato e Issa Paz enxergam o rap como forma de resistência. Foto: Fernanda Bona // Grita.

 

BOCA JORNALISMO: Por que vocês escolheram ou chegaram até o rap?

 

ISSA PAZ: Eu comecei a ouvir rap porque eu gostava muito de poesia desde pequenininha. Minha tia tinha uns livros de poesia e eu ficando abrindo… eu não sabia ler porra nenhuma, mas ficava recitando “ser ou não ser, eis a questão”. Aí eu conheci o rap e já fazia umas rima brincando com meus tios nos churrascos de família. Novinha mesmo, tipo com uns 8 anos. Depois, com uns 12 anos, eu comecei a pesquisar bastante e achei o rap por causa da poesia. Comecei a fazer meus próprios sons, participar de batalhas e foi assim.

 

SARA DONATO: Eu sempre ouvi muito rap, né. Morei um tempo com minha tia e tinha dois primos que ouviam muito rap. Eles ouviam escondido do meu tio, eu brincava no quintal e eles ficavam ouvindo rap. Aí eu perguntei pro meu irmão: “o que vocês tão fazendo aí?”. perguntei pro meu irmão porque ele também ficava lá. Ele disse “tamo ouvindo rap”, “ah, quero ouvir também”. Aí a gente entrou pro quartinho que era dos meus primos e começamos a ouvir e pensar: como alguém que eu não conheço, que não sei quem é, que eu nunca ouvi na minha vida e que não é daqui de onde eu moro tem uma realidade tão parecida com a minha?  Comecei a entender que isso era o rap, né. Desde então eu sempre gostei, sempre fui em show de rap e tal. Comecei a entender que eu também poderia fazer isso. Isso foi um pouco mais pra frente, tipo com 14 anos, foi quando comecei a fazer, de fato, rap.

 

BOCA: Vocês têm uma história anterior na música até chegarem ao Rap Plus Size. Como foi?

 

ISSA: A gente já era amigas já de corre de rap. Eu fazia uns eventos numa quebrada perto do meu bairro na zona norte [de São Paulo], aí chamei a Sara pra cantar uma vez e ela foi, isso em 2011. Depois disso, sempre que ela ia pra São Paulo, ficava lá em casa. Já fui pra São Carlos [no interior de São Paulo] e a gente fez um rolê juntas. A gente fazia uns sons juntas também. Eu pesquisei bastante alguns discos, estava com um projeto em 2014 chamado “Um disco por dia”, projeto pessoal mesmo. Eu ouvia um disco por dia e postava numa página pra ter um controle e as pessoas curtiram a ideia. Surgiu um monte de matéria, ninguém sabia quem era eu e aí as pessoas ficaram sabendo, né. Nesse projeto, eu ouvi um disco do Method Man com o Redman, chamado Blackout. O Method Man é do [grupo de rap] Wu Tang Clan. A gente sempre curtiu muito e eu disse “nossa, mano, daora, tinha que fazer um disco assim com alguém”. Eu estava no processo de criação do primeiro disco solo, logo veio a Sara na minha cabeça. A gente ia falar sobre várias coisas interessantes que precisam ser faladas. Aí dei um salve nela e disse “vamo fazer esse trampo aí”. Ela ficou meio assim, né? Tipo, como vamo fazer um trampo desses?

 

SARA: É porque eu morava no interior, né. Como vamos ter um grupo eu morando no interior e ela em São Paulo? Meio díficil. Aí, ela disse “vem morar comigo e faz nosso corre aqui”. Fui pra São Paulo e a gente foi morar junto e nesse corre gravando CD, vendendo CD e tamo aí até hoje.

 

Para Sara Donato, a música tem poder de transformação. Foto: Angélica Borges // Grita.

 

BOCA:  A música de vocês está  muito ligada com as identidades de vocês e com os lugares que vocês ocupam no mundo. Vocês fazem música sobre as suas realidades?

 

SARA: Na verdade, acho que acaba sendo um bagulho orgânico, que acontece porque, de fato, a gente canta o que vive, mas, para além disso, a gente faz rap e faz música. Só que acaba sendo sobre nós. E a gente acaba descobrindo no meio desse caminho que não é só sobre nós e que atinge muito gente. Muita gente ouve eu falando de uma realidade minha, mas que outra pessoa pode se identificar. Entendemos que não é só sobre a gente, não é só sobre Issa e só sobre mim. A gente acaba vendo o poder da música de transformar. As minhas letras são sobre o que eu sou, o que estou me tornando e no que eu acredito.

 

ISSA: O rap fez isso comigo: ele abriu minha mente. Eu não imaginava  que o mundo era do jeito que era. Até por causa da minha criação. O rap abriu minha mente mesmo, rasgou o véu e me fez buscar cada vez mais conhecimento. É isso que eu espero do meu rap,  que eu posso abrir a mente e mudar perspectivas e tudo voltado pro conhecimento, pra racionalidade. Do fato da gente realmente se questionar por que a gente está sob uma estrutura que é massacrante, que precisa ter um patriarcado, um Estado. Falta compreensão das pessoas sobre o que a gente tá vivendo e se isso é daora pra todo mundo mesmo.  “Ah, capitalismo, tô aí nem aí! Adoro minha TV de 60 polegadas”. Mas não entende a opressão do porquê tu tem uma TV e outras pessoas são exploradas por causa disso. Se a gente não falar sobre isso, ninguém vai saber porque isso acontece. Todo mundo vai continuar acreditando na Globo e no Bolsonaro. E a gente acredita também que o nosso corpo, se assumindo como ele é, ele quebra o padrão e racha o muro do sistema porque o estamos subvertendo. É libertador, é a nossa vivência que vai derrubar o sistema, modificando o nosso redor, identificando e aceitando. É nisso que “nóis” acredita.

 

Issa Paz vê o rap como forma de conhecimento. Foto: Angélica Borges // Grita.

 

BOCA: As gurias do rap de Santa Maria assumem a frente da cena, mas falam como é foda estar nesse cenário. Como é pra vocês?

 

SARA: Acho que é difícil pra todo mundo, né. Só que, quanto mais fora do eixo Rio-São Paulo, fica mais difícil. Os holofotes estão em São Paulo. Eu estou em São Paulo e tenho mais acesso, querendo ou não. Acho que vai muito disso, da região em que você está inserida. Eu acabo percebendo que é uma cena masculinizada: tem várias minas, mas os caras nao apoiam, não põem as minas pra cantar. E é isso, as minas vão desacreditando no bagulho. “Ah, isso não é pra mim, não”. E vão deixando de lado o sonho porque acham que aquilo não é pra elas. No mainstream também, se você for ver, não tem mulheres, não tem pessoas trans. São só os caras cis, hétero e brancos.

 

ISSA: E, quando tem mina, é muito padrão.

 

SARA: E sexualizada a todo momento. A gente vê que é difícil nascer mulher nessa cena. O que eu vejo é que é nós por nós. Pra fortalecer a luta das minas. Se não for assim, a gente não vai conseguir nada. Se a gente for esperar os caras, vamos morrer esperando, porque eles não  ligam. Se num palco tem cinquenta grupos de caras e não tem um mina, eles não vão questionar isso. Os caras vão ser chamados para uma festa d\e um famoso, no line vai ter cinco grupos da cidade e nenhuma mina, mesmo eles conhecendo as minas e colando com elas. O silenciamento e o boicote são muito grandes, não só no rap. A gente está aí para quebrar tudo isso, para se juntar e mostrar que as mulheres, as pessoas trans estão aí existindo, sabe? Mas cadê elas nos espaços? Se não estão nos espaços, tem alguma coisa errada porque tem gente fazendo.

 

 

BOCA: A presença de vocês no rap, com os seus corpos, é uma forma de resistência?

 

ISSA: Total. Porque a gente vai contra tudo o que esse sistema coloca para a gente. Primeiro, se a gente reconhece que vivemos uma socialização imposta, a gente pode romper essa socialização. Podemos ressocializar da forma como a gente quer e socializar com quem a gente quer, né? A gente pode criar novas microssociedades dentro do nosso grupo de contatos e amigos. Onde a gente possa se sentir bem, saca? E a gente tá construindo essa realidade, isso é parte essencial de ruir essa estrutura. Se identificar, não aceitar um espaço que não é seguro, parar de aceitar pessoas que vão prejudicar sua mente por ser quem é. Tem tudo a ver com não mais acreditar nisso tudo, é tudo imposição. E agora o que a gente vai construir, então? Quem eu vou construir aqui dentro de mim? Para onde eu vou? Para que caminho eu vou? Caminho da autoaceitação, mano. Se olhar e falar: “daora mano, vou cortar o cabelo”. Cortou, curtiu. E vai se adaptando. Já parou para pensar como a gente se relaciona com as pessoas? Tudo é imposto: como a gente se relaciona, o que veste, o que come. Tudo, tá ligado? Desde os filme americanos até sua mãe falando “menina, senta de perna fechada”. Muita coisa controla nossa identidade, muita coisa imposta e a gente tem que destruir e construir algo novo pra gente, que seja seguro. Que seja exatamente aquilo que a gente é. A parte principal para rachar o sistema no meio não é só existir, é criar algo para si, desde o corpo que você está até o espaço que você frequenta. As pessoas que você se relaciona, como você quer se relacionar, como você quer se vestir. Recrie-se, essa é a ideia.

 

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