De ferroviários a professores

22/3/2018

Na esquina da Rua dos Andradas com a Rio Branco, o prédio onde hoje fica o supermercado Carrefour abrigou o que foi a maior escola técnica da cidade e provavelmente uma das maiores do estado. A Escola de Artes e Ofícios, depois chamada Escola Industrial Hugo Taylor, empregava cerca de 150 pessoas, entre funcionários e professores. Administrada com recursos da Cooperativa de Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, a  instituição era conduzida pelos padres maristas que enchiam as prateleiras de livros em francês. Ambos, padres e livros, vindos do Velho Continente.

 

Escola de Artes e Ofícios na década de 1930 (Foto: reprodução Relatório da COOPFER, 1933)

 

Wilson Bottega Alves raramente entra no prédio em questão, porque as prateleiras que seus olhos veem agora nada tem a ver com a lembrança dos corredores com chão de madeiras, dos vitrais nas janelas, do chá mate “que podia beber a vontade” no intervalo das aulas da tarde. O burburinho que se ouve no hipermercado em muito pouco se parece com aquele provocado pelas dezenas de adolescentes matriculados na Hugo Taylor em 1940, ano em que entrou para a escola.

 

Ele só se tornou mais um dentre aqueles rapazotes  porque cumpria ao principal pré-requisito para seleção naquela escola: ser filho de ferroviário. Era desejo da família que ele aprendesse um ofício, por isso, na noite anterior a seleção - que muito mais era uma inscrição - para ingresso na Escola de Artes e Ofícios, dormira vestido. O segredo era chegar cedo. Todavia, nem toda a ansiedade acumulada na proximidade de um dia tão importante foi capaz de acordá-lo no horário, pela manhã. Atrasado, ao chegar naquele prédio da esquina, deixou de lado a expectativa pela matrícula em elétrica ou mecânica e acabou colocando seu nome no menos prestigioso dos cursos: marcenaria, também o único em que restavam vagas.

 

 Móveis produzidos na seção de marcenaria da Escola ((Foto: reprodução Relatório da COOPFER, 1933)

 

“Eu era aluno externo” conta, o que significa que, diferente dos “internos”, não morava no internato da Escola. Com apenas 13 anos, o jovem Wilson saia de casa antes das 7h para as aulas, que iam até às 11:30h. Numa pernada, voltava para casa para o almoço que a mãe cozinhava, alternando-se entre o papel de dona de casa e costureira. O pai e esposo falecera pouco depois de se tornar empregado na ferrovia e a pensão por sua morte, fornecida pela própria Viação Férrea, não chegava a dar conta das despesas da criação dos filhos.

 

O sol do meio dia atingia Wilson em cheio quando, logo após o almoço, retornava para a Artes e Ofícios. Eram mais quatro horas de aula pela tarde, momento em que realizava-se a instrução de marcenaria. Além dos conhecimentos que lhe permitiram, na aposentadoria,  construir uma série de cadeiras e mesas inusitadas - com que entretém as visitas - ele guarda daquela época também a memória do som do sino que marcava o fim do intervalo. Aos 87 anos ainda visualiza o olhar do supervisor, sinal suficiente para que Wilson deixasse as brincadeiras e fosse logo badalar o instrumento. Resta-lhe a lembrança da fila indiana em direção às salas e a certeza sobre a grade das quintas-feira à tarde: instrução militar obrigatória.

 

 Wilson na área do atual Parque Itaimbé por volta de 1950 (Foto: reprodução arquivo pessoal)

 

Mas a  Hugo Taylor, com seu caráter técnico e industrial, não foi a única modalidade de ensino que prosperou na época, já que a Cooperativa de Empregados da Viação Férrea manteve também uma série de pequenas escolas ao longo dos trilhos. Conhecidas como “escolas turmeiras”, essas instituições de uma ou duas salas forneciam educação formal para as crianças durante o dia e, à noite, abrigavam os pais destas, num movimento pioneiro de alfabetização tardia. Os dados recolhidos pelo professor do departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, João Rodolpho Amaral Flôres, dão conta de que mais de 95 mil pessoas, entre crianças e adultos, foram alfabetizadas nas “turmeiras”.

 

Aspecto de uma escola turmeira (Foto: reprodução da Revista do Cinquentenário da COOPFER 1913-1963)

 

No auge da prosperidade financeira da Cooperativa houve mais de 100 dessas escolas no Rio Grande do Sul. Uma delas, a Rui Barbosa, localizada no Km3, em Santa Maria. Eram instituições temporárias: a abertura de uma nova escola dependia da reunião de equipes de manutenção e conservação em determinado ponto dos trilhos. As professoras eram jovens recém saídas de outra instituição mantida pelos ferroviários, a Escola do Menino Jesus Santa Terezinha.

 

Localizada no prédio que hoje abriga a Escola Estadual de Educação Básica Manoel Ribas, a Santa Terezinha foi, de 1930 à 1943, administrada exclusivamente pela Cooperativa. Apenas meninas, com a condição de serem filhas de ferroviários, eram admitidas na instituição. Cerca de 100 delas, vindas de outras cidades do estado, viviam no internato da escola. No auge das matrículas, em 1940, mais de 1200 alunas recebiam aulas de economia doméstica, costura e bordado, além do curso elementar (equivalente ao ensino fundamental). Wilson ainda lembra das paradas cívicas e militares, único momento do ano em que as meninas da Santa Terezinha e os meninos da Artes e Ofícios dividiam o mesmo espaço, marchando lado a lado.

 

Nos dias de paradas militares, os sons de bumbos e cornetas - uma das quais Wilson tocava - se confundiam com o apito do trem. Mais do que mera prática de segurança, o som estridente das locomotivas se aproximando era o sinal para que carregadores de diferentes hotéis da Rio Branco descessem à Gare, na esperança de convencer um ou outro viajante dos préstimos de sua hospedagem. Para Wilson, que ouvia o apito do trem da sala da casa da família, no final da Benjamim Constant, o som era um marcador das horas, espécie de despertador para aqueles que, de outra forma, pouco viam a passagem dos tempos.

 

Mas eles passam. Tanto passam, que de aluno ele se tornou empregado da escola em que estudava. Um curso de datilografia lhe afastou do futuro como marceneiro e ele acabou encerrado nos escritórios da Viação. Promovido a assistente da direção na inspetoria das ferrovias, passou a viajar pelo estado. Nem na primeira classe com bancos estofados, nem na segunda onde os acentos eram apenas madeira. Usava um passe de serviço para viajar nos trens húngaros, com banco reclinável e sistema de amortecedores.

 

Trem Minuano nº 500, na Estação Ferroviária de Santa Maria, 1950 (Foto:Núcleo de Preservação e Pesquisas Histórico-ferroviárias)

 

Na década de 70 já tinha assistido à escola em que estudou e trabalhava queimar em mais de uma ocasião. A primeira, em 1954, destruiu os dormitórios do internato. Era 20 de agosto, inverno, final do dia. Alertado pelo frenesi dos locutores de rádio, ele e centenas de outros santa-marienses se dirigiram ao mesmo destino. Na esquina da Rio Branco com a Andradas, braços cruzados e bocas sussurrantes erguiam preces para que as chamas se acalmassem. Não havia guarnição dos bombeiros na cidade.

 

 Populares reúnem-se nas proximidades do prédio em chamas (Foto: Revista do Cinquentenário da COOPFER 1913-9163)

 

Ao fogo soma-se a federalização das companhias estaduais e a diminuição drástica no repasse de recursos, que atinge a Cooperativa dos ferroviários em cheio. Iniciam-se os tempos de decadência do sistema educacional ferroviário, mas não o fim da tradição em educação da cidade. As elites santa-marienses, cujos filhos estudavam em escolas particulares, passam a acreditar na possibilidade de se ter ensino superior no interior do estado. Não era daqui a maior escola profissional do Rio Grande do Sul, reconhecida internacionalmente? Por que não ter também uma universidade?

 

Cidade ferroviária, cidade universitária.

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Este texto é a primeira parte da "Reportagem BOCA Março: A Ferrovia em Santa Maria". Você pode conferir a segunda parte aqui e a terceira, aqui.

 

 

 

 

 

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